Pandemia evidencia preconceito contra idosos: “sou pessoa ativa”, diz morador de SC

Comemorado nesta quinta-feira (1º), o Dia Internacional do Idoso busca sensibilizar a sociedade para o envelhecimento

Caroline Borges Florianópolis

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Na cultura indígena, os mais velhos têm a função de ensinar. Viveram mais e guardam consigo a memória de sua comunidade. São sábios.

Em tempos de pandemia, porém, a vivência e trajetória dos idosos são encaradas por muitos apenas como números. Uma espécie de “licença para morrer” pela Covid-19, assim como as pessoas com doenças pré-existentes.

Em Santa Catarina, homens e mulheres com mais de 60 anos representam 15,8% da população. Até 30 de setembro, mais de 2 mil idosos perderam a vida para a doença no Estado. Tinham identidade, amores e histórias. Deixaram espaços vazios em suas famílias.

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Comemorado nesta quinta-feira (1º), o Dia Internacional do Idoso busca sensibilizar a sociedade para o envelhecimento e a obrigação de proteger a população mais velha.

Dia do Idoso: pandemia evidência preconceito contra população mais velha- Foto: Jurien Huggins/Unsplash/DivulgaçãoDia do Idoso: pandemia evidência preconceito contra população mais velha- Foto: Jurien Huggins/Unsplash/Divulgação

O índice de vítimas fatais idosas da Covid-19 em Santa Catarina representa 77% do total. Das 2.797 mortes no Estado desde março, 2.169 são de pessoas acima de 60 anos. As outras 628 vítimas eram crianças, jovens e adultos.

Segundo dados da PNAD Contínua em 2019 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual) do IBGE, Santa Catarina tem população de 1,1 milhão de idosos. O índice faz o Estado ser o sexto no ranking de população mais velha do País, atrás apenas do Rio Grande do Sul (18,77%), Rio de Janeiro (17,24%), Minas Gerais (16,17%) e São Paulo (15,71%). 

Os números evidenciam a necessidade de se respeitar a saúde dos mais velhos. A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que a taxa de letalidade da Covid-19 chega a ser 13 vezes maior entre quem tem mais de 80 anos, em comparação às pessoas com idade entre 50 e 55 anos.

Visão estereotipada

Segundo a enfermeira e doutora Ângela Maria Alvarez, que trabalha há mais de 30 anos com geriatria, a sociedade ainda tem um olhar estereotipado para este grupo populacional. Uma visão de que os idosos “possuem deficiência e incapacidade”. 

“Existe essa visão do idoso, que é aquele que anda de bengala, aquele que tem dificuldades, mas há idosos chefes de família, casados. A sociedade precisa repensar e começar a produzir para eles”, comenta Ângela, que é professora titular da UFSC (Universidade de Santa Catarina). 

Apesar do preconceito, ela acredita que o tema pode ser amadurecido. “Santa Catarina não tem uma população tão grande de idosos, mas vamos ter, vamos envelhecer. Teremos que fazer questionamentos sobre quem é idoso aos 60 anos e quem não é”, afirma.  

Por enquanto, porém, o olhar ao idoso diversas vezes é diminuído a caricaturas. Nas internet, o preconceito contra os mais velhos, definido como ageísmo ou descriminação etária, pode ser visualizado em piadas e falas até mesmo de políticos. 

Memes sobre idosos viralizaram na internet – Foto: Reprodução/Redes Sociais/NDMemes sobre idosos viralizaram na internet – Foto: Reprodução/Redes Sociais/ND

Logo que os decretos de isolamento surgiram, internautas pareceram se divertir com imagens e montagens do “Busca Véio” ou “Caça Véio”. 

Os textos também são cheios de preconceito. Um deles, que circulou por aplicativos de mensagens, alertava “crianças acima de 60 anos” a não sair, pois um carro pegaria “idosos para fazer sabão”. 

Morador do pantanal, Antônio Vicente da Silva, de 77 anos, não gostou das brincadeiras. Para o aposentado que segue as regras de distanciamento social, as piadas depreciam. “Eu não gostei mesmo, achei desagradável e não deviam usar isso para as pessoas idosas”, lamenta. 

As chacotas fizeram a ABG (Associação Brasileira de Gerontologia) divulgar nota repúdio. No texto, a entidade afirma que, “apesar de ser imperativo manter o isolamento para a superação da pandemia, a discriminação etária não deve ser o preço”. 

Idoso e feliz

Antônio Vicente da Silva, de 77 anos. – Foto: Arquivo Pessoal/NDAntônio Vicente da Silva, de 77 anos. – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Mesmo com a rotina transformada pela pandemia, Antônio se diz feliz. Integrante de grupos de idosos e apaixonado por carnaval, ele precisou se acostumar em ficar em casa.

“Minha rotina mudou muito mesmo. Sou uma pessoa super ativa, gosto muito de andar na rua, de fazer caminhada”, conta. “Ele [o coronavírus] nos fez ficar um pouco dentro de casa e um pouco mais estressado, porque a gente tem uma vida ativa. Mas foi um mal necessário”, afirma. 

Em tempos de pandemia, o florianopolitano usa mais do que nunca a internet para se comunicar com os filhos. Animado com as visitas do filho que mora perto, uma vez por semana, Antônio já se acostumou. Mas espera poder se reunir em breve com os amigos da escola de samba Dascuia, da qual é integrante.

Denúncias de abusos no Brasil aumentaram

Um levantamento do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, publicado em junho, apontou que as denúncias de violência contra a pessoa idosa mais do que quintuplicaram de março até maio deste ano. O relatório nacional mostrou que os casos passaram de cerca de 3 mil em março, para quase 17 mil em maio. O relatório não traz dados estaduais. 

Na contramão, em Santa Catarina diminuíram os relatos de maus-tratos a idosos colhidos pelas forças de segurança do Estado. A redução dos registros foi de 50% (de 64 para 32), enquanto a queda dos registros de lesão corporal dolosa foi de 39% (de 632 para 385). 

Os números são de 12 de março a 29 de maio. A comparação entre os dados da Secretaria de Segurança Pública foi feita entre 2019 e 2020. 

Coordenador do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos e do Terceiro Setor do Ministério Público, o promotor João Douglas Roberto Martins faz um alerta. Apesar de os registros terem diminuído no período da pandemia, o cuidado precisa ser redobrado.

Boas práticas

Com aproximadamente 500 alunos matriculados, o NETI (Núcleo de Estudos da Terceira Idade), em Florianópolis, busca dar autonomia e autoestima aos mais velhos. A unidade oferta 29 atividades socioeducativas, entre idiomas e aulas de teatro. Apesar da quarentena, as atividades não pararam. 

Segundo a coordenadora do programa, Maria Fernanda Baeta Neves Alonso da Costa, as atividades ocorrem de maneira remota, em que os alunos interagem também com tecnologia. “A sociedade vê o idoso de uma forma diferente do que é”, explica. “Mas eles têm autonomia, vontades, desejos. São pessoas como qualquer outra”, diz. 

Os assuntos abordados neste período envolvem também a pandemia, mas sob a perspectiva de prevenção e autocuidado. 

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