‘Nunca desista de lutar’: catarinense que luta contra leucemia dá recado para novos pacientes

Cleusa Soely Ferreira, de 68 anos, descobriu a leucemia linfocítica crônica em 2019 e desde então luta contra o câncer; entenda como reconhecer a doença e os sintomas de alerta

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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Cleusa Soely Ferreira, de 68 anos, moradora de Florianópolis, descobriu a leucemia linfocítica crônica em 2019, após sintomas frequentes. A doença, tratada com quimioterapia, foi descoberta a partir de um exame de sangue.

Moradora de Florianópolis luta contra leucemia há 4 anos Mulher de 68 anos luta contra a doença há 4 e conta sua história – Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/ND

“Descobri através de um exame periódico feito pela empresa onde trabalhava na época. Eu sentia muito cansaço e já nesta análise indicou um possível linfoma”, conta.

Depois, Ferreira foi encaminhada para um hematologista, especialidade que cuida também de cânceres no sangue.

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Mãe de quatro filhos e avó de oito netos, Cleusa não perde a esperança. Sorridente, como conta sempre ser, Ferreira diz que é feliz e por isso sorri.

Ela e outros 11 milhões de brasileiros foram diagnosticados, ou ainda serão, até 2025. A estimativa foi feita pelo INCA (Instituto Nacional do Câncer).

SC é o 2º com mais incidência de leucemia

O Instituto projeta ainda que Santa Catarina é o segundo Estado brasileiro com mais incidência de leucemia. A estimativa é de 8,04 casos a cada 100 mil habitantes.

O Inca usa para o cálculo dessas estimativas de câncer as bases de dados de incidência (casos novos), provenientes dos RCBP (Registros de Câncer de Base Populacional) e das mortes, do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade).

Câncer hematológico

A médica hematologista Tatiana Dias Marconi Monteiro, da Oncoclínicas Grande Florianópolis, explica que os sintomas da doença são bem variados.

“Fique em alerta quando tiver sangramento, hematomas pelo corpo e sonolência excessiva. Você deve procurar um médico. Depois, caso necessário, o paciente será encaminhado para um hematologista. Os exames para detectar a doença podem ser simples ou muito complexos, dependendo da avaliação médica”, explica Tatiana Dias Marconi Monteiro.

Além disso, existem tipos diferentes de câncer no sangue como Linfoma, leucemia e neoplasia mielodisplásica.

“Nosso sangue é produzido na medula óssea, que está localizada dentro dos ossos e funciona como uma fábrica. Algumas das células do sangue já saem prontas para circular pelo corpo e exercer a sua função. Outras precisam passar pelos gânglios linfáticos para amadurecer”, conta a médica.

Processo para o desenvolvimento do câncer

De acordo com a profissional, é possível ter problemas durante a produção destas células. Dependendo da fase e do tipo de célula que apresenta alteração. Como resultado, se desenvolve os tipos de câncer: Síndrome mielodisplásica, linfoma ou leucemia.

A principal semelhança entre os cânceres é a ”célula mãe” que origina todos os tipos de células do sangue (normal ou defeituosa) na medula óssea. A médica explica que apesar da origem, o que determina qual o tipo de câncer é a fase em que a célula apresenta a alteração.

Segundo o Ministério da Saúde, a principal forma para detecção das doenças é por meio de um exame simples, o hemograma. Caso dê alterado, novas análises serão realizadas para o diagnóstico.

Afinal, é hereditário?

Segundo a médica, depende.

“Esses tipos de cânceres surgem a partir de mutações genéticas nas células do sangue. Nós podemos herdar fatores de risco, hábitos e gatilhos ambientais que estejam relacionados ao aparecimento de alguma mutação genética. Mas a maioria dos tipos de câncer resultam de mudanças adquiridas”, diz.

Sem culpa

A hematologista explica que um dos principais equívocos é procurar um culpado. E reforça: a desordem na produção das células pode acontecer da noite para o dia.

“É comum as pessoas se culparem e associarem o câncer a estresse, alimentação, personalidade ou falta de espiritualidade. Não existe comprovação científica que ser ‘bonzinho’ ou ‘malvado’ terá relação com o surgimento do câncer”, ensina.

Leucemia ainda enfrenta tabus Médica explica que diagnóstico ainda enfrenta tabus. Na imagem, uma criança de apenas seis anos que descobriu a leucemia em 2022 – Foto: HSA/Reprodução ND

Citando a medicina, a profissional explica que são raros e isolados os fatores de risco que podem contribuir. Porém, vale ressaltar que a boa prática de exercício, alimentação balanceada, ausência de cigarro e herbicidas, equilíbrio emocional e religiosidade são fatores importantes para um estilo de vida saudável, independente do câncer.

