Santa Catarina atravessa um período de aumento no número de casos da Covid-19. Para especialistas e autoridades sanitárias, a alta foi impulsionada por dois fatores principais: o descaso da população com relação aos protocolos sanitários aliado aos feriados desde 7 de setembro.
A faixa de areia foi disputada em alguns trechos da orla no Norte da Ilha de SC, no feriado do dia 12 de outubro – Foto: Anderson Coelho/NDFoi ao longo do mês de outubro que o Estado sentiu os reflexos do movimento gerado no primeiro feriado após a flexibilização de medidas. E o próximo mês não deve ser diferente.
A tendência é que o aumento no número de casos seja ainda maior, uma vez que os efeitos do feriadão de 12 de outubro, que teve registros de aglomeração e praias cheias, só devem ser sentidos em meados de novembro.
SeguirO comportamento da população e as consequências da passagem dessas datas acende o alerta e descortina um cenário nada animador. Vem aí mais um feriado – 2 de novembro, dia de Finados – e a temporada de verão.
Fases da Covid-19
O afrouxamento de medidas restritivas estaria levando o Estado a atravessar uma nova onda da Covid- 19, como destaca a professora Eleonora D’Orsi, que atua no Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Na mesma linha, o Necat (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense), vinculado à UFSC, analisa a curva de desenvolvimento da doença e destaca que, após mais de sete meses do primeiro registro, o mês de outubro representa uma terceira fase de propagação da Covid-19 no território catarinense. As primeiras fases seriam no mês de março e em julho.
O último boletim do Necat mostra que o número de casos da doença saltou de 231.412 em 15 de outubro, para 241.044 em 22 de outubro, data de publicação do documento. Isso representa um crescimento percentual de 4% e revela a contaminação de quase 10 mil pessoas em apenas uma semana.
Evolução do número de casos oficialmente registrados em SC – Gráfico: Secretaria Estadual da Saúde/Boletins Epidemiológicos/Necat/NDE a alta se manteve. Santa Catarina registrou, nesta quarta-feira (28), 2.652 casos da Covid-19, a maior alta diária de casos desde o dia 31 de agosto, quando o Estado contabilizou 2.697 casos.
Agora, o total é de 252.551 casos, com 237.563 (94%) dos pacientes já recuperados. Os dados são atualizados sempre ao final do dia.
Descaso da população
A superintendente da Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde, Raquel Bittencourt, diz que as atividades foram liberadas mediante regramentos que não estão sendo cumpridos pela população.
“Observamos pessoas se comportando como se estivéssemos em 2019. Sem máscara, se aglomerando em praias, restaurantes, festas clandestinas e até no ônibus. Achar que a pandemia já acabou iria refletir, mais cedo ou mais tarde. Estamos vendo agora o resultado disso”, alerta.
A especialista em Epidemiologia do Coes (Centro de Operações de Emergência em Saúde), Maria Cristina Willemann, diz que o período de campanha eleitoral também estaria contribuindo para as aglomerações.
A retomada massiva do trabalho presencial também gerou, naturalmente, um maior fluxo de pessoas nas ruas.
Nesse cenário, a especialista destaca dois fatores que são preocupantes: o fato das pessoas estarem cansadas de ficar em casa aliado à flexibilização das atividades por necessidade econômica.
O “cansaço” das pessoas também foi relatado pela superintendente da Vigilância em Saúde. Segundo ela, um novo lockdown estaria descartado e estabelecer regras para as atividades seria mais seguro do que suspendê-las. No entanto, é preciso cautela e respeito aos protocolos de segurança.
Fiscalização para obediência
O chefe do Departamento de Saúde Pública da UFSC, Fabrício Augusto Menegon, por outro lado, defende o fechamento de atividades não essenciais para conter o avanço da doença causada pelo novo coronavírus.
Ele diz que o comportamento das pessoas é reflexo da gestão do poder público. Sendo assim, faltaria uma fiscalização eficaz para fazer valer os protocolos estabelecidos em decretos.
“A questão da pandemia é de interesse coletivo, não individual. A população tem, sim, uma parcela de responsabilidade, mas é pequena em relação à política de enfrentamento. Só com ela vamos promover as mudanças necessárias para conter a doença”, afirma.
Da mesma forma, D’Orsi defende o fortalecimento da gestão pública. Ela ainda ressalta a necessidade da colaboração das pessoas e da adequação dos serviços de saúde, que precisam de mais profissionais para dar conta do aumento de casos.
