Pandemia ou endemia: entenda diferença que pode classificar situação do Brasil contra Covid-19

Especialistas apontam que, para além do quesito prático, que pode variar bastante, há maior efeito simbólico ao rebaixar os status da doença

Estadão Conteúdo São Paulo

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Após a possibilidade do Ministério da Saúde passar a considerar a situação do Brasil endêmica em relação à Covid-19, a dúvida surgiu: qual a diferença entre endemia e pandemia? Além disso, vale ficar atento para entender as mudanças, na prática, em meio às diferentes denominações.

Reclassificação para endemia é objeto de estudo pelo ministério da Saúde – Foto: Leo Munhoz/NDReclassificação para endemia é objeto de estudo pelo ministério da Saúde – Foto: Leo Munhoz/ND

De forma simplificada, uma doença ganha status de ‘pandemia’ quando atinge vários continentes de forma intensa. Quando uma enfermidade é classificada dessa forma, os países adotam uma série de medidas específicas para combatê-la, como ocorreu a partir de 2020, com a Covid-19.

Já a endemia ocorre quando uma doença que, embora tenha frequência acima do esperado em determinada região, convive com a população de forma contínua.

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Ao classificar a situação de contágio da Covid-19 dessa maneira, um governo indica que tem meios suficientes para controlar a doença e abre brecha para eliminar uma série de medidas restritivas, como o uso de máscaras, por exemplo.

Especialistas apontam que, para além do quesito prático, que pode variar bastante, há efeito simbólico ao rebaixar os status da doença. A partir das medidas tomadas de forma complementar, a medida poderia simbolizar pouca mudança na prática, mas comunicaria que a Covid-19 estaria em níveis controlados no país.

Mudança

A possibilidade de mudança surgiu no Brasil após a desaceleração da variante Ômicron no país, que ocasionou a queda no número de casos de Covid-19.

No entanto, ainda não há uma padronização sobre quando os países poderiam chegar a essa conclusão do ponto de vista local, o que deixa o tema cercado de dúvidas. Para os agentes de saúde e pesquisadores, ainda é precoce rebaixar neste momento a atual pandemia.

Como fica a situação em outros países?

Recentemente, Reino Unido, França e outras nações da Europa anunciaram que, por conta da melhora nos indicadores, mudariam a classificação da Covid-19 para endemia.

Na América do Sul, onde o impacto da Ômicron chegou de forma mais tardia e o pico de casos foi mais recente, as discussões caminham nesse sentido.

A Organização Mundial da Saúde, que é a responsável por decretar que a pandemia teria chegado ao fim do ponto de vista global, ainda não sinalizou mudança na forma de tratar a doença.

Um dos motivos, apontam especialistas, é que enquanto a vacinação avançou de forma rápida em países desenvolvidos, o que os motivou a alterar a classificação, em parte dos países africanos, por exemplo, os índices de cobertura vacinal ficam próximos a 4%.

Com a desigualdade ainda latente, menos de 60% da população mundial está vacinada com dose única ou duas doses contra a Covid-19, conforme apontam dados da plataforma Our World in Data, ligada à Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Endemia não é algo que está fora de controle, que está sobrecarregando o sistema de saúde, que está resultando em ondas. É algo mais estável, que se sabe que tem uma maneira de gerenciar”, explica a vice-presidente do Instituto Sabin, Denise Garrett.

A questão, reforça, é que para isso precisam ser adotados parâmetros claros para promover a mudança na classificação da Covid para um país.

“Hoje, abandonar o uso de máscara em ambiente aberto, por exemplo, é justificável, mas não é, ao meu ver, o momento de abandonar em ambiente fechado. É uma evolução: o que é certo hoje não é certo daqui um mês”, diz Denise.

Para o pesquisador da Fiocruz Julio Croda, enquanto a OMS é a responsável por definir a situação pandêmica de um nível global, e faz isso com métodos específicos, cada país acaba trabalhando os indicadores de maneira diferente.

“Eles não estão decretando o fim da pandemia, e nem que a doença é endêmica. É apenas uma reclassificação local, dentro daquele contexto”, explica Croda.

“Falta no Brasil um planejamento em relação a uma transição adequada. O Ministério da Saúde nunca trabalhou com indicadores, nem sequer para medidas restritivas. No fim das contas, cada Estado adota as medidas de forma independente.”

Além de deixar parte da população mundial desguarnecida, as diferenças na imunização abrem brechas para o surgimento de mais variantes de preocupação, o que seria ainda um outro entrave para que a Covid-19 deixe de ser classificada como pandemia.

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