Na pandemia, os ricos são os que menos se isolam em Santa Catarina, segundo levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os números, referentes à última atualização da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Covid-19, de novembro de 2020, chamam a atenção. Isso porque, em contrapartida, a camada mais pobre é a que representa a maioria das mortes pelo novo coronavírus no Estado.
O embasamento vem apoiado em outros dados. Uma lista da Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica) divulgada em maio deste ano, evidenciou a tendência ao elencar as vítimas segundo suas ocupações no mercado de trabalho catarinense.
De acordo com o infectologista Martoni Moura e Silva, a classe mais alta, em geral, procurou manter sua vida social ativa – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Arquivo/NDSegundo a Pnad Covid-19, realizada entre julho e novembro de 2020, apenas 6,77% das pessoas mais ricas do Estado – que recebem a partir de quatro salários mínimos – fizeram restrições sociais rigorosas durante novembro. O maior número, de 12,51%, foi registrado entre o grupo que recebe de meio a menos de um salário mínimo.
A pesquisa dividiu a população catarinense em cinco categorias, com base na renda per capita recebida:
- Menos de meio salário mínimo;
- Meio a menos de um salário mínimo;
- Um a menos de dois salários mínimos;
- Dois a menos de quatro salários mínimos;
- Quatro ou mais salários mínimos.
O estudo foi além e mostrou que os mais ricos também lideram a parcela social que não fez nenhum tipo de restrição sanitária durante o mês analisado.
Restrições rigorosas
Os trabalhadores mais pobres, que ganham entre meio e um salário mínimo, foram os que mais declararam seguir à risca o isolamento social no mês de novembro. Ao todo, 12,51% deles.
Muitos trabalhadores que representam a camada produtiva no Estado não tiveram a oportunidade de se isolar – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDPara o professor Fabrício Augusto Menegon, especialista em Saúde Pública, é necessário problematizar os dados. “Provavelmente, eles se isolaram por falta de trabalho”, enfatizou. “O país está vivendo uma recessão grande”.
Ele acredita que “se pudessem, essas pessoas estariam saindo para o trabalho”. Uma das justificativas seria de que o auxílio emergencial não cobriu parte considerável das pessoas em situação de vulnerabilidade. Elas ficaram, então, desassistidas.
“As regras eram burocratizadas. A população mais pobre não detinha os meios necessários para acessar o auxílio, como celular com conexão à internet”, diz. “A reflexão principal é que elas estavam em isolamento porque não tinham oportunidade”.
Segundo o médico infectologista Martoni Moura e Silva, os números identificados também revelam um certo padrão de relações sociais. “Em geral, os ricos se isolaram viajando mais. Procuraram manter sua vida social ativa, no sentido de frequentar restaurantes e até festas”, comenta.
Esse tipo de evento, porém, seria o mais suscetível à doença: “O risco maior de contaminação é justamente no contato mais íntimo, em festas, onde estão desprotegidos”, complementou.
Os dados da Pnad comprovam a relação: proporcionalmente, os mais ricos foram os que mais fizeram testes para confirmar infecção por Covid-19 em novembro. Ao todo, foram 5,61% do grupo. Veja os índices no período:
Relação de testes de Covid-19, em novembro, por renda per capita – Foto: IBGE/Divulgação/NDRegressão
Os dados de isolamento do IBGE evidenciam uma mudança de comportamento da camada mais rica no decorrer da crise sanitária.
Em agosto, cinco meses após o início da pandemia, por exemplo, 13,72% faziam restrições rigorosas – mais que o dobro do registrado em novembro. “De março a outubro, a gente teve certa taxa de isolamento social”, contextualiza o professor.
“Existem evidências que mostram que pessoas de camadas mais elevadas têm um comportamento mais negacionista em relação à pandemia. Por conta disso, elas apresentam também um comportamento de autoproteção mais relaxado”.
Menegon justifica o argumento com base em um estudo do pesquisador da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Sandro Cabral, em co-autoria com a Universidade de Toronto e o Ibmec. A pesquisa relaciona, entre outras questões, isolamento social com renda das famílias.
Mais pobres morrem mais
O médico Martoni Moura e Silva ressalta que o vírus não escolhe classe social. No entanto, dados oficiais disponibilizados pela Dive mostram que existe uma tendência. Um relatório divulgado neste mês indica que pessoas com menos poder aquisitivo morrem mais por Covid-19 em Santa Catarina.
Em Santa Catarina, os índices de isolamento social mudam conforme a renda per capita – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDA lista revela que comerciantes, donas de casa e trabalhadores de indústrias são as principais vítimas entre a população economicamente ativa no Estado. Confira no levantamento divulgado pelo Governo do Estado:
Morte por Covid-19 conforme ocupações em SC – Foto: Governo de SC/DivulgaçãoOs dados do IBGE indicam, no entanto, que a população de baixa renda se isolou mais. “As mortes podem estar associadas aos ricos terem acesso à Saúde de maneira eficiente, de poder ter mais acesso à rede privada, que veio a colapsar um pouco depois”, explica o infectologista.
O professor Fabrício Augusto Menegon completa que a maior parte dos trabalhadores que compõem a massa produtiva, e que não perderam os empregos, não puderam trabalhar de casa.
“Muitos dos mais pobres, que compreendem a maior parte da classe trabalhadora, não tiveram a oportunidade de se isolar. Não é de se estranhar que a classe mais baixa tenha morrido mais”, afirma.
O grupo que recebe 1 a menos de 2 salários mínimos compreende a maior parte dos trabalhores de Santa Catarina – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Secom/Arquivo/NDA classe a que o professor se refere é a que recebe de um a menos de dois salários mínimos por mês. O grupo compreende 41,6% da população de todo o Estado, segundo o IBGE.
À época, o superintendente de Vigilância em Saúde de Santa Catarina, Eduardo Macário, também defendeu que a discrepância ocorre porque são essas áreas onde há mais empregos.
Mortes no Brasil
Números nacionais reforçam a ideia de que há mais mortes nas classes baixas. Segundo os trabalhos desenvolvidos pelo Epicovid19-BR (Estudo de Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil), da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), “os 20% mais pobres apresentaram o dobro do risco de infecção em comparação aos 20% mais ricos.
As conclusões da pesquisa foram publicadas na revista científica The Lancet, em setembro de 2020. “Mostramos que os pobres e os indígenas são os grupos mais vulneráveis, que requerem ainda mais atenção de políticas de saúde pública”, disse Pedro Hallal, epidemiologista e coordenador geral do estudo, à época.
Famílias vulneráveis e casas cheias
A partir de critérios específicos, o IBGE elencou um quantitativo de famílias consideradas mais vulneráveis à infecção por Covid-19. No painel, o instituto mostra que, quanto mais pessoas vivendo juntas, maiores as chances de contrair a doença.
Só em Florianópolis, há 11.175 residências com 3 ou mais moradores por dormitórios, por exemplo. Essa condição as coloca em situação de risco. O número corresponde a 2,65% das casas da Capital.
Em Florianópolis, há 11.175 residências com 3 ou mais moradores por dormitórios – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDNos “aglomerados subnormais”, como são chamados pelo IBGE, costumam residir populações com condições socioeconômicas, de saneamento e de moradia mais precárias. A definição é do próprio instituto.
“As camadas mais baixas dispõem de moradias muito precárias, sem condições que permitem manter um número menor de pessoas por cômodo”, afirma Fabrício Augusto Menegon. Ele completa que, assim, “a probabilidade de contágio aumenta”.