Pesquisa inédita identifica fatores genéticos que aumentam risco de morte por Covid-19

Colaboração sem precedentes publicada nesta quinta-feira (8) na Revista Nature busca mapear, entre outros pontos, porque pessoas sem comorbidades adoecem com severidade

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Redação ND Florianópolis

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Parte do mistério que envolve o desenvolvimento das formas mais graves da Covid-19, bem como risco elevado de morrer pela doença, foi desvendado em uma pesquisa inédita sobre os fatores genéticos determinantes para tal condição.

A colaboração sem precedentes envolveu mais de 40 estudos de 19 países e 3.300 pesquisadores, e foi publicada na revista Nature nesta quinta-feira (8).

Para mostrar um pouco da luta diária pela vida em meio à pandemia, a NDTV Record Joinville entrou em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Foi a primeira emissora de televisão a entrar em uma UTI Covid em Joinville e mostrar a rotina e os desafios da equipe médica. – Foto: Divulgação NDPara mostrar um pouco da luta diária pela vida em meio à pandemia, a NDTV Record Joinville entrou em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Foi a primeira emissora de televisão a entrar em uma UTI Covid em Joinville e mostrar a rotina e os desafios da equipe médica. – Foto: Divulgação ND

Foram descobertas 13 regiões do genoma humano, em oito cromossomos, que influenciam o risco de uma pessoa adoecer de forma grave e morrer de Covid-19.

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Para chegar ao resultado, os cientistas analisaram dados de 49 mil pessoas com Covid-19 e outras 2 milhões sem a doença, usados para comparação. Entre os fatores que aumentam o risco de desenvolver Covid-19 grave estão: ser homem, estar acima do peso e mais velho , que são os principais. Ter diabetes, doenças cardiovasculares e hipertensão também contam.

Mas e quem não tem nenhuma comorbidade e adoece de maneira severa? Também há aqueles que, apesar de terem comorbidades, ficam assintomáticos apesar da infecção. Determinadas alterações genéticas podem explicar esses casos misteriosos e também potencializar os danos de comorbidades conhecidas.

Os cientistas descobriram que mutações em regiões dos cromossomos 3, 6, 8, 9, 12, 17, 19 e 21 estão associadas à suscetibilidade ou à severidade da doença.

“A maior importância da pesquisa é mostrar que existe um mecanismo genético e que ele fará diferença no curso da doença. Não sabemos quais são os genes envolvidos, mas já podemos afirmar que existem pessoas geneticamente mais suscetíveis. E essa suscetibilidade pode não ser evidente, a não ser que a pessoa seja exposta ao coronavírus”, afirma um dos coordenadores da rede, Mark Daly, do Instituto Broad, em Boston.

Genes podem ser decisivos para os mais jovens

No Brasil, a pesquisa contou com a colaboração de cientistas do estudo Determinantes Genéticos de Complicações da Covid-19 na População Brasileira, desenvolvido no Instituto do Coração da USP (Universidade de São Paulo).

Para os jovens, genes podem ser decisivos. Andrea Ganna, do Instituto de Medicina Molecular da Finlândia, também coordenador da rede global, destacou que a identificação de fatores de risco genético é particularmente importante para os indivíduos mais jovens, que tenham vulnerabilidade não aparente.

Ainda há muito trabalho à frente antes que todos os genes associados à Covid-19 sejam descobertos. Mas, uma das primeiras aplicações, quando isso ocorrer, será o desenvolvimento de testes genéticos para detecção de risco aumentado, prognóstico da doença e estratégia de tratamento.

Pontos vulneráveis ao coronavírus

Para investigar nossos pontos vulneráveis ao coronavírus, os cientistas tanto procuraram alterações genéticas que já haviam sido associadas anteriormente a infecções e a doenças autoimunes, quanto buscaram pontos de convergência em pessoas com quadro graves. Das 13 regiões do genoma relacionadas à Covid-19, seis têm variações específicas da doença e não estão ligadas a qualquer outra enfermidade.

A maioria das regiões do genoma identificadas abriga genes ligados ao sistema imunológico. Porém, algumas estão relacionadas à fisiologia do pulmão e já foram associadas ao câncer e à fibrose pulmonar.

Quatro das 13 áreas do genoma identificadas foram relacionadas à suscetibilidade ao Sars-CoV-2. Isto é, pessoas que possuem esse tipo variação genética correm um risco maior de desenvolver infecção, não necessariamente grave, caso entrem em contato com o coronavírus.

Nove das 13 regiões estão ligadas à severidade da Covid-19.  Uma delas fica no cromossomo 19 e mutações no gene TYK2 são o fator de risco mais provável.

Vácuos da pesquisa
A pesquisa apresenta vácuos importantes, entre ele, o fato de ter sido feita principalmente na Europa e na América do Norte. Como em genética há diversidade populacional, o trabalho não oferece um quadro global.

Uma das variações ou mutações está no gene FOXP4, no cromossomo 6.  Ela foi ligada a formas graves da Covid-19 e é encontrada muito mais frequentemente em populações de ancestralidade latina ou asiática. Mutações no FOXP4 já foram relacionadas a certas formas de câncer de pulmão.