Pesquisa é focada no comportamento das pessoas durante a pandemia da Covid-19 – Foto: Anderson Coelho/NDA adesão ao isolamento social é fortemente influenciada pela pressão social. Pessoas próximas e líderes fazem a diferença sobre o comportamento, garante pesquisa realizada na UFSC. O pesquisador Gabriel Iwaya conversou com a coluna sobre o resultado da fase inicial do trabalho.
Gabriel Iwaya, pesquisador da UFSC – Foto: Divulgação/NDQuais os principais resultados sobre as crenças que influenciam na adesão ao distanciamento social na pandemia?
A variável ‘normas subjetivas’, relacionada à pressão social exercida sobre as pessoas pelos pares foi a que mais influenciou. Ou seja, quanto mais uma pessoa percebe que pessoas importantes para ela pensam que ela deveria permanecer em distanciamento, mais disposição ela apresenta nesse sentido.
A percepção das vantagens pessoais associadas, como bem-estar e segurança, também pesou.
SeguirUm resultado que não era esperado foi o de que a percepção de fatores facilitadores ou impeditivos, como condições financeiras para permanecer em distanciamento social, não apresentou um tamanho de efeito que justificasse dizer que essa variável efetivamente estava exercendo alguma influência sobre o comportamento. Mas a coleta de dados foi de 31/3 a 6/4, no início da medida de distanciamento.
É possível que, com o passar do tempo, mudem os tamanhos de efeito dessas três variáveis principais (atitudes, normas subjetivas e controle comportamental). Por isso, reiniciamos a coleta em 18 de agosto.
Fale mais sobre a pressão social exercida pelos pares.
Não é de hoje que sabemos que a pressão social exercida pelos nossos pares – líderes, chefes, familiares, amigos etc – é capaz de fazer com que um indivíduo opte por se comportar de uma determinada forma que é “esperada”. Nossa pesquisa demonstrou que não só a pressão social influencia positivamente no distanciamento social, como também que ela é o principal fator de influência.
Por quê o resultado da pesquisa é importante para a definição de ações do poder público?
A pesquisa apresenta quais “crenças” exercem maior efeito. As informações servem para a elaboração de estratégias de comunicação persuasivas voltadas à disseminação da prática do distanciamento social. Identificar figuras-chave credíveis, líderes religiosos ou políticos, pode ser uma estratégia eficaz na disseminação de mensagens persuasivas em campanhas de saúde pública em epidemias.
O engajamento dos líderes religiosos em campanhas que defendiam boas práticas foi considerado o ponto de virada na resposta ao Ebola, na África.
Por quê é importante identificar figuras-chave influenciadoras? Quais são as principais, de acordo com a pesquisa?
Os líderes desenvolvem um papel importante, fortalecendo a ideia de que a adoção do distanciamento social é a melhor medida para o combate à Covid-19. Eles têm poder e legitimidade para disseminar informações favoráveis relacionadas com a adoção do distanciamento social.
O cenário ideal seria o de um discurso uníssono entoado à população pelas figuras que exercem papel de liderança, sejam elas políticas, religiosas, artísticas, sociais, digitais etc.
Entretanto, vivemos no Brasil em um contexto de extrema polarização política que, não só fortalece o nível de discordância entre os discursos apresentados como também trata da questão da saúde pública como um embate de ideais partidários, desvencilhado das necessárias evidências que justifiquem suas ações.