Doutora em psicologia, a psicoterapeuta e professora universitária Catarina Gewehr fala à coluna sobre os reflexos da pandemia da Covid-19 na saúde mental da população.
Centro de Florianópolis em foto feita no ano passado, no início do enfrentamento da pandemia – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/ND
Catarina Gewehr, psicóloga – Foto: Divulgação/NDUm ano depois, o que é mais importante destacar sobre os impactos da pandemia na saúde mental da população?
As pessoas começam a viver agora um misto de desolação com raiva. Porque pensam que, pelo caminho do bom senso, o correto é não aglomerar e regular o desejo individual. Mas percebem pessoas que ignoram o nível de risco do comportamento social, argumentando a defesa da liberdade.
O sentimento de desolação é muito perigoso, é aquela brasa que não apaga e que pode produzir, a qualquer momento, um grande incêndio. Pode produzir um quadro psicossomático, uma perturbação hormonal, um câncer, um AVC, uma série de intercorrências.
SeguirMinha preocupação é com as consequências futuras da pandemia. Vamos passar alguns anos sofrendo as sequelas.
O medo da morte, o receio de perder o emprego, a preocupação com a família, a falta da convivência social: o que afeta mais?
Todas essas questões, com mais ou menos intensidade. O que está acontecendo é que as pessoas resistem, e isso é interessante sob o aspecto psíquico, a criar novas e possíveis formas de fazer coisas para que a vida continue potente e intensa. É uma espécie de preguiça mental em forjar novas estratégias.
As pessoas têm que entender que, nesse momento, não é mais possível viver a vida que se vivia antes. O antes acabou e acabou para sempre. O mundo, agora, é o mundo da pandemia.
O que é importante prestar atenção nesse momento?
É fundamental produzir espaços de integridade existencial, de saúde psicológica, em um cenário adverso como esse, de intolerância e de primazia do eu sobre todos os outros.
As pessoas vão ter que reaprender laços comunitários, tomar nova consciência sobre a vida, seus corpos, sobre o inútil que é uma felicidade momentânea.
Um jeito bacana de lidar com esses medos todos é recuperar a experiência de vida em comunidade: a preocupação individual, com a família, com vizinhos, conhecidos e, principalmente, com as pessoas que nem sei que existem. É o tal efeito borboleta.