Os efeitos devastadores da Covid-19 estão aí, com hospitais lotados, famílias devastadas, desordem urbana e ausência de perspectiva para o futuro. A saúde física toma conta do noticiário, mas ganhou força nas últimas semanas, com a intensificação das contaminações e das mortes. Nesse aspecto, todas as atenções se concentram nas vacinas, mas mesmo nesse caso o cenário é desolador.

Entretanto, dentro desse contexto, há uma questão muito importante que vem sendo abordada por um pequeno grupo de especialistas. São perguntas ainda sem respostas, mas que precisam de reflexão. A vida, como se vivia antes, acabou. Como fazer, então, para viver nesse novo mundo, que é o mundo da pandemia?
A psicóloga Catarina Gewehr, em entrevista ao colunista Fabio Gadotti, usou o termo “Efeito Borboleta” ao analisar a questão da saúde mental da população. O conceito é antigo, mas vem bem a calhar quando o mundo se vê atravessando um caos social, causado por algo impossível de se ver a olho nu. Afinal, o que vem a ser o tal “Efeito Borboleta”?
“O simples bater de asas de uma borboleta no Brasil pode ocasionar um tornado no Texas”
Essa é a premissa, o ponto de partida sobre o que vem a ser o Efeito Borboleta. Com toda sua leveza, o bater de asas do inseto promove uma modificação na pressão do ar ao seu redor, que o impulsiona para cima. Esqueça o significado literal do exemplo e pense no que isso representa em comportamentos de sistemas caóticos – ou cenários próximos disso, como o que socialmente vivemos hoje com a pandemia.
Efeito Borboleta – Foto: ReproduçãoÉ possível retornar ao estágio inicial de qualquer sistema, desde que algum componente não tenha sofrido alguma alteração em estágio posterior. E seria justamente esse o cenário atual: não existe mais a vida como a entendíamos.
“As pessoas têm que entender que, nesse momento, não é mais possível viver a vida que se vivia antes. O antes acabou e acabou para sempre. O mundo, agora, é o mundo da pandemia”, diz Catarina Gewehr .
Nessa concepção, a teoria do “Efeito Borboleta” é um aceno para a recriação de integridade existencial, individual ou coletiva. Um sentido para o caos social que enfrentamos, diante do cenário inusitado da pandemia.
Catarina Gewehr é psicóloga – Foto: Divulgação/NDSe não temos mais como viver a vida que vivíamos antes, por que não assimilar o contexto atual de caos e, com comportamentais, reorientá-lo?
É claro que o bater de asas de uma borboleta não vai interferir nas condições atmosféricas. Contudo, pequenas nuvens que venham a se aglomerar em uma região podem originar uma grande tempestade.
Para o bem ou para o mal
Charles Darwin, em sua obra “A Origem das Espécies“, sugeriu que as espécies evoluem gradualmente a partir de um antepassado comum. É o conceito da seleção natural, no qual indivíduos mais aptos sobreviviam ou se adaptavam ao ambiente ou as mudanças dele. Os mais vulneráveis desapareciam. Isso mudou os rumos da ciência.
No entanto, uma distorção desse conceito ocasionou uma reação em cadeia, desaguando na teoria da eugenia, que supunha a criação de uma “raça humana superior” por meio da seleção genética de indivíduos. O auge dessa distorção se deu com o nazismo, nos programas de esterilização de pessoas consideradas “defeituosas”, como alcoólatras e deficientes físicos e mentais.
Darwin certamente não pensou nessas consequências dos seus escritos. Entretanto, o Efeito Borboleta está aí para provar que não há controle sobre os desdobramentos do tempo. É bem sabido que o evento citado culminou em uma grande guerra mundial, que alterou definitivamente a vida social no planeta. Valores foram revistos e a vida nunca mais seria a mesma.
E o que é a pandemia da Covid-19, se não a guerra mundial dos nossos dias? O que importa agora é saber como será a vida a partir dela.
Diante da complexidade dessa questão, é fundamental a busca por um sentido social. Abrir espaços de integridade existencial, de saúde psicológica, diante de um cenário adverso. Uma reflexão coletiva que busque e entenda a origem da intolerância e de primazia do eu sobre todos os outros para uma redefinição.
As pessoas vão ter que reaprender laços comunitários, tomar nova consciência sobre a vida, seus corpos, sobre o inútil que é uma felicidade momentânea.
Um jeito bacana de lidar com esses medos todos é recuperar a experiência de vida em comunidade: a preocupação individual, com a família, com vizinhos, conhecidos e, principalmente, com as pessoas que nem sei que existem. É o tal efeito borboleta.