Cacau Menezes cacau.menezes@ndtv.com.br

Apaixonado pela sua cidade, por Santa Catarina, pelo seu país e pela sua profissão. São 45 anos, sete dias por semana, 24 horas por dia dedicados ao jornalismo

Os cinco dias que mudaram a minha vida

Uma corrente de fé nunca vista nesta cidade me trouxe de volta à minha casa, à minha vida, ao meu público, aos meus amigos e ao futuro

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Depois de sepultar meu pai no cemitério  sai direto no meio da tarde para a redação do jornal Diário Catarinense, do grupo RBS, em Itaguaçu, e fui fazer a minha coluna para o dia seguinte, com as notícias de praxe, claro, dedicando-lhe a principal nota. Rotina. Trabalhar no que me ensinou foi a melhor homenagem que poderia ter-lhe feito.

Com cinco anos de idade frequentava a redação do jornal do meu pai que era junto com a impressora na rua Conselheiro Mafra e aquele barulho me fascinava. Barulho de jornal rodando. A Verdade vendia que era uma maravilha.

Logo depois, jornal fechado, o barulho era de rádio. Musica, notícia, esporte. Virei locutor esportivo aos 13 anos e com 17 anos comecei a fazer programa de música pop.

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Explosão Musical e o estúdio era minha segunda casa com o microfone substituindo a bola de pneu como o melhor brinquedo. Deu no que deu.

Nunca deixei de trabalhar. E no último domingo, exatamente há uma semana,  nesta mesa de quarto, neste computador e neste mesmo horário, mesmo irreconhecível, faltavam 20% da coluna de segunda-feira, e sem comer e mais fraco do que um palito, me levantei da mesa e me joguei, ou cai, não sei bem, na cama, pedindo socorro para mim mesmo até me apagar silenciosamente.

Era meu segundo desmaio do fim de semana, mas tinha tempo para me recuperar. Duas horas depois levantei, tomei água e mais um dia sem almoço, no fim de tarde, voltei ao computador para terminar e mandar a coluna de segunda-feira, e a última nota dizia: “Por pouco, ontem, não morri trabalhando. Um dia contarei essa história, que crescerá de importância com 50 exames médicos que deverei fazer hoje pela manhã. Eu vi a cara da morte”.

No dia seguinte, terça-feira, já não era eu o colunista e os 50 exames que seriam feitos em casa na segunda, foram transferidos porque não eram prioridade, tratamento a longo prazo com o Dr. Rafael Gallassini.

Medicina integrativa, reposição de vitaminas, atualizar o momento, dar um gás, me devolver aos campos de futebol. E isso não tinha mais pressa. A pressa era para me deixar vivo.

Não fui para a TV na segunda, voltei ao terceiro desmaio em três dias, conversei com o Dr. Felipe Simão, um amigo, e com o Dr. Rafael, e fui aconselhado a procurar imediatamente o Pronto Socorro do Hospital Baía Sul e expor o meu caso.

Felipe Simão ligou para sua amiga Renata da Silva Bolan,  diretora clínica do HBS, e quando cheguei, em minutos, já estavam me esperando para os exames de Covid e Influenza, que eram a minha suspeita, embora já vacinado.

Logo em seguida tive o prazer de conhecer a Dra. Renata quando terminou o segundo exame, de ressonância magnética. Saí da “nave” e a Dra. estava na minha frente, bela e direta: “Covid  e Influenza negativos, mas não vais embora, vamos ter que te internar para investigar o quadro.”

Hemograma crítico, anemia profunda e suspeita de leucemia, o câncer de sangue. Parecia aqueles filmes de hospital: internação imediata, transfusão de sangue, braços picados, médicos sendo chamados, de um lado entrando sangue, soro e ferro, do outro coleta de sangue monitorando a melhora ou piora do quadro.

Pior já estava, a missão era fazer o sangue subir e cumprir com o seu papel. Minha reação ao tomar conhecimento do quadro foi comigo mesmo e muito rápida. Não era o momento para um novo e grave  sofrimento.

Fiquei puto. Mas não tinha saída. Olhei para minha filha querendo chorar, eu e ela, pensei no meu santo e o chamei para a luta. Em cinco minutos estava deitado e preparado, todo monitorado e ligado.  Tiraram de mim tudo o que queriam.

A cada duas horas levavam meu sangue e traziam máquinas. Ecodoppler, cardiograma,  endoscopia, queda brusca no HT e HB, e biópsia na medula óssea para a manhã seguinte, a primeira da hospitalização, tudo sob suspeita.

