A repercussão em Santa Catarina sobre a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que permite fechar templos e igrejas na pandemia não é consenso entre lideranças religiosas no Estado. Há posições que corroboram com o fechamento, outras que defendem ser impossível praticar a doutrina virtualmente e mesmo que vê o remoto como uma alternativa transformadora.
Entendimento do STF é de que o poder executivo nos âmbitos municipal e estadual pode fechar igrejas e cultos presenciais durante a pandemia – Foto: Pixabay/Divulgação/NDA sessão do STF, finalizada nesta quinta-feira (8), foi convocada pelo ministro Gilmar Mendes, após um conflito de decisões na casa. Ele proibiu, na segunda (5), a realização de cultos em São Paulo. Dois dias antes, o ministro Nunes Marques atendeu um pedido liminar que liberava a realização mediante protocolos sanitários.
Dos 11 ministros, 9 votaram pelo fechamento devido a escalada de casos de Covid-19. Já Nunes Marques sustentou que permissão é um “direito constitucional” e que “não há estudo que comprove a transmissão em igrejas”. Em voto que durou poucos segundos, Toffoli acompanhou o voto.
Saúde do corpo é prioridade, afirma líder espírita
“No momento a prioridade é a saúde do corpo, mas não devemos descuidar do espírito”, afirma Rosana Ponche, vice-presidente da União Regional Espírita da Grande Florianópolis. Desde março, as casas funcionam apenas virtualmente.
“Respeitamos orientações do Ministério da Saúde. O consolo, a orientação pode ser passado a distância. Para a saúde da alma não precisamos estar frente a frente”, pontua Ponche. Foram suspensas a distribuição do passe e a prática mediúnica, “impossíveis de serem realizadas virtualmente”, reforça a dirigente da entidade.
Ponche, que também é presidente do Núcleo de Estudo Espírita Chico Xavier, em Palhoça, estima que cerca de 20% das casas espíritas em Santa Catarina estão funcionando presencialmente. São aquelas que não são associadas a FEC (Federação Espírita Catarinense), segundo ela.
Cristianismo não é religião virtual, defende pastor
O pastor Antônio Lemos, da Assembleia de Deus de São José, é contrário ao fechamento e discorda do entendimento do STF. Ele defende principalmente que decretos municipais não podem suprimir direito constitucional a religião e que o cristianismo não é uma religião praticável pela internet.
Assembleia tem realizado cultos escalonados, também transmitidos virtualmente – Foto: Assembleia de Deus/Divulgação/ND“Não há como partir a hóstia, não existe sacramento virtual. O cristianismo exige participação comunitária”, defende o pastor. Para Lemos, o culto em casa é válido apenas se partir da decisão do cristão. Caso contrário, “o Estado obriga o cidadão a mudar preceito de fé”.
O pastor defende que os cultos ocorram com restrição de público e cumprindo protocolos sanitários. A Assembleia de Deus de São José realiza encontros escalonados, por meio de listas de presença. Os cultos presenciais também são exibidos virtualmente.
O virtual respondeu a uma demanda antiga do budismo
O CEBB (Centro de Estudos Budistas Bodisatva) de Florianópolis segue a posição do professor Lama Padma Santen. As atividades presenciais estão suspensas desde março. Retiros, palestras e meditações são realizadas virtualmente. “Não há sentido criticarmos aglomerações e liberar encontros”, diz o focalizador Alexandre Vieira.
Para a CEBB, o virtual conseguiu difundir o budismo para locais sem centros. A posição é seguir as orientações dos especialistas – Foto: CEBB/Divulgação/NDA experiência se mostrou mais positiva do que o esperado. “Sem perceber, respondemos a uma demanda antiga. Como atender pessoas em lugares sem centros budistas? Retiros presenciais com 300 pessoas viraram palestras para mil. Achávamos que meditar pela internet seria frio, mas nos surpreendemos”, pontua Vieira.
Conforme Vieira, o Centro continuará seguindo as orientações de Santen, que é priorizar as opiniões dos especialistas em saúde. E acredita que a experiência virtual mudará as dinâmicas do CEBB. “Imagino que depois da pandemia não voltaremos ao formato tradicional, apenas presencial”.
Orientação é seguir autoridades, afirmam bispos
Apesar de ressaltar que a religião cumpre um papel essencial nessa pandemia, o entendimento da CNBB Sul (Confederação Nacional dos Bispos Brasileiros) é de que momentos litúrgicos, como oração, estudos e cultos não precisam ser realizados de forma presencial.
O posicionamento da CNBB é acolher “as orientações das autoridades, especialmente da vigilância sanitária, que têm por objetivos preservar a vida como compromisso com nosso dom mais precioso e agir pelo bem comum” se manifestou a Confederação, por meio de nota.