A suspensão do uso da vacina da Astrazeneca/Fiocruz em gestantes, por recomendação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), levantou a discussão sobre os riscos aos quais esse grupo está exposto.
Suspensão do uso da vacina da Astrazeneca/Fiocruz em gestantes levantou a discussão sobre os riscos aos quais esse grupo está exposto – Foto: Pixabay/Divulgação/NDA interrupção foi motivada, sobretudo, pelo caso suspeito de uma gestante de 35 anos que morreu após receber o imunizante contra a Covid-19 e desenvolver um caso de trombose, no Rio de Janeiro. As autoridades de saúde verificam se há uma relação direta entre a vacina e a formação do coágulo, como um efeito adverso.
A obstetra Andréa Caldeira de Andrada Ferreira explica que o aumento de coagulações é comum durante a gestação, em função dos hormônios envolvidos e fatores inflamatórios estimulados pela própria gravidez.
SeguirSendo assim, a própria gestação favorece o aparecimento de tromboses: estima-se que esse problema afete entre uma e duas mulheres a cada mil grávidas, independentemente de qualquer vacina.
Ela destaca, ainda, que a gravidez aumenta mais a coagulação do que os contraceptivos orais, geralmente, ligados ao risco de trombose. A médica afirma, no entanto, que esse risco é baixo, em torno de 0,05% o que justifica o fato do anticoncepcional oral ainda ser prescrito às mulheres.
A infecção pela Covid-19 aumenta ainda mais o risco de trombose em gestantes, uma vez que um dos efeitos da doença é justamente o aumento da coagulação do sangue. O quadro fica ainda mais perigoso se a gestante sofrer de obesidade, sedentarismo, doenças cardiovasculares, diabetes ou for fumante.
Vacinação e o risco de trombose
A médica explica que as vacinas, de modo geral, podem gerar uma síndrome chamada trombocitopenia trombótica imune induzida.
Estudos realizadas na Europa e nos Estados Unidos revelaram que o uso da vacina Astrazeneca em larga escala está relacionada a esse efeito colateral, que é raríssimo. Cabe lembrar que não existem relatos de coagulações referentes aos outros dois imunizantes.
Em linhas gerais, o imunizante da Astrazeneca pode levar a uma reação imune que altera o sistema de coagulação do sangue e favorece o surgimento de trombos, que interrompem a circulação, especialmente nos vasos que irrigam o cérebro ou o sistema digestivo.
Contudo, a probabilidade de isso ocorrer é baixíssima: de acordo com as pesquisas, esse evento adverso atingiria cerca de 0,0004% de quem toma essa vacina.
A título de comparação, o risco de desenvolver trombose como uma complicação em quadros de Covid-19 grave fica na casa dos 16,5% — ou seja, é 41 mil vezes maior.
Vacinação é necessária
Uma vez que o risco-benefício ainda permanece a favor da vacina, os médicos ressaltam a importância de manter a vacinação do grupo.
O Brasil conta com uma média semanal de 25,8 gestantes e puérperas mortas por Covid-19. Comparado ao ano anterior, o número mais que dobrou: a média era de 10,3 vítimas.
Conforme o OOBr-Covid-19 (Observatório Obstétrico Brasileiro da Covid-19), Santa Catarina já registrou 19 mortes de gestantes e puérperas até o dia 5 de maio. O agravamento do quadro levou a inclusão de gestantes e puérperas entre aqueles que recebem o imunizante na atual fase de vacinação.
Para a doutora Andrea, não há como confirmar que a vacina da AstraZeneca cause complicações nas gestantes. Segundo ela, primeiro seria necessário afastar outros fatores que podem favorecer a trombose. Fumar, por exemplo, aumenta em 0,2% o risco em gestantes.
“A classe médica considera que interromper a vacinação é tirar das gestantes a chance de se proteger contra a Covid-19, que oferece um risco muito maior para elas”, defende.
Vacinação de gestantes em SC
A SES (Secretaria de Saúde de Santa Catarina) decidiu na tarde desta quarta-feira (12) retomar a vacinação contra a Covid-19 de gestantes e puérperas com comorbidades. O grupo será imunizado com as vacinas Pfizer e Sinovac/Butantan. A aplicação da Astrazeneca segue suspensa.
A imunização das gestante e puérperas sem comorbidades segue suspensa. O reforço vacinal para as gestantes que já tomaram a primeira dose da Astrazeneca segue indefinido. A posição está de acordo com uma orientação do Ministério da Saúde, publicada também nesta quarta. As decisões foram formalizadas em nota técnica.