“Pode ser que não tenhamos local para enterrar os corpos”, diz epidemiologista sobre SC

SC vive o pior momento da pandemia com maior número de casos per capita na primeira semana de março; sistema de saúde entra em colapso, ao mesmo tempo que o Brasil registra recorde de mortes em 24h

Eduardo Vargas Florianópolis

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“Sem medidas enérgicas não temos como ter nenhum retorno à normalidade, nem ao crescimento econômico. Os hospitais estão lotando, as pessoas estão morrendo na porta do hospitais, morrendo em casa. Pode ser que não tenhamos local para enterrar os corpos”.

As palavras estarrecedoras são da doutora em Saúde Pública e Epidemiologia pela Fundação Oswaldo Cruz, Eleonora D’Orsi, que também leciona na UFSC.

Diante do colapso na saúde provocado pelo avanço da pandemia de Covid-19 no Estado, a pesquisadora ressalta que, com as medidas atuais tomadas em solo catarinense, não tão cedo haverá perspectiva de melhora na crise que se abateu em Santa Catarina.

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Durante a transição de fevereiro para março, Santa Catarina tem vivido o pior momento da pandemia, com 48 dos 55 hospitais totalmente lotados 34 mil pacientes ativos, ambos denotando um pico nos dados.

O sistema público de saúde, contudo, encontra-se em colapso, já que os números de lotação das UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) devem ser “virtualmente maiores”, segundo adendo aos dados feito pela própria secretaria de saúde.

Essa situação, já vista em outros estados e capitais, como Manaus, não trata-se de uma tendência, segundo a cientista, mas de um fruto das decisões do poder público.

sc; casos; mortes; mortos; covid-19; pandemia; enterrarBrasil teve recorde de mortes diárias pela Covid-19 nesta terça (2), com 1,6 mil em 24h  – Foto: Arvito Concatto/NDTV

O que ocorre atualmente é ausência de medidas eficazes de combate à epidemia. Sem dúvidas essas tendências ocorrem, mas a situação atual é consequência à falta de medidas enérgicas. A principal é o lockdown, junto com a aceleração da cobertura vacinal. A vacinação está indo muito lentamente no Estado”, analisa.

A pesquisadora sugere que o lockdown deve ser mantido até que os leitos de UTI desafoguem em, ao menos, 85% em números globais, medida semelhante à da carta feita pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde).

A situação é tão crítica que diversos pacientes da região Oeste, que entrou em colapso primeiro do que as demais, estão sendo transferido para o Espírito Santo, devido à indisponibilidade de vagas nos hospitais. Somente 16 leitos foram oferecidos no Estado.

São mais de 200 pessoas na fila dos hospitais, segundo o procurador-geral do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), Fernando Comin.

“Santa Catarina tem 261 pessoas na fila para um leito de UTI e muitas morrerão na fila de espera. Elas já estão morrendo. Na quarta-feira (24) da semana passada, eram 30 pessoas na fila. Na segunda, dia 1º, 261″, lembra.

O MPSC, junto com outras autoridades, chegou a solicitar medidas mais restritivas por parte do Governo do Estado, recomendando um lockdown de 14 dias, ao passo que a medida atual, decretada pelo governador Carlos Moisés (PSL) é de uma restrição semelhante, mas que vigora somente aos fins de semana.

“Claramente o lockdown aos fins de semana não é eficiente. Isso vai se refletir nos números”, diz D’orsi.

Para o chefe do Departamento de Saúde Pública da UFSC, Fabrício Augusto Menegon, as autoridades “recuaram” frente a uma proposta do governo de monitorar os casos de “fura-fila” na vacinação.

“Os órgãos que questionaram, recuaram e se contentaram. Isso é uma distorção. Temos menos de 5% de vacinados alvo, e fura-fila é menos de 1% dentre esses 5%. O MPSC não deve se preocupar com fura-fila. O foco é o enfrentamento. Passamos da exigência de lockdown para um site que monitora fura-fila. Esses órgãos deveriam manter o foco na exigência de medidas de enfrentamento mais severas e, em paralelo, se for o caso, questiona-se os secretários, aí investiga-se caso a caso”, argumenta.

