Crianças contaminadas por Covid-19 nos municípios brasileiros mais pobres tiveram quase quatro vezes mais chances de morrer do que aquelas que vivem nas regiões com maiores PIB (Produto Interno Bruto). O risco entre os adolescentes era de quase o dobro. Além disso, os testes e exames laboratoriais foram minoria entre o público com menor renda. A pesquisa foi realizada por um grupo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Crianças de municípios pobres tinham quase quatro vezes mais chances de morrer de Covid-19 do que nos mais ricos – Foto: Piron Guillaume/ Unsplash/ Divulgação/ NDOs dados e conclusões sobre o tratamento da Covid-19 entre o público infantil foram elaborados pela pesquisadora Caroline Fabrin, durante seu mestrado. As análises tiveram orientação da professora e epidemiologista Alexandra Boing, que ajudou a identificar como as desigualdades socioeconômicas impactaram no cuidado e na letalidade das crianças.
A pesquisa utilizou dados do Sivep-Gripe (Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe), preenchido obrigatoriamente por serviços públicos e privados de saúde no Brasil. No total, foram utilizadas informações sobre mil pacientes, de zero a 18 anos. Entre as regiões, as disparidades observadas mostram que no Nordeste as crianças tinham 2,5 chances a mais de morrer do que no Sudeste.
SeguirNo caso dos testes e exames, a pesquisa desenvolvida dentro do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFSC mostra desigualdades. As tomografias foram feitas com uma frequência cerca de duas vezes maior em municípios com altos PIB. O exame também foi realizado duas vezes mais em crianças do Sul em comparação com as do Norte.
Tabela reúne dados de exames e internações coletados por pesquisadoras da UFSC sobre Covid-19 em crianças – Foto: UFSC/ Divulgação/ NDOs testes biológicos ou raio X também foram realizados mais vezes em locais com rendas mais altas.
Junto a falta de acesso ao trabalho remoto, as casas com menos cômodos, menor acesso a serviços de saúde e maior casos de doenças crônicas, os dados mostram que os riscos de morte entre as crianças mais pobres foram consideravelmente maiores.
Os resultados foram constantes nas duas ondas analisadas da doença. “Essas condições podem aumentar a exposição ao vírus e sua consequente disseminação em uma população que normalmente já tem uma carga maior de doenças crônicas. Então acaba tudo isso sendo um catalisador para os casos mais graves”, diz a pesquisadora Caroline Fabrin.
A pesquisa mostra, como aponta a pesquisadora, a importância de considerar as características prévias de uma população ao enfrentar uma crise, como a da Covid-19.
“As populações que já estão em desvantagem previamente devem ser priorizadas nos momentos de crise. E não foi o que aconteceu no país no enfrentamento da pandemia. As ações deveriam ser voltadas de acordo com as necessidades de cada local para o enfrentamento”.