A recomendação da área técnica da Anvisa pela aprovação da Coronavac, neste domingo (17), é o mais recente capítulo na história sobre a Covid-19 e a busca por um imunizante eficaz.
Na apresentação, o gerente da Anvisa informou que a área técnica confirmou a eficácia da CoronaVac. A taxa de sucesso na prevenção da doença em relação ao grupo que tomou placebo (medicamento inócuo) atingiu 50,39%. Os dados são semelhantes aos que foram divulgados na última semana pelo Instituto Butantan.
A maneira com que os dados da vacina contra a Covid-19 foram divulgados, contudo, gerou incontáveis dúvidas. O imbróglio foi em virtude dos dados prévios, divulgados em coletivas anteriores, que não eram de eficácia global, mas sim na redução de casos graves, com 100% de eficácia, ou 78% para casos leves.
SeguirCom isso, o assunto da semana foi a discussão acerca do imunizante, que deve ser o protagonista do Plano Nacional de Vacinação do Ministério da Saúde e o mais viável para ser aplicado no Brasil.
A taxa de sucesso da Coronavac atingiu 50,39%, segundo a Anvisa – Foto: Pixabay/Reprodução/NDNa entrevista coletiva do Instituto Butantan, a bióloga Natalia Pasternak ressaltou que os próximos passos devem ser no sentido de conscientizar a população acerca das vacinas, o que deve valer não só para a Coronavac, embora a vacina, de origem chinesa, seja a que enfrente maior rejeição.
Em entrevista ao ND+, o especialista em Imunologia e Microbiologia com ênfase em desenvolvimento de vacinas, Oscar Bruna Romero, ressaltou que apesar das dúvidas, a eficácia da vacina do laboratório Sinovac, é promissor e deve causar grande impacto ao longo do ano.
“Em 2021 o que procuramos é não ter casos moderados e graves, porque evitamos óbitos e tiramos as pessoas dos hospitais. Este é o nosso problema agora. Se alguém fica com uma gripezinha, tem uma diarreia ou infecção, neste momento, não é tão relevante quando desafogar os hospitais e evitar mortes”, afirma o cientista, que vê os números apresentados com bons olhos.
Os números das vacinas devem, inclusive, oscilar conforme estudos sejam feitos, afinal, os pesquisadores não devem encerrar as análises depois que as primeiras doses sejam injetadas.
“Não me atrevo a dizer qual será a oscilação, mas irá oscilar. Quando testarmos em toda a população, as coisas devem mudar. A vacina do Butantan [Coronavac] só foi testada em pessoas do meio sanitário, que tinham o coronavírus na ponta do nariz todos os dias”, afirma.
Assim como os dados, os fatos acerca do plano de vacinação têm apresentado volatilidade. Algumas interrogações como “Posso me vacinar duas vezes?” ou “Posso ter ‘alergia’ à vacina?”, naturalmente, surgem. Por isso, o ND+ questionou o especialista no assunto sobre este tema.
O que, exatamente, pode ser compreendido como “eficácia” ou “eficiência” dentro de uma pesquisa ou ensaio clínico?
Os temos são utilizados muitas vezes como sinônimos. O que existe é a diferença entre o que se considera eficácia entre um ensaio clínico. Podemos considerar eficácia em um desfecho X ou Y. Por exemplo, você quer ser completamente protegido contra a Covid-19, ou aceita que a infecção desde que não se tenha sintomas graves. São dois desfechos diferentes, se você mede proteção completa, a eficácia será muito pequena, pois alguns ficarão infectados temporariamente. Mas ela deve ser muito grande se evitarmos os casos graves.
A vacina do Butantan [Coronavac] por exemplo, mediu até o último sintoma. Se o paciente espirrou uma vez, ficava registrado. Se tivesse diarreia, isso seria registrado. E então, a pessoa era dada como suspeita.
No ensaio clínico da Pfizer as pessoas precisavam ter sintomas mais graves. As pessoas que tinham tosse ou diarreia nem iriam fazer o teste, sendo que muitos provavelmente contraíram o vírus. Porém, nas normas do ensaio, só era solicitado que as pessoas testassem se tivessem febre ou náusea.
Muito se tem discutido sobre a eficiência global ou em grupos segmentados da Coronavac, ou de outros imunizantes com eficácia semelhante, diferenciando os efeitos para casos graves ou mais leves. Como é possível explicar isso para o público mais leigo, que deve tomar a vacina em breve?
Acho que qualquer uma das vacinas é um passaporte para não morrer. Todas elas. Você evita óbito, isso já é muito importante. E também é um passaporte para liberar os hospitais. Já é uma melhora substancial. Acho que as pessoas entendem isso rapidamente.
Você chega para a pessoa e fala: “Olhe, tome esta vacina que você terá, no máximo, um caso de gripe leve, mas não irá morrer”. É bastante intuitivo, provavelmente não terei um caso grave e ainda posso ajudar outros que precisam ser tratados.
Dentre as vacinas que estão sendo produzidas atualmente, para além da Coronavac, há algum imunizante que consiga frear ou diminuir a transmissão do vírus de pessoa para pessoa?
Até então, pelo que sabemos, não. O vírus continuará se transmitindo pois há muita gente que tem o vírus ativo em si, se multiplicando. Então, é muito difícil imaginar que iremos frear a transmissão.