Ultrassonografia do coração feita no próprio quarto, na primeira noite, me fez dormir mais tranquilo. O velho e sofrido companheiro estava como sempre, atento e sarado, mandando dizer: não se preocupem comigo.

Mas eu sabia que o problema não era o coração. Era com o sangue. Antes de dormir na primeira noite, a última visita da Dra. Renata, com a primeira boa notícia e um novo companheiro ao seu lado, o jovem catarinense do Oeste, doutor Jaisson Bortolini, fera em câncer e sangue, que faria a biópsia da medula óssea na manhã seguinte: “Teu caso está sendo estudado por cinco especialistas num grupo criado no WhatsApp e a leucemia, mediante os primeiros exames coletados no quarto, pode ser a crônica, o câncer que não precisa de quimioterapia e com novos tratamentos a base de comprimidos, com vida normal”, disseram os dois.

comecei a achar que poderia vencer mais uma. E positivei o pensamento, no entanto sem parar de chorar. E era na frente de todo mundo: enfermeiras, médicos, limpeza, fisioterapeuta, psicóloga, diretor Sergio Brincas,  filhos, na cama, nos corredores, nas clínicas…

Estava dominado pela emoção. Fiquei confiante que o santo de uma vida inteira estava em campo. E acreditei. Então adormeci pensando nele. Foi quando minha filha Maria Claudia, que me levou ao hospital e lá ficou comigo até a saída, ao me cobrir viu ao lado da cama um homem de branco que parecia um dos médicos que estavam indo me ver, mas que desapareceu repentinamente.

Era Ele. Aquele de todas as horas, de todos os anos. Sonhei como nunca. Lembranças, pessoas, molecagem, viagens, desilusões, dramas, vitorias, realizações, namoradas, rejeição, ficção, realidade, agonia. Corria, corria, corria e não chegava a lugar nenhum. Fazia tempo que não sonhava.

O homem de branco que minha filha viu ao lado da minha cama e que em segundos sumiu tem nome e você o conhece – Foto: ArquivoO homem de branco que minha filha viu ao lado da minha cama e que em segundos sumiu tem nome e você o conhece – Foto: Arquivo

Acordei assustado quando me vi no hospital. Tomei o café da manhã e fui para os dois exames numa cadeira de rodas, a endoscopia e a biópsia,  para cada uma, em lugares diferentes, uma nova anestesia. A endoscopia teve resultado rápido. Junto com o coração, nada de anormal. Então o jogo já estaca 2×0 para nós. Mas o adversário estava vivo. Era preciso respeitá-lo.

Segunda noite, novos sonhos, pesadelos e fantasias. Terceira manhã no quarto: soro, ferro entrando e sangue saindo para exames o tempo todo. já sem lugar para espetar mais nada. Mas as boas notícias continuavam. Sem explicações. Comecei a falar em milagre. E os médicos quietos.

O ferro e o soro fazendo efeito, as ideias surgindo, a troca da cama pela poltrona, as anotações, a maldita perda da liberdade, as decepções, os relacionamentos tóxicos, os documentários na tevê…

Alguma coisa houve que me despertou para a vida. Começou a dar tudo certo e bem antes da hora. Tanto que ontem, sábado, recebi alta para esperar em casa, onde estou agora com vontade de escrever e  ouvindo aquelas canções  do Roberto,  o resultado do principal exame de todos, a biópsia: se for leucemia  crônica, tratamento para sempre a base de novas pílulas, se for a outra leucemia, quimioterapia e seja o que Deus quiser. E pode até não ser nenhuma delas.

No máximo até quarta-feira saberemos. Mas se depender do homem que foi me visitar, já sei que a festa vai continuar. Agora cuidando mais de mim. Comida, exercícios, um tempo para cada coisa, menos esforço, mais alegria.

Ninguém vai me matar antes do tempo. E a  maior corrente de fé vista nesta cidade nos últimos 50 anos é a melhor reposta. Porque nem tudo agora é mais o trabalho.

Atestado médico por uma semana  para descansar e continuar conversando com os médicos. Chega de desmaios, estresse,  sacrifícios  e ordens de quem nunca fez nada por mim.  Vou levar até onde der. E se tiver que parar, estou preparado. Muito obrigado a todos que me querem vivos,  porque os que me querem morto, vão ter que esperar.

Que venha fevereiro.  Salve, salve simpatia, podes crer amizade.

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