Outro equívoco importante é a demora em procurar pelo especialista para realizar o diagnóstico e tratamento. Muitas vezes, isso se dá por desinformação ou medo. Mas é importante ressaltar que, quanto antes se iniciar o tratamento, independente do câncer hematológico, melhor será a evolução.

Estimativa de mais de 11,5 mil casos por ano

A estimativa do INCA é que o Brasil registre, entre 2023 e 2025, 11.540 novos casos anuais de leucemia para o Brasil. Ainda de acordo com o Instituto, o número corresponde a um risco estimado de 5,33 por 100 mil habitantes.

Entre eles, 6.250 em homens e 5.290 em mulheres. Esses valores correspondem a um risco de 5,90 casos diagnosticados a cada 100 mil homens e 4,78 a cada 100 mil mulheres.

Novidade para o tratamento

Monteiro explica que existem novidades no tratamento para a doença. Segundo ela, infelizmente, o medicamento CAR-T Cell que propiciam índices de cura bastante otimistas, ainda não estão disponíveis no Brasil, muito menos no SUS (Sistema Único de Saúde).

“As pesquisas têm avançado em cada uma destas doenças com surgimento de medicações com menos efeitos colaterais, maior facilidade de administração e eficácia”, comemora.

De acordo com o Ministério da Saúde, os tratamentos atuais são:

Nas leucemias agudas, o processo de tratamento envolve quimioterapia (combinações de quimioterápicos), controle das complicações infecciosas e hemorrágicas e prevenção ou combate da doença no Sistema Nervoso Central (cérebro e medula espinhal). Para alguns casos, é indicado o transplante de medula óssea.

O tratamento é feito em etapas. A primeira tem a finalidade de obter a remissão completa, ou seja, um estado de aparente normalidade após a poliquimioterapia.

Esse resultado é alcançado em torno de um mês após o início do tratamento (fase de indução de remissão), quando os exames (de sangue e da medula óssea) não mais evidenciam células anormais.

Entretanto, pesquisas comprovam que ainda restam no organismo muitas células leucêmicas (doença residual), o que obriga a continuação do tratamento para não haver recaída.

Nas etapas seguintes, o tratamento varia de acordo com o tipo de célula afetada pela leucemia. Nas linfoides, pode durar mais de 2 anos, e nas mieloides, menos de um ano, exceto nos casos de Leucemia promielocítica aguda, que também dura mais de 2 anos.

Na LLA (leucemia Linfoblástica Aguda), o tratamento é composto de três fases: Indução de remissão, consolidação (tratamento intensivo com quimioterápicos não empregadas anteriormente); e manutenção (o tratamento é mais brando e contínuo por vários meses).

Durante todo o tratamento, pode ser necessária a internação do paciente por infecção decorrente da queda dos glóbulos brancos normais e por outras complicações do próprio tratamento.

Na LMA (Leucemia Mieloide Aguda), a etapa de manutenção só é necessária para os casos de Leucemia promielocítica aguda – subtipo especial de LMA, muito relacionado com hemorragias graves no diagnóstico.

Nesses casos, existe uma mutação genética específica que pode ser detectada nos exames da medula óssea e o tratamento com uma combinação de quimioterapia com um comprimido oral (tretinoina) possibilita taxa de cura elevada.

O tratamento da LMC (Leucemia Mieloide Crônica) não é feito com quimioterapia. Essa tipo decorre do surgimento de um gene específico (gene BCR-ABL) capaz de aumentar a multiplicação celular através de uma proteína tirosina quinase.

O tratamento é feito com um medicamento oral da classe dos inibidores de tirosina quinase, que inibe especificamente essa proteína anormal, que é a causa da LMC.

É um tratamento considerado “alvo específico”, porque o medicamento suspende a multiplicação das células cancerosas, mas não das normais. Alguns casos de resistência ou falha ao tratamento inicial podem necessitar de quimioterapia e transplante de medula óssea.

Na leucemia LLC (Linfocítica Crônica) agentes quimioterápicos, imunológicos (anticorpos monoclonais) e  orais podem ser utilizados no tratamento.

A escolha dependerá de aspectos clínicos do paciente (como idade, presença de outras doenças, capacidade de tolerar quimioterapia) e da doença.

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