Para o cientista, as medidas atuais também são insuficientes, e devem gerar problemas crônicas ainda nos próximos dias, sem previsão de atenuação.

“Aqui em SC não prevemos até quando isso vai durar. Temos uma conversa com o Governo e com a Secretaria [de Saúde] que é difícil, exceto pelos dados públicos. Mais do que isso não conseguimos saber. Há a necessidade para mudar drasticamente a estratégia de combate a pandemia”, afirma.

Além disso, ele cita que a corrida pela abertura de leitos que ocorre atualmente é tardia e ineficaz, já que restrições e testagem seriam mais importantes dentro de uma estratégia para conter a pandemia da Covid-19 no Estado.

“Os leitos são importantes, mas é uma parte da estratégia, não pode ser a estratégia toda. Isso é parte, é o final. A estratégia deve começar pela contenção, monitorar casos positivos, testar em massa, liberar resultado. Não dá pra esperar 10 ou 12 dias para liberar o teste. Não dá para conviver com esse cenário”, afirma.

O Governo do Estado e a Secretaria de Saúde foram questionados acerca das críticas feitas, mas não responderam até o fechamento desta reportagem.

Dados indicam SC como o pior Estado do Brasil na última semana

Segundo levantamento do jornal americano The New York Times, Santa Catarina é o pior Estado do país no número de casos a cada 100.000 habitantes durante esta semana. Foram 69 confirmados nesta proporção, considerando somente os sete dias. São Paulo, que lidera os números absolutos, tem 21 na escala.

Cerca de uma a cada 10 pessoas do Estado já foi contaminada desde o início da pandemia, número que só é mais crítico em Roraima que, no acumulado, mantém proporção de um contaminado a cada sete habitantes.

No fim de fevereiro, nacionalmente, foram mais de 60 mil casos confirmados por dia em mais de uma atualização epidemiológica.

Nesta terça-feira (2), o Brasil registrou dados que apontam o dia como o pior da pandemia: 10.646.926 casos da Covid-19 e 257.361 mortes. Ou seja, em somente 24h, foram 9.925 testes positivos e e 1.641 mortes em decorrência do vírus. Até então, na lacuna de um dia, o país nunca havia registrado tantas mortes.

Dados nacionais da Covid-19 até esta terça (2):

Total absoluto de casosCasos a cada 100 mil habitantesTotal absoluto de mortesMortesa cada 100 mil habitantesMédia de casos na última semanaNa proporção de 100 mil habitantesMédia de mortes na última semanaNa proporção de 100 mil habitantes
Santa Catarina675,5779,6107,4381064,8206964.30.91
Roraima82,12614,4591,100194330589.01.58
Rondônia149,5138,5552,8701649185321.31.22
Acre57,8946,7071,012117418486.30.73
Rio Grande do Sul643,6725,69512,4701105,3234792.90.82
Paraná650,2365,75211,6861034,7244275.70.67
Tocantins114,4677,3991,53299627416.70.43
Distrito Federal298,83610,1244,8651651,1523914.10.48
Mato Grosso250,4837,3245,7321681,2933824.60.72
Amazonas316,6687,82210,9382701,3583459.41.47
Paraíba222,2595,5774,5261141,2903221.00.53
Mato Grosso do Sul181,9816,6603,3301228583115.10.55
Espírito Santo327,4338,2916,4271631,2323118.40.47
Goiás396,3355,7668,5451242,1413135.30.51
Bahia686,0574,64011,914814,3683094.30.64
Minas Gerais883,1054,21018,598895,81828123.60.59
Rio Grande do Norte167,4294,8313,6081049542815.70.45
Amapá83,88510,2171,142139215262.40.30
Ceará427,1484,72111,2931252,3072545.30.50
Sergipe152,0036,7012,969131519237.90.35
São Paulo2,044,6994,50959,5461319,46021243.40.54
Piauí174,0085,3383,3521036121914.70.45
Pará365,4114,3148,6431021,3811645.90.54
Alagoas132,2453,9883,010915351610.00.30
Pernambuco300,1043,17011,0071161,2741320.60.22
Rio de Janeiro583,7953,41333,0931931,5619119.60.70
Maranhão219,6323,1305,07472489717.90.25