Pandemia da fome: Monte Cristo resiste em meio ao medo e privações

28/07/2020 às 12h34

Bairro carente é líder em casos da Covid-19 em Florianópolis. Além do vírus, comunidade teme incertezas do futuro, com a fome e o desemprego escancarados pelas vielas

Caroline Borges Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

“O que mais assusta é poder morrer, e a fome que a gente sente”. Foi com essas palavras que Angela Maria da Costa falou sobre o temor de viver durante a pandemia do coronavírus em Florianópolis.

Moradora do Monte Cristo, localizado a cerca de 10 quilômetros de um dos metros quadrados mais caros do Brasil e onde está a majestosa Ponte Hercílio Luz, a mulher de 63 anos percorria as ruas do bairro a procura de alimento, quando encontrou a reportagem da nd+ na última quinta-feira (23).  

Com o maior número de diagnosticados pela Covid-19 em Florianópolis – 332 confirmados até a manhã desta segunda-feira (27), o Complexo do Monte Cristo abriga seis comunidades e tem 15.4 mil moradores. Em alerta vermelho para o coronavírus segundo a painel da prefeitura, o bairro contabiliza a maior taxa de casos por habitantes na Capital catarinense. A incidência é de 2,16%. 

Além da pandemia, adultos, idosos e crianças que vivem na comunidade às margens da Via Expressa, marcada por episódios de violência e que já foi comparada à Faixa de Gaza pela polícia, resistem em meio às incertezas, ao desemprego e à fome. 

Angela Maria da Costa é moradora do Monte Cristo – Foto: Anderson Coelho/NDAngela Maria da Costa é moradora do Monte Cristo – Foto: Anderson Coelho/ND

Aposentada e com problemas de saúde, Angela mora na comunidade Novo Horizonte e divide a casa com a filha, uma adolescente de 17 anos. O dinheiro que recebe da aposentadoria é pouco e, segundo ela, dá apenas para o aluguel.

Com a chegada do coronavírus, a procura por alimentos, que acontecia antes mesmo da pandemia, piorou. Antes do vírus, a senhora conseguia trabalhar como diarista, mas os ‘bicos’ precisaram ser interrompidos por segurança à saúde.   

“Sobra só R$ 100 reais. Aí eu venho pedir ajuda para o pessoal daqui que é muito bom e dá uma força”, diz Angela, em frente à sede da Revolução dos Baldinhos. Durante a pandemia, o projeto de agricultura urbana e gestão comunitária de resíduos orgânicos cresceu. Os voluntários fazem agora doação de cestas básicas, roupas e, às quintas-feiras, distribuem sopa aos moradores. 

Uma pesquisa feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em maio, mostrou que o país viu um aumento no desemprego e redução no número de trabalho informal. Segundo a pesquisa, ao menos 870 mil postos foram perdidos. A informalidade, apontada como “colchão amortecedor” de renda alternativa para os mais afetados por crises, preocupa. 

Enquanto procurava alimentos, Angela parou para falar com a reportagem. No meio da conversa, disse estar preocupada também com a saúde da filha. Um dia antes havia levado a adolescente ao pronto atendimento, após um episódio de febre.

“Deixei ela em casa. Até pensei que pode ser corona, mas não sei”, disse a senhora, que foi orientada a monitorar os sintomas, que a princípio são consequência de uma infecção na garganta. Se a jovem piorasse, voltariam ao hospital. 

“Passei muito mal”, diz moradora curada da Covid-19

Enodi Stock, de 64 anos, está há um mês curada da Covid-19. Pertencente ao grupo de risco, a idosa moradora do bairro contou que seguiu todos os procedimentos possíveis de higiene e fez isolamento. Apesar dos cuidados, foi diagnosticada com o vírus em maio. 

Enodi Stock, de 54 anos – Foto: Anderson Coelho/NDEnodi Stock, de 54 anos – Foto: Anderson Coelho/ND

“Não sei como peguei. Me cuidava e fazia tudo certinho. Peguei aqui no bairro mesmo, mas eu passei muito mal”, comentou a senhora, que agora se recupera da doença. 