Matriz com dados defasados
A Secretaria de Estado da Saúde divulga, semanalmente, a matriz de risco potencial para a Covid-19, que apresenta o quadro mais recente da doença nas 16 macrorregiões que compõem o território catarinense.
Quatro itens são levados em consideração na avaliação: evento sentinela, transmissibilidade, monitoramento e capacidade de atenção. A suspensão ou liberação das atividades é feita de acordo com o cenário indicado pela matriz.
Mapa de risco divulgado no dia 27 de outubro – Foto: Divulgação / NDPara Menegon, no entanto, a iniciativa do Estado teria perdido sua capacidade de identificação de risco. Isso porque o tópico “transmissibilidade” teria ficado defasado para identificar as altas no contágio e reverberá-las no mapa de regiões.
O professor destaca que a matriz subestima a realidade da pandemia no Estado. Como consequência, as políticas de enfrentamento formuladas pela gestão pública, que se baseia no mapa, não acompanham a gravidade do quadro.
Esse cenário já havia sido relatado pela especialista Maria Cristina em entrevista ao ND+ no dia 22 de outubro.
Segundo ela, o quadro da doença em Santa Catarina pode ser ainda pior do que o apresentado na matriz de risco, sobretudo na região da Grande Florianópolis. O motivo seria o atraso no repasse das informações ao governo do Estado.
Em contrapartida, a superintende da Vigilância em Saúde nega qualquer defasagem na matriz de risco e diz que os indicadores refletem os dados da semana anterior, conforme o sistema de informação do Ministério da Saúde.
Epicentro do contágio
A região da Grande Florianópolis é considerada o epicentro do contágio da Covid-19 em Santa Catarina.
Até a terceira semana de outubro, a região concentrava 44% do total de casos ativos no Estado, sendo que 97% deles estavam concentrados apenas em Biguaçu, Florianópolis, São José e Palhoça.
Os dados são do último boletim divulgado pelo Necat. Ainda segundo o periódico, a disseminação da pandemia na região está puxando o aumento de casos em Santa Catarina. Em Florianópolis, no dia 13 deste mês foram confirmados 319 casos em 24 horas, maior número registrado durante a emergência sanitária no município.
Na terceira semana de outubro, os municípios de Palhoça e São José apresentaram um taxa de expansão de casos de 12% e 11%, respectivamente.
O cenário de expansão da contaminação é atribuído por especialistas ao afrouxamento das regras de isolamento social.
Neste contexto, os olhares se voltam principalmente para o Centro da Capital catarinense, para onde cerca de 100 mil pessoas se deslocam todos os dias para trabalhar. Grande parte vem dos municípios vizinhos.
Número de mortes pode aumentar
O que acontece na Grande Florianópolis indica o avanço do vírus em âmbito estadual. De acordo com Bittencourt, era esperado que um pico de casos começasse por Florianópolis, a Capital do Estado. “Mas não vai ser diferente em outras grandes cidades”, diz.
Região da Grande Florianópolis é considerada epicentro do contágio da Covid-19 em SC – Foto: Anderson Coelho/NDEla justifica que com a abertura dos serviços e do comércio, houve uma maior circulação de pessoas, o que pode ter contribuído com o aumento no número de casos. Para Menegon, esse aumento drástico deve refletir nas mortes.
Uma projeção feita pelo Observatório da Covid-19 para as próximas quatro semanas – final de outubro até final da primeira quinzena de novembro – indica um aumento de pelo menos 100 óbitos até o fim do período na região.
Estado emite orientações
Temendo uma repetição das ocorrências dos feriados passados, a Secretaria de Estado da Saúde divulgou nesta quinta-feira (29) uma nota técnica com orientações à população para evitar aglomerações até a próxima segunda-feira (2).
O documento menciona o acesso aos cemitérios e seus entornos, e pontua também cuidados que devem ser tomados para evitar a proliferação do mosquito Aedes Aegypti.
Dentre as medidas gerais estão a recomendação de que as visitas aos cemitérios sejam antecipadas, reforçando que o uso de máscara é obrigatório tanto para os visitantes quanto para os trabalhadores.
Contrapontos
O que diz a prefeitura de Florianópolis
Com o objetivo de conter os episódios de aglomerações vistos no último feriado, o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) chegou a emitir recomendações a Florianópolis, além de Balneário Camboriú.