Com estas vacinas, precisaríamos de 100% da cobertura vacinal, acima de 97%, no mínimo. Um número que não alcançaremos por, dentre outras coisas, o enfrentamento social e político que temos.
Pela situação, é muito difícil pensar que conseguiremos quebrar a cadeia de transmissão. Só quebraremos ela quando tivermos uma nova vacina que, até nos últimos sintomas, consiga proteger, querendo dizer que o vírus deixa de se multiplicar no paciente. Isso é muito difícil de conseguir.
Conseguiremos isso com as vacinas de segunda geração, ou de terceira geração. Daqui um ano, ou um ano e meio, elas aparecerão. Mas conseguiremos diminuir a transmissão com as atuais, já que as pessoas terão uma carga viral baixa.
Um tópico que acabou sendo discutido, especialmente nas redes sociais, ante um arsenal amplo de vacinas que devem chegar ao Brasil e outros países em breve, é sobre a possibilidade de uma mesma pessoa tomar mais de uma das vacinas. Isso é possível? Apresenta riscos?
É uma das coisas que está se estudando em alguns países. Existe, nesse momento, um ensaio clínico com a vacina de Oxford e a Sputnik V, da Rússia, pois elas são compatíveis, usam uma plataforma muito similar, de adenovírus.
Existe a possibilidade, pode ser que no fim, combinemos uma injeção de RNA, que é mais cara, com uma injeção de adenovírus é mais barata e mais simples de fabricar. Pode ser. Porém, atualmente, você só pode utilizar o que os ensaios clínicos falaram que pode ser utilizado.
Não podemos mudar a via, a dose, nem colocar outra vacina. Mas conforme o ano avance, vão se tentar essas coisas e saberemos dessa possibilidade.
Sobre os efeitos adversos, há algumas inseguranças em relação às características como alergias. Há alguma restrição ou possibilidade de rejeição a algum dos imunizantes que temos disponíveis?
Com certeza. Uma vacina não é água benta, é um terapêutico. É imunobiológico, e tal como outros remédios, pode ter efeitos adversos. Quando fazem um ensaio, determinam qual a proporção. Estamos vendo que a Pfizer ocasionou alguns casos de anafilaxia, uma reação alérgica. Em que proporção? Mínima. É grave? Não, pois a Pfizer obriga as pessoas vacinadas a ficarem quinze minutos ou trinta minutos sentados do lado da sala de vacinação, pois sabem que a anafilaxia se manifesta nesse tempo. O risco é tão baixo que é mais preocupante pegar seu carro e dirigir daqui [Florianópolis] até Curitiba do que se vacinar.
Sobre a Coronavac, a eficácia de aproximadamente 50%. Caso tenhamos uma cobertura vacinal razoável, pode mudar muito o panorama de 2021, em termos de restrições?
Nós teremos uma melhora considerável, mas de forma alguma voltaremos ao que era antes da pandemia. Nós teremos precauções até conseguirmos uma diminuição da transmissão muito mais significativa do que estas vacinas devem conseguir atingir no primeiro ano.
Nossa esperança é de que saiam uma ou duas vacinas que possam ser aplicadas nas mesmas pessoas durante 2022, ou 2023, e que estas sim nos levem de volta ao estágio anterior.
A mudança nesse ano só ocorre quando tivermos uma cobertura vacinal de cerca de 60%, até lá sentiremos pouco efeito em termos de transmissão.
O senhor avalia que a Coronavac é satisfatória ou acha que deveríamos ter apostado mais em infraestrutura para alocar outros imunizantes?
As vacinas se adaptam aos países onde são aplicadas. Temos as vacinas, provavelmente, mais adequadas ao Brasil. Não adiantaria tentar vacinar o Brasil na situação atual com uma vacina que custa R$ 120 por dose. Não adiantaria. O problema viria de vários lugares.
O que poderíamos ter feito seria investir mais na pesquisa nacional para não termos que comprar vacinas de outros países. A escolha da Fiocruz e do Butantan foi a melhor decisão. Do que temos, essas [Coronavac e Oxford/AstraZeneca] são as melhores vacinas.
Dentro do cenário nacional vários governadores disputaram para conseguir vacinas com uma eficácia alta em tempo recorde. Como o senhor avalia essa situação?
Acredito que os gestores em saúde têm de conseguir a melhor vacina possível. Vacinas impossíveis não vão adiantar nem com 100% de eficácia. Até hoje, as mais eficientes são as duas escolhidas. Se tivermos possibilidade, vacinaremos com outras, mas não podemos deixar de vacinar imediatamente, que estamos no pior momento, de toda a pandemia. Temos que escolher as mais eficientes, mas dentro das nossas possibilidades.
O senhor acredita que devemos ter uma cobertura vacinal razoável em quanto tempo?
Eu espero que durante 2021 cheguemos a cobertura suficiente para o que mais nos preocupa, que é o fim dos casos graves. Para a transmissão pode ser que só em 2022, em algum momento, se tivermos sorte.
Há possibilidade as pessoas se vacinarem mais de uma vez. Acredito que, seguindo essa estratégia, estaremos melhor. Em vez de deixar mais centenas de milhares de brasileiros morrer, devemos, o mais rápido possível, frear esse número [de óbitos] . Depois, focamos em eliminar a transmissão. Não será no primeiro momento que focaremos em liberar festas e outras aglomerações.