Além do medo constante por conta do vírus, Enodi, que emagreceu 8 quilos, sente agora mais cansaço. Durante a pandemia, ela chegou a ser levada ao hospital, mas retornou para a casa e foi acompanhada por funcionários do SUS (Sistema Único de Saúde). 

Higiene e saneamento

Com pouca ou nenhuma renda, os produtos de higiene – prioridade para muitas famílias em tempos de coronavírus – são deixados de lado. Segundo a moradora, em várias ruas a coleta de lixo não passa. Moradores precisam percorrer algumas quadras para o descarte. Acumulado, o lixo prejudica a limpeza do bairro, que sofre com a falta de saneamento

“Aqui é mais complicada essa questão”, conta a presidente do projeto Revolução dos Baldinhos e moradora do bairro, Cíntia da Cruz. 

À frente de vários projetos na região, Cíntia vê de perto as privações da comunidade e a falta de dignidade que muitas famílias vivem. Com mais de dez anos de ações na área, a líder comunitária destaca que o bairro precisa de mais atenção do poder público.

Apesar de Florianópolis ser considerada uma cidade com altos índices de testagem para Covid-19, Cíntia observa a necessidade de mais testes no bairro. “Não estão testando todo mundo e isso preocupa a gente”, afirma. 

As dificuldades para isolamento e falta de boas condições sanitárias e de higiene – realidade da comunidade – aumentam as chances do espalhamento do vírus. 

Condições dificultam isolamento social

O cenário de movimentação na comunidade – com crianças brincado e mulheres e homens andando pelas vielas e ruas – visto pela reportagem na última quinta, não mudou desde o início da pandemia, segundo a moradora Jack Ribeiro. Mesmo com o rígido isolamento social de março, muitos moradores continuavam circulando pelo bairro. 

Isolamento social não existe aqui”, disse a mulher, que preside a Associação de Mulheres do bairro. Segundo ela, as casas pequenas e famílias numerosas também dificultam o distanciamento. 

Casas pequenas e famílias numerosas dificultam isolamento no bairro Monte Cristo, em Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/NDCasas pequenas e famílias numerosas dificultam isolamento no bairro Monte Cristo, em Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/ND

Dados do Censo 2010 colocam o Monte Cristo como um dos bairros com a maior média de habitantes por domicílio na cidade, com 3.5 moradores por casa. O dado, desatualizado segundo Jack, é maior em 2020. Ela mesma divide a pequena casa com mais seis pessoas. 

“É fácil se isolar em uma casona. Aqui não. É muita gente dentro de um só lugar e bastante gente dentro de casa, tudo pequena, com filhos pequenos sem aula”, detalha. 

Prefeitura disponibiliza hotel

A prefeitura da Capital afirma que tem 30 vagas disponíveis em hotel para moradores em vulnerabilidade social da cidade que não conseguem fazer isolamento social. Segundo a secretaria municipal de Saúde, até a tarde de segunda-feira (27), uma vaga havia sido preenchida.

As vagas são destinadas apenas a pessoas diagnosticadas com a doença. “Caso na investigação seja identificado que o paciente não consegue fazer isolamento, é possível preencher uma vaga no hotel, que conta com quatro refeições diárias”, informa a prefeitura. 

Bairro é de risco “muito alto” no mapa da vulnerabilidade

Elaborado pelo governo do Estado e UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o mapa que mede a vulnerabilidade social à Covid-19 em Santa Catarina mostra que, na Capital, o Monte Cristo é uma das regiões classificadas como de risco “muito alto”.

O índice que constitui o painel leva em conta renda, idade e densidade demográfica das regiões do Estado. No levantamento, os lugares mais problemáticos são aqueles em que 75% ou mais dos habitantes possui renda inferior a três salários mínimos.

Além disso, concentram 50% ou mais dos moradores com idade igual ou superior a 45 anos, e têm alta densidade demográfica. Ou seja, maior quantidade de pessoas por unidade de área.

