Nise Yamaguchi fala sobre pandemia da Covid-19 e opções de tratamento

Em entrevista para o jornalista Paulo Alceu, no ND Notícias, a médica defendeu o tratamento precoce e disse não acreditar que apenas a vacina ajude no retorno da normalidade

Redação ND Florianópolis

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O jornalista Paulo Alceu conversou com a doutora Nise Yamaguchi no ND Notícias sobre o atual momento da pandemia da Covid-19 que já infectou mais de 3 milhões de pessoas no país e causou a morte de mais de 100 mil brasileiros.

Nise Yamaguchi fala sobre pandemia de coronavírus e opções de tratamento – Foto: Reprodução/NDNise Yamaguchi fala sobre pandemia de coronavírus e opções de tratamento – Foto: Reprodução/ND

Além disso, a doutora falou sobre as possíveis formas de tratamento como, por exemplo, o uso da cloroquina e da ivermectina. Assim como o que esperar após a descoberta de uma vacina que realmente seja capaz de imunizar contra a Covid-19.

Confira a entrevista com Nise Yamaguchi

Começo perguntando o seguinte, cloroquina é uma solução ou problema?

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Olha eu diria o seguinte, para doenças iniciais é uma excelente solução porque ajuda o paciente no combate ao coronavírus e faz com que as células diminuam sua replicação viral.

Com isso, as pessoas conseguem eliminar o vírus mais precocemente e de uma maneira mais eficiente, fazendo com que os pacientes não evoluam para quadros respiratórios mais graves e nem para inflamações sequenciais.

Em pacientes com doença mais avançada, os estudos não mostraram eficiência. Então, o ideal é o uso em fases iniciais, principalmente, nos primeiros dias de sintomas e com melhor chance de funcionamento e basicamente sem toxicidade.

Os efeitos colaterais são mínimos quando usados em doses baixas, como são feitas as doses do Ministério da Saúde e em fases iniciais são feitos em apenas cinco dias.

Agora, por que essa pressão toda contra a cloroquina? A senhora me disse que ela é fundamental no tratamento precoce e, de repente, esse esforço, inclusive, da OMS (Organização Mundial da Saúde) reforçando que não ajuda e que não resolve. Por que isso tudo?

Olha, é difícil de compreender porque é uma medicação muito barata, não ameaça as medicações que estão entrando no mercado, tem poucos efeitos colaterais e tem auxiliado bastante em diversos estados do País que adotaram o tratamento precoce. Nós temos mais de 5 mil médicos voluntários ajudando neste processo.

Então, eu acho que deveria haver um consenso e a OMS acabou ouvindo alguns estudos que foram feitos em pacientes mais avançados, com doenças mais graves, pacientes que não foram testados ou mesmo em pacientes em que houve a utilização isolada da cloroquina e não em conjunto com azitromicina e zinco. 

Aqui em Santa Catarina, o prefeito de Itajaí adotou a ozonioterapia como um medicamento ou tratamento que pode deter o avanço da Covid-19. A senhora é favorável ao tratamento?

A gente tem visto que ela é experimental, tem sido feito alguns estudos no Rio Grande do Sul, de forma controlada pelo Conselho Nacional de Ética e Pesquisa. Então, estamos aguardando esses resultados para dizer se consideramos eficiente ou não. No Brasil, ainda é um teste em andamento

E a ivermectina é outra opção que está sendo utilizado por aqui. 

Vários estudos mostraram que, em vitro, já na Austrália e no Brasil, tinha um bom efeito, principalmente na diminuição da multiplicação viral. Então, na teoria, é boa.

Na prática, com essa punização da cloroquina, muitos lugares começaram a utilizar a ivermectina no lugar da hidroxicloroquina e os médicos já tinham experiência porque ele era usado como anti-parasítico.

Porém, acabou sendo implantado sem ainda existir os estudos. Nós também gostaríamos que nesta etapa houvesse estudos científicos que comprovassem, mas não temos muitos estudos e tem sido utilizado de uma forma bastante ampla.

No Norte, estão fazendo algumas avaliações na Universidade do Ceará, mas, não é um estudo controlado. Então, vai ficar faltando em relação aquilo que podemos ter científico nesta área.

Doutora, a única solução para que a gente saia dessa desgraça é a vacina?

Não. A vacina ainda terá algum tempo, mesmo com a rapidez que querem instalar as vacinas, talvez, seja um pouco precoce.

Nós temos que ter segurança, eficiência e resposta em longo prazo. Isso normalmente demora um longo prazo para desenvolver a vacina com todos esses modelos em qualquer lugar do mundo.