Em reunião nesta terça-feira (27) com o secretário estadual da Saúde, André Motta, os prefeitos de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu decidiram criar uma força-tarefa para reforçar a fiscalização das medidas sanitárias de enfrentamento à Covid-19 durante o feriadão de Finados.
Segundo informações do colunista do ND+ Fabio Gadotti, a ação integrada entre Polícia Civil, Polícia Militar e Guarda Municipal vai focar nas festas particulares e baladas.
Além disso, foram divulgadas orientações para a visitação em cemitérios como o uso de máscaras e o distanciamento social de 1,5 metros entre todas as pessoas.
Para a temporada de verão, a prefeitura informou que a situação epidemiológica do município será acompanhada e quaisquer novas medidas serão divulgadas ao longo das semanas.
A prefeitura explica que as medidas de segurança devem ser respeitadas em quaisquer locais que a população frequente, e enquanto não houver vacina, o distanciamento social continua sendo o maior método de prevenção.
O órgão municipal disse ainda que o reforço nas equipes de testagem e de investigação epidemiológica já teria sido feito diversas vezes ao longo da pandemia, seja por trabalhadores voluntários e parcerias, ou por funcionários contratados. A previsão é de que, nas próximas semanas, novos funcionários chegarão à equipe.
Denúncias de descumprimento das medidas de restrição podem ser feitas pelos números 153, da Guarda Municipal de Florianópolis, ou 190 da Polícia Militar. No site do Covidômetro também podem ser feitas reclamações. Basta acessar a aba “Denúncias Vigilância Sanitária“.
Transporte coletivo
O assessor administrativo do Setuf (Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros da Grande Florianópolis), Vinícius Cofferi, informou que desde a retomada do serviço, as empresas de transporte coletivo da Grande Florianópolis, em conjunto com os órgãos sanitários das prefeituras, elaboraram um dos mais rígidos planos sanitários do país.
Cobrador e passageiros de máscara no transporte coletivo – Foto: Anderson Coelho/NDA higienização da frota é feita à noite, diariamente. Ao longo do dia, os colaboradores fazem a higienização dos veículos em operação.
Há ainda o acompanhamento e controle dos colaboradores, verificando se apresentam algum sintoma gripal. A lotação dos veículos é determinada conforme os decretos municipais.
Campanhas eleitorais
Uma reunião foi realizada no dia 23 de outubro, promovida pelo MPSC, para esclarecer dúvidas a respeito dos regramentos sanitários para atos de propaganda partidária.
O encontro contou com a participação do TRE-SC (Tribunal Regional Eleitoral), da Procuradoria Regional Eleitoral, da Fecam (Federação Catarinense dos Municípios), da Polícia Militar e da Vigilância Epidemiológica.
Será expedida uma normativa específica para os atos de propaganda eleitoral por parte da Secretaria de Estado da Saúde, para organizar e evitar qualquer restrição indevida. A minuta será submetida a sugestões e contribuições das instituições que participaram da reunião.
O TRE-SC reforçou ainda que os aspectos sanitários da propaganda eleitoral devem seguir os protocolos e normas sanitárias do Poder Executivo federal, estadual e municipal.
Empresas e comércio
O presidente da Facisc (Federação das Associações Empresarias de Santa Catarina), Jonny Zulauf, informou que o órgão está aperfeiçoando sistemas de segurança para que a atividade econômica siga sem prejuízos, além dos já causados até agora com a pandemia. Disse ainda estar ciente do aumento de focos de contaminação, principalmente em Florianópolis.
“Mas temos a convicção de que não é a atividade empresarial que está causando isso. Temos segurança em afirmar que as empresas e os ambientes de trabalho respeitam os protocolos.”, concluiu.
O assessor institucional da FCDL (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Santa Catarina), João Carlos Dela Roca, informou que desde o início da pandemia o órgão tem se preocupado com o comércio, tanto pela questão da saúde, quanto pela manutenção do emprego.
Foi lançada a campanha “Comércio Consciente” nas redes sociais, com o intuito de zelar pela manutenção da abertura do comércio e a saúde das pessoas. Também são seguidas recomendações de segurança baseadas nos decretos governamentais.
O assessor destacou ainda que a federação orienta que os lojistas mantenham a organização de clientes e profissionais nas lojas, reforcem a higienização de equipamentos e o uso da máscara.
O ND+ entrou em contato com a Secretaria de Estado da Saúde, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem. O espaço está aberto.