Uma pesquisa divulgada pela Fiocruz apontou os reflexos da pandemia de Covid-19 na vida do brasileiro. Os problemas para dormir, o sentimento de solidão e a ansiedade são as queixas mais comuns entre a população. E a busca pelo prazer no isolamento aumentou o consumo de álcool, de açúcar e os níveis de obesidade.
Estudo da Fiocruz mostrou quais foram os reflexos do isolamento na rotina e na saúde dos brasileiros – Foto: Pixabay/Reprodução/NDRaquel Figueira chegou em Florianópolis há três anos. Hoje, está no grupo dos trabalhadores que perderam o emprego na pandemia. De lá pra cá, os reflexos no corpo e na mente só aumentaram. “Humor, alimentação, paciência, insônia”, contou Raquel.
E não foi só com ela. O motorista particular Maurício João Batista também sentiu os efeitos. Segundo ele, “a questão de ficar em casa é como se eu tivesse preso. Então, para mim teve muita ansiedade, porque a gente acaba ficando mais em casa, a gente consome mais. Até na questão de doce também e de alimentação”.
A busca por prazer na rotina acaba atingindo um pedacinho do cérebro que é chamado de área de recompensa, intimamente ligada com a sensação de satisfação.
“A comida é uma fonte de prazer e é o prazer mais próximo, que tu abre a geladeira, tu pode pedir uma comida gostosa pelo aplicativo. Então, as pessoas começaram a comer, porque as atividades que elas tinham que davam prazer, que era caminhar, ir na academia, dançar, ir no restaurante, namorar, ficaram muito diminuídas. Então, as pessoas começaram a consumir mais álcool, mais comida, para se sentirem mais calmas”, explicou a endocrinologista Marisa Helena César Coral.
O álcool e o açúcar acabam sendo responsáveis por um alívio momentâneo, para tentar suprir algo que falta. A psicóloga Daniela Ribeiro Schneider afirmou que seres humanos são seres sociais e sem contato há uma ruptura no sentido da vida.
Para Daniela, “o sentido da nossa vida é estar com os outros. Essa ruptura que a pandemia produz na possibilidade de estarmos diretamente com os outros, de abraçarmos, de sairmos, de encontrar, de aglomerar como a gente fala agora. Isso de certa forma produz uma ameaça pras pessoas. Aumenta essa instabilidade, esse medo, essa ansiedade”.
A pesquisa da Fiocruz entrevistou 44 mil brasileiros, dos quais 45% desenvolveram problemas para dormir no período da pandemia. A solidão também foi um sintoma bastante comum, 40% dos participantes do estudo se sentem mais sozinhos e tristes. Quando o assunto é ansiedade, o número chega aos 40%.
A psicóloga Daniela explicou que “a ansiedade é a relação com o futuro. Estar ansioso é estar sob ameaça de algo que possa inviabilizar o meu futuro. Então, a pandemia decerta forma veio trazendo toda essa condição”.
No entanto, também há quem vá na contramão. É o caso dos estudantes Amanda Mendonça e Heros Assunção. Sem festas e sem sair de casa, o consumo de álcool diminuiu.
“A gente costumava sair todo final de semana. Então, todo final de semana agora a gente fica em casa assistindo um filme e só”, contou Amanda.
Mas do sentimento de ansiedade não deu pra fugir, como conta Assunção: “Eu passei só mesmo a ter saudade das vezes que eu saía com meus amigos no final de semana, que era constante. Eu passei a ficar mais em casa, trancado, por conta da pandemia.”
Médicos indicam atividade física como uma boa alternativa para manter a saúde mental e física saudável – Foto: Divulgação/NDEntre tantas angústias, como se manter saudável? A médica Marisa aposta nos exercícios físicos e na disciplina. “O exercício é o melhor tranquilizante que existe. E não precisa ser um grande exercício. Uma caminhada já é bom. Se a pessoa conseguir e mesmo assim ela tiver muito pavor, acho que ela tem que ter uma certa disciplina para fazer em casa, porque pode ser dançar, montar um pequena academia em casa”, disse ela.
Outro ponto importante é o apoio, das mais diversas formas. Segundo Daniela, “as pessoas têm que ter alguma forma de buscar apoio com amigos, com familiares, etc. Uma das coisas fundamentais para a nossa estabilidade de vida é estar com os outros. Não se isole, busque sempre estar em contato com as pessoas, mesmo de forma virtual. Alguém que não esteja muito bem, que realmente a coisa seja um pouco mais grave, vamos procurar ajuda profissional”.
Também vale buscar incentivo nos pequenos prazeres da vida. O que faz feliz pode funcionar como um bom remédio.
Raquel, por exemplo, disse que gosta de ir para a cozinha. “Para melhorar, eu faço bolo pros meu amigos. Bolo de aniversário, essas coisas. Brinco com a minha sobrinha também. É isso que faz eu passar o dia”.
Saiba mais sobre o estudo na reportagem do Balanço Geral Florianópolis.