O desabafo de quem está na linha de frente no combate à pandemia em Joinville

Em meio aos leitos de UTI lotados, infectologista alerta: as mortes vão aumentar muito, não só pela Covid

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Redação ND Joinville

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A maior cidade de Santa Catarina vive o pior momento da pandemia. Quase um ano após o primeiro caso ser registrado em Joinville, já são 62.118 confirmados em quase 12 meses. Nesta segunda-feira (8), são 3.343 casos ativos e 744 mortes.

Joinville está na fase mais crítica da pandemia e deve decretar novas medidas nesta segunda-feira (8)- Foto: Carlos JúniorJoinville está na fase mais crítica da pandemia e deve decretar novas medidas nesta segunda-feira (8)- Foto: Carlos Júnior

Conhecido na cidade, o infectologista Luiz Henrique Melo atua, desde o início da pandemia, na linha de frente das ações. Coordenador médico da Vigilância em Saúde, ele foi, ainda, coordenador do Centro de Triagem montado na zona Leste.

E foi o desabafo emocionado e duro do infectologista que chamou a atenção nas redes sociais no domingo (7). O alerta é pesado. “As mortes vão aumentar muito, não só pela Covid”, fala o infectologista.

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Confira o desabafo completo feito pelo médico que vive, diariamente, a realidade da gravidade da pandemia que, para ele, é negligenciada há um ano no país.

O desabafo:

“Refleti muito antes de escrever esse texto, podem acreditar. O fato é que com a progressão da contaminação da Covid-19 e suas variantes (cada vez mais contagiosas e letais, para jovens inclusive) o sistema de saúde está colapsando e senti a necessidade de manifestar algumas das minhas constatações. A primeira é que, passado um ano da tragédia na Itália, parece que não aprendemos nada. Nem a tragédia em Manaus nos ensinou alguma coisa. A segunda é que, com o aumento do número de contaminados e falta de UTIs, o vírus se tornou “democrático”. Não importa mais se você é pobre ou rico, não vai ter UTI.

A terceira é que alguns juízes, que seguem dando liminares bumerangues contra as medidas de contenção, ignorando que, se e quando eles, ou algum familiar seu contrair o vírus e vir a precisar de uma UTI, a liminar concedida se voltará contra eles. A quarta constatação é que, passado um ano e dezenas de pesquisas sérias, ainda tem gente que acredita que remédio contra piolho, lombriga e malária serve pra matar o coronavírus. Pior ainda, tem médicos estimulando sua utilização e, muitos deles, ostentando que não perderam nenhum paciente após usar o tratamento precoce. Na verdade apenas enxergam os casos que não complicam, pois, quando os pacientes agravam, não voltam pra eles no consultório de onde alardeiam suas pajelanças. Morrem no hospital, e quem assina o atestado de óbito é um profissional da saúde exausto, desesperançado e de saco cheio da politização do tratamento.

Não existe tratamento precoce, ponha na sua cabeça. O que existe é equipe preparada com condições de atender e salvar vidas quando a doença complica. Acontece que agora as condições estão indo pras cucuias. A última constatação: lockdown não funciona no Brasil, é fato. Não funciona no Brasil, porque criamos o “lockdown jabuticaba” (só existe aqui). É parcial, sempre existe um jeitinho de burlá-lo, uma falta de consciência em evitar aglomerações, em deixar de lado as coisas que gostamos de fazer, mas o momento não permite.

Sem disciplina, lockdown é piada. Aliás, se tivéssemos disciplina, não precisaríamos de lockdown. Paradoxal isso. Não esqueci dos espertinhos e sabidões também. Eles são os talibans biológicos. O vírus se aproveita deles para se multiplicar e atingir não só eles, mas todos ao seu redor. Sim, espertinhos e sabidões são egoístas, não têm empatia nem solidariedade.

Lembra que, no começo da pandemia, muita gente compartilhou uma lista de doenças que matavam mais que a Covid? Só pararam quando a realidade se impôs. Mas seguem soltando outras fake News, um vírus tão ruim quanto o corona. Aliás, o corona adora fake News. Elas criam o ambiente perfeito para ele se reproduzir.

O Brasil virou um covidário. Nossa incapacidade em entender e seguir a ciência, está fazendo o vírus mutar e se transformar em um agente cada vez mais perigoso e mortal. Vamos virar párias internacionais, um laboratório gigante de um darwinismo distópico.

E há as mortes, que vão aumentar muito, e não será só pela Covid-19 não. Isto não é pessimismo nem alarmismo, é mais pura realidade. Com o colapso do sistema de saíde, se por azar você tiver qualquer doença ou trauma que tenha tratamento mais exija atendimento em terapia intensiva será impossível encontrar uma vaga. Bem-vindo à Idade Média.

E para os incautos que pedem mais UTIs e hospitais de campanha, é importante lembrar que não tem mais profissionais de saúde com saúde para atuar nesses lugares. Pode criar mais 5000 leitos de UTI. Não tem quem “toque o lodjinha”, talkey?

E o pior ainda vem por aí. Já sabemos que a mutação brasileira aumenta a possibilidade de reinfecção e a comunidade científica está temendo que escape também da vacina. Esse é o covidário Brasil Isso tudo que falei está todos os dias na internet, nos jornais e na realidade de muitas pessoas que estão vivendo, sofrendo e morrendo na pandemia. Mas os espertinhos e sabidões, os cientistas do Facebook, os entendidos do Whatsapp, os lacradores do Instagram, esses só vão cair na real quando um parente seu morrer dentro de casa, sem ar, mas com o bucho cheio de azitromicina, cloroquina, ivermectina e vitaminas de A a Z. Hoje, o Brasil tem 10 milhões de casos confirmados e 250 mil mortes.

O EUA tem 30 milhões de casos e 600 mil óbitos. Faça uma continha básica e verá que o Covid aqui está matando mais que lá com um agravante: aqui a vacinação está em passos de cágado, enquanto lá, de trem-bala. E ainda nem chegamos perto do fundo do poço. Desde a minha infância, aprendi que o Brasil é o país do futuro, e agora este futuro parece tenebroso, pois ainda teremos muitos dias tristes e sombrios. E estamos fazendo por merecê-los. Imagino como estaríamos se o brasileiro não fosse um povo cordial e solidário”.

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