Um ano de restrições em SC: quando percebemos que tudo mudaria?

Na data que marca um ano de medidas restritivas, moradores de SC compartilham quando perceberam que a pandemia de Covid-19 mudaria completamente as nossas vidas

Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

Nesta quarta-feira (17) faz um ano que o primeiro decreto de restrições que suspendeu atividades essenciais entrou em vigor em Santa Catarina. O documento, assinado pelo governador Carlos Moisés, determinava as medidas menos de uma semana após a confirmação dos primeiros casos de Covid-19 no Estado.

Primeiras restrições foram decretadas há um ano em SCNa mesma semana que Santa Catarina confirmou os dois primeiros casos de Covid-19 foi decretada a suspensão das atividades essenciais – Foto: Pixabay/Divulgação/ND

É curioso lembrar que a pandemia de Covid-19 se propagou pelo Brasil logo após o Carnaval de 2020. Na época, sabíamos pouco sobre o vírus e seu efeito, mas menos de um mês depois já estávamos presos em casa acompanhando a proliferação do coronavírus.

Até então, vivenciamos desde o fechamento de todas as atividades essenciais nos primeiros meses de pandemia ao início da abertura regulada de casas noturnas no fim de 2020 – e agora voltando ao uso do lockdown como arma contra a Covid-19.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

No início desse processo, cada um viveu o momento em que “a ficha caiu”. Em meio a memórias de ruas e praias vazias, os catarinenses contaram ao ND+ quando perceberam que a pandemia mudaria completamente a nossa vida. Confira os resumos dos relatos.

Choque da cidade vazia

Gabriela Tzzaddi, taróloga em Florianópolis

“Em janeiro de 2020 tinha acabado de investir na reforma do meu consultório e loja no bairro Trindade, em Florianópolis. Ia tudo muito bem até março, quando foi decretado o lockdown. O primeiro choque foi ver a cidade vazia como nunca tinha visto.

A foto foi tirada na praia dos Ingleses, onde Gabriella mora, em março de 2020. O choque veio quando ela viu as praias e a cidade vazia – Foto: Gabriela Tzzaddi/Arquivo Pessoal/NDA foto foi tirada na praia dos Ingleses, onde Gabriella mora, em março de 2020. O choque veio quando ela viu as praias e a cidade vazia – Foto: Gabriela Tzzaddi/Arquivo Pessoal/ND

Passei esse período em casa com meu filho, que é paraplégico e precisa de cuidados diários. Mudei o método e a forma de trabalhar com os clientes visando não só previsões de futuro ou adivinhação, mas com foco no apoio comportamental juntamente com o equilíbrio espiritual.

À primeira vista, parecia um tempo para reflexão, um pequeno contratempo. A ficha começou a cair, vi que o tempo estava demorando a passar e que a situação não era momentânea. Acredito que o mundo não voltará a ser o mesmo, mas podemos contribuir para o melhor”.

Clima de esperança

Maria Clara Flores, estudante da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

“No começo não caiu a ficha. Me impactou terem decretado estado de pandemia duas semanas antes do meu aniversário, tudo que planejei não deu para fazer. Minha festa acabou sendo uma videochamada, numa época que todo mundo tinha esperança que ia melhorar logo.

Centro de Florianópolis, 29 de março de 2020. – Foto: Anderson Coelho/NDCentro de Florianópolis, 29 de março de 2020. – Foto: Anderson Coelho/ND

Eu não saía de casa para nada, minha mãe trazia as compras. A primeira vez que saí, fui ao Centro de Florianópolis resolver algumas coisas. Passei numa loja e vi uma promoção absurda, duas caixas de desodorante roll on por R$ 4. Não saía produto, não tinha ninguém comprando.

Foi quando percebi que estava todo mundo em casa e que tinha acontecido algo que nunca tinha imaginado que aconteceria com a gente”.

Previsões da ciência

Cíntia Vaz Aydos, fisioterapeuta em Florianópolis

“Eu tinha uma clínica em Florianópolis. Todos os pacientes pararam tratamento. Ficou impossível administrar a clínica e fechei no final de abril. Hoje atendo apenas seis horas por semana os pacientes que não pararam o tratamento. Apenas se adaptaram ao online. 

Na época li uma previsão que calculava cerca de 300 mil mortos, se tivesse lockdown ou não. Quando li este texto. sabia que ia ser grave. Ainda sinto muito medo, principalmente de pegar e contaminar meu irmão – ele é do grupo de risco.

Após fechar a clínica onde atuava, Cintia ficou isolada com o irmão. Esta é uma das fotos favoritas daquela tempo – Foto: Cíntia Vaz Aydos/Arquivo Pessoal/NDApós fechar a clínica onde atuava, Cintia ficou isolada com o irmão. Esta é uma das fotos favoritas daquela tempo – Foto: Cíntia Vaz Aydos/Arquivo Pessoal/ND

Ainda em março de 2020, comecei a estudar sobre a pneumonia que a Covid-19 causa, do tipo intersticial. Me informei para trabalhar na prevenção com meus pacientes. Como tinha pacientes que eram médicos, enfermeiras e técnicos de enfermagem, conversávamos sobre os sintomas.

No decorrer do tempo fui entendendo a dimensão que poderia se espalhar e colapsar o sistema de saúde. Eu imagino que a pandemia vai levar anos pra ser controlada. Como é um vírus com mutação rápida, sempre estaremos em risco, até uma conscientização mundial”.

Tarde de luto

Elvis Sikora, estudante da UFSC, em Florianópolis

“Eu estava tomando tereré. Vi uma notícia de alguém preocupado com a possibilidade de vivermos uma pandemia. O pesquisador citava estudos de epidemiologistas de anos atrás, sobre possíveis características de um vírus que poderia colocar em risco a humanidade.

Parecia plausível a argumentação, mas argumentação plausível sempre tem muito. Se eu for me desesperar por tudo, não tenho como viver meu dia a dia. Fui tocando a minha vida, mas lembro que, pouco a pouco, foi ficando mais claro que o risco era real. As ruas estavam ficando vazias.

Cheguei a escrever um texto para amigos com previsões bem catastróficas, mas que não se cumpriram. Quando as atividades pararam, tive uma tarde de luto. Senti que mudou tudo. Comecei a planejar como lidar com o imprevisto e a incerto, a me perguntar se teriam suplementos.”

Tópicos relacionados