Então, nós temos que ir com cautela, não dá para dizer que o tratamento de todos será através da vacina e por isso a minha busca de manter o tratamento precoce para que a gente possa fazer frente para a segunda onda, terceira onda a medida que as pessoas vão voltando a circular podem pegar, mas se tratando rapidamente não terão os efeitos tardios dessa virose.

Nós temos hoje a questão que é a ação do Covid no sistema imunológico, que baixa a imunidade, no sistema de coagulação, que aumenta a inflamação de vasos, aumenta a coagulação intravascular disseminada e  muitas vezes acaba causando um efeito colateral mais tardio com a coagulação e vasos, artérias e no cérebro, coração e etc.

O ideal é que a gente não deixe chegar em situações mais avançadas onde a quantidade de vírus existente vai poder se alojar inclusive em locais que chamamos de santuários imunológicos, onde o sistema imunológico praticamente não chega, como cérebro, por exemplo.

O mesmo protocolo de 2009, quando surgiu a H1N1, está sendo usado agora, como lavar as mãos, usar máscaras, evitar aglomeração, isolamento. Qual a diferença do Influenza para a Covid-19, essa inflamação no sistema circulatório?

Na verdade tem muitas diferenças. O H1N1 é um vírus que passa por partículas de saliva e o coronavírus é menos transmissível por essas vias do que na Influenza.

Porém,  qualquer virose se beneficia desses cuidados com higiene pessoal, transmissão, com a ética, com relação à mascara, tossir e etc.

Mas existe uma pergunta hoje em relação se as pessoas que já tiveram coronavírus precisam mesmo usar máscaras? Se as pessoas que já estão imunizadas precisam usar máscaras?

Então, acho que essas são questões importantes no momento que as pessoas começam a ter imunidade que já não é nem contaminar e nem ser contaminado.

Eu queria saber sobre a testagem. É comum citar como, por exemplo, 10 mil policiais militares de Santa Catarina e vamos fazer a testagem com eles. Descobrimos que dos 10 mil, mil estão contaminados e os outros não estão, mas aqueles contaminados, os 9 mil que não estão, daqui a pouco neles não terá contaminados? Como a testagem é importante neste processo? De repente, a pessoa está contaminada no outro dia. 

Nós tendemos fazer a testagem do PCR, que é do nariz e garganta, no momento que a pessoa tem sintomas porque quando não tem é muito raro dar positivo.

Então, precisa ter os sintomas para eliminar os vírus para que seja testado o PCR que é a partícula viral. Ocorre outra coisa, as vezes, as partículas virais continuam positiva mesmo quando está eliminando o vírus porque partículas remanescentes destruídas podem estar sendo medidas.

Mas, de maneira geral, o PCR é um teste para quando você está com a doença. A sorologia ela dá o GM, quando é o início da doença, e GG depois que a pessoa ficou imune. Mas os títulos do GG podem ir diminuindo ao longo do tempo.

Isso significa que nem sempre você terá anticorpos no momento que você testa. A pessoa pode ter a doença naquele momento e terá a doença mais tarde e passa a ter anticorpos a partir daquele momento.

Então, as testagens tem validade em nível de saúde pública, por exemplo, quando 20% a 30% já estão com imunidade parece que isso confere uma certa imunidade para toda a população e se quebra a transmissão que estava ocorrendo. Tem sua validade, mas não é 100%. Isso também porque demora para ter o resultado, quando você quer tratar o paciente já tem sintomas mais claros que ele está com o Covid é melhor começar o tratamento enquanto se aguarda o resultado.

Doutora, quando é que acaba isso aí? Que ninguém está aguentando mais, acho que nem a senhora.

Então, acho que vamos ter na população, mas não significa que você deva fechar tudo, nem que a gente tenha que estar ficando com muito medo porque neste momento, já está diminuindo o número de pacientes.

Nós temos um tratamento eficiente nas primeiras fases e já sabemos o que fazer nas outras fases com anticoagulantes, com corticoides.

Então, estamos muito melhor preparados e de como saber como lidar com o vírus como em outro momento de conhecimento da humanidade.

O Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, vai sair em setembro, a senhora está preparada?

Eu não sei se ele vai sair. Parece que existem várias coisas ligada sob uma dinâmica e não tenho esse acompanhamento para saber o que está acontecendo neste sentido. Ali é uma dinâmica entre política social e vários níveis de decisões que não me competem neste sentido.

Mas a senhora não fugiria desse convite?

Eu acho que esse convite não virá, neste momento. Existem várias forças ali querendo uma outra dinâmica. Eu sou uma pessoa que sou técnica, científica e tenho toda a disponibilidade do mundo para o bem da população e quero ajudar naquilo que for, mas não tenho nenhum viés partido, sou supra partidária, né.

Trabalho com todos os níveis de necessidades do país. Então, ainda acho que é muita especulação e a gente não deve entrar por essas veredas porque são incertas.

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