Mapa mostra regiões de Florianópolis com mais vulnerabilidade – Foto: Mapa/EpagriMapa mostra regiões de Florianópolis com mais vulnerabilidade – Foto: Mapa/Epagri

Evasão escolar no horizonte

Ao andar pelo bairro, os relatos dos moradores mostram que a fome não é a única angústia da comunidade. Os habitantes enxergam um horizonte com o aumento da evasão escolar e, consequentemente, temem o crescimento da violência. 

Com a suspensão das aulas presenciais desde março e sem acesso à internet, a filha de Angela vai até a escola a cada semana para buscar as atividade que deve realizar durante a pandemia. 

Moradores temem aumento da evasão escolar e crescimento da violência – Foto: Anderson Coelho/NDMoradores temem aumento da evasão escolar e crescimento da violência – Foto: Anderson Coelho/ND

Com dificuldades em aprender, Angela contou que teme que a filha abandone os estudos em breve. “Ela está estudando. Vai, pega os livros, mas a gente não sabe até quando vai durar isso tudo”, desabafa a mãe. 

Segundo dados da pesquisa TIC Domicílios 2019, aproximadamente 30% das casas brasileiras não possuem acesso à internet. Segundo o estudo, existe diferença em relação à navegação entre as classes sociais. Em famílias com renda de até um salário mínimo, 45% não têm acesso de rede em casa. 

Tristeza e resistência

Nas ruas auxiliando a população nos últimos cinco meses, Cíntia e Jack colecionam histórias tristes na pandemia. Também são numerosasas notícias de resistência e luta. 

Cíntia Cruz e Jack Ribeiro, líderes comunitárias do bairro Monte Cristo – Anderson Coelho/NDntia Cruz e Jack Ribeiro, líderes comunitárias do bairro Monte Cristo – Anderson Coelho/ND

Enquanto a reportagem visitava a comunidade, a dupla, ágil, conversava com moradores, carregava sacolas, agitava a população, orientava sobre o uso das máscaras.

Nas pausas, surgem histórias de empreendedorismo, empatia e criatividade. 

“Ela começou a fazer bolo de pote e está vendendo pela comunidade”, disse Cíntia, enquanto contava como o projeto ajudou uma jovem, mãe de quatro filhos, a iniciar uma renda durante a crise. 

Em outro momento surgia uma nova história: “ela ficou agradecida com a doação de ovos, uma coisa tão simples”, dizia a presidente da associação de Mulheres do bairro depois de lembrar o dia em que ajudou uma imigrante que pedia alimentos no semáforo.

Desde que a pandemia teve início, mais de 5 mil pessoas foram atendidas no Monte Cristo por Cíntia e Jack, com doação de alimentos e roupas. Os trabalhos continuam. Na sexta-feira (24), mais de 200 cestas foram entregues na comunidade. “A gente tá resistindo, porque é o que podemos fazer”, contou. 

Ajudar faz bem 

Terezinha de Fátima da Silva é uma das voluntárias que ajuda na produção de sopa para o bairro. Moradora do bairro, a mulher de 54 anos se viu entristecer durante os últimos meses. 

O isolamento social, como ela mesmo disse enquanto cortava cenouras no meio da tarde dentro da cozinha improvisada no Conjunto Habitacional Chico Mendes, a fez ficar com depressão. Com o voluntariado, ela espera poder ajudar outras pessoas. 

Moradores devem procurar atendimento

Procurada, a prefeitura de Florianópolis afirmou que a testagem está disponível nos centros de saúde. Os moradores que tiverem sintomas devem ligar para o Alô Saúde, ou entrar em contato com as equipes de saúde da família.

Em função da pandemia, o Executivo municipal percebeu um aumento na procura por benefícios de alimentação. Por conta da busca, a secretaria de Assistência Social da Capital montou uma força-tarefa para concessão deste auxílio.

“Diante do cenário atual está sendo ofertado, dentre outras ações, o acompanhamento do grupo voltado aos beneficiários do natalidade por meio de canais remotos como Facebook, e-mail, WhatsApp e telefone. A concessão de outros benefícios continua sendo feita pelas equipes”, disse a Pasta.

Tópicos relacionados