O depoimento do ministro da Saúde Marcelo Queiroga na CPI da Covid-19 acendeu os ânimos no Senado, nesta quinta-feira (6). A pergunta sobre o uso da cloroquina como tratamento da Covid-19 virou bate-boca.
De um lado, senadores oposicionistas e independentes tentavam obter respostas objetivas do ministro e, de outro, os governistas protestavam dizendo que havia tentativa de direcionar o depoimento da testemunha.
Ministro Marcelo Queiroga não respondeu se é contra ou a favor do uso de cloroquina – Foto: Alan Santos/PR/Divulgação/NDA CPI é composta por sete senadores oposicionistas ou independentes e apenas quatro governistas. Com essa formação, a tendência é de perguntas duras por parte da maioria, e da tentativa de reduzir os danos por parte dos governistas. Nesse embate, os ânimos têm se acirrado em todas as sessões da CPI.
SeguirNesta quinta, houve dois momentos de tensão. Em um deles, com a recusa do ministro da Saúde em responder sim ou não à pergunta se concordava com o presidente Bolsonaro sobre o uso da cloroquina.
Até o presidente da CPI, deputado Omar Aziz (PSD-AM), que costuma apaziguar, entrou na discussão: “Ministro, até a minha filha de doze anos pode responder se sim ou não”, afirmou.
Queiroga disse que o parecer técnico teria que ser feito no âmbito da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS) e não respondeu objetivamente à pergunta.
Além do relator, que fazia os questionamentos, falaram os senadores governistas Marcos Rogério (DEM-RO) e Girão, e os oposicionistas Aziz, presidente da CPI e Randolfe Rodrigues, o vice-presidente do colegiado.
Confira a discussão:
Renan Calheiros: Vossa excelência compartilha da opinião do presidente da República sobre tratamento precoce especialmente sobre o uso da cloroquina para pacientes com Covid-19?
Queiroga: Senador, essa é uma questão técnica, que tem que ser enfrentada pela Conitec.
Renan: Perguntei ao senhor, Conitec virá na sequência, o senhor compartilha da visão do presidente?
Queiroga: Segundo o decreto lei que regulamenta a Conitec eu sou instância final decisória e posso ter que dar um posicionamento sobre esse protocolo. Gostaria de manter o meu posicionamento final quando o protocolo for elaborado.
Omar: Ministro, o senhor é testemunha e tem que dizer sim ou não. O senhor está aqui como ministro da Saúde e médico. Como ministro e médico o senhor tem que responder senão nem vamos continuar…
Renan refaz a pergunta.
Queiroga: Essa é uma questão de natureza técnica, tem que ser interpretada da forma técnica.
Renan: Então tecnicamente o senhor não compartilha.
Marcos Rogério: Não é possível construir a resposta do depoente.
Omar se dirige ao senador Heinze: Se ele não quiser responder é direito dele.
Renan: Não é direito, ele firmou um compromisso de responder às perguntas. Não é posição oficial, é ele.
Queiroga: Existem correntes da Medicina: uma contrária e outra defende; e essa questão precisa de posicionamento técnico e há previsão na lei da Conitec, que tem que ser avaliada quanto ao mérito da ocorrência científica e o ministro da Saúde é a última instância.
Renan: A pergunta é objetiva, o senhor compartilha da visão do presidente ou não?
Queiroga: Estou na condição de testemunha.
Marcos Rogério: O relator está tentando induzir a testemunha, isso não é permitido. O presidente deu ordem, essa é questão, objetiva.
Renan: Não é essa questão.
Marcos Rogério: Não cabe direcionar.
Randolfe: Isso é obstrução clara.
Renan: O senhor compartilha a opinião?
Queiroga: Não tenho que fazer juízo de valor.
Omar: O senhor é a favor, sim ou não, de prescrever a cloroquina? É mais fácil.
Renan: Eu perguntei se o senhor compartilha ou não, essa é a pergunta. Isso não é foro de Conitec, isso é uma CPI.
Girão: A polêmica existe sim, vamos ouvir médicos pró e contra.
Renan: Estou indagando, não vou permitir um debate paralelo.
Omar: Ele está aqui como testemunha, tem que responder, ele está aqui como testemunha, não é investigado. Até a minha filha de 12 anos responde sim ou não.
Marcos Rogério. Ele responde sobre fatos e não opinião.
Queiroga tenta responder do ponto de vista técnico sem falar se concorda ou não.
Sem uma resposta objetiva, Renan passa para a próxima, Queiroga diz que não autorizou distribuição de cloroquina na gestão dele e que não está havendo distribuição de cloroquina na sua gestão.
Mais desentendimentos
Mais adiante, os senadores se desentenderam novamente durante um questionamento do relator Renan Calheiros (MDB-AL) se havia orientação do presidente da República para mudança nas coletivas de imprensa do ministério “como o ex-ministro Teich havia informado ontem”.
Senadores governistas discordaram sobre a fala de Teich. Os senadores Eduardo Girão (Podemos-CE) e Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), governistas, disseram que Teich não havia dito isso e Randolfe Rodrigues (Rede-AM) entrou na discussão para dizer que havia um time na CPI para tentar obstruir os trabalhos.
O senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS) disse que era do time que defendia prefeitos e governadores e foi acusado de recomendar remédio de animais para humanos, o que ele negou ter feito.
Confira o bate-boca:
Renan Calheiros: A sua chegada representa uma mudança no ministério?
Marcelo Queiroga: Com certeza, senador.
Renan: Houve mudança de orientação sobre entrevistas coletivas? O ministro Teich disse isso…
Girão: Ele [Teich] não falou, não crie uma retórica que não existe.
Fernando Bezerra: Ele foi perguntado [Teich] e respondeu que o presidente não deu nenhuma orientação para mudar.
Renan: Se quiserem gritar me avisem que eu paro.
Randolfe: Eles replicam depois. Fernando, quer tomar o lugar do relator?
Fernando: Estou falando porque isso está nas notas taquigráficas.
Renan: Vai ser todo dia assim? E Fernando chegou ontem. E teve gente ontem que recomendou tratamento animal.
Randolfe: Há uma obstrução em curso. Tem um time aqui que não quer que a CPI trabalhe.
Heinze: Vossa Excelência é um mentiroso [para Renan]. Não recomendei tratamento animal. Tem um time que quer defender prefeitos e senadores.
Omar: Renan pergunta o que ele quiser e quem quiser contrapor terá o tempo que quiser para rebater. Heinze, quando for a sua hora o senhor fala.
Heinze: Não mintam.
Omar: Não fala no plural não. É não minta.
O depoimento de Queiroga continua no Senado. Já o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, será ouvido somente na próxima terça (11).