Pela primeira vez, o mapa de Santa Catarina está totalmente pintado de vermelho, indicando que todas as 16 regiões do Estado estão em nível gravíssimo de risco para a Covid-19.
SC fica em nível vermelho para Covid-19 às vésperas do Natal – Foto: Anderson Coelho/NDA situação de alerta, segundo a SES (Secretaria de Estado da Saúde), ocorre nos quatro indicadores, que são o evento sentinela (mortes e comportamento da pandemia), transmissibilidade, monitoramento e capacidade de atenção.
A atualização do mapa de risco foi divulgada nesta quarta-feira (23) pela secretaria, mesmo dia em que o governador Carlos Moisés (PSL) afirmou que irá recorrer da decisão da Justiça, que determinou que o governo do Estado suspenda a autorização de funcionamento com 100% de lotação dos hotéis e pousadas e a liberação de eventos, às vésperas das festas de fim de ano.
Seguir“Várias atividades que estão sendo liberadas são muito semelhantes a essas que nós ampliamos, portanto é com coerência que estamos tratando. No caso específico da ocupação de hotéis, a clandestinidade acaba sendo incentivada quando a gente restringe a taxa de ocupação”, argumenta o governador, referindo-se aos aluguéis feitos diretamente com o proprietário e que cresceram com as redes sociais e aplicativos.
Na última terça-feira (22), o TJSC (Tribunal de Santa Catarina) atendeu a ação cível pública do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) para determinar que o governo estadual reestabelecesse as medidas anteriores de restrição a algumas atividades econômicas.
Assim, o governo deve restringir a ocupação de hotéis e similares, a realização de eventos e o funcionamento de casas noturnas e afins, cinemas e teatros.
Segundo Carlos Moisés, o governo ampliou o atendimento nas UTIs (unidades de terapia intensiva) e a atenção do Estado está voltada aos vulneráveis.
Medidas contrariam Coes
De acordo com o juiz Jefferson Zanini, da 33ª Promotoria de Justiça da Capital, a ação foi ajuizada após seguidas medidas anunciadas pelo Estado que contrariam as recomendações do Coes (Centro de Operações e Emergências em Saúde), órgão central do Poder Executivo responsável pela coordenação técnica das ações necessárias ao enfrentamento ao estado de calamidade pública decorrente da pandemia.
O Coes emitiu uma nota à sociedade catarinense, na segunda-feira, quando o decreto com o afrouxamento das regras passou a valer, em que salientou que o momento não é o adequado para a liberação de atividades, porque o Estado tinha, naquele dia, 91% dos leitos de UTI ocupados.
“Não é momento para que as medidas sanitárias sejam relaxadas, possibilitando mais aglomeração do que até então era permitido, em uma decisão sem embasamento científico, em especial considerando que o período de festas e férias de verão que se avizinha já traz, por si, maior gravidade a este cenário”, reforça a nota.
Hotéis recorrem
As entidades que representam o setor hoteleiro também recorreram da liminar que suspendeu a autorização de 100% da lotação dos empreendimentos.
“Foi com tristeza que recebemos essa notícia (da liminar) contra o decreto do governador que beneficiava todo o setor, que após tanto tempo castigado, no fundo do poço, conta com a temporada para tentar recuperar tanto tempo perdido”, afirmou Osmar José Vailatti, diretor-presidente da ABIH-SC (Associação Brasileira da Indústria Hoteleira em Santa Catarina).
De acordo com Vailatti, a ABHI endossa a medida recursal do governador e aguarda que a liminar seja revista. “Se essa liminar prevalecer, muda o cenário de toda a rede hoteleira, mesmo com a atual baixa ocupação. Houve muitos cancelamentos nas últimas semanas em virtude do crescimento do número de casos de Covid”, lamenta.
Apesar dos cancelamentos, o empresário disse que o segmento aposta nas reservas do fim do ano, quando há o maior volume de ocupação.
“Mas se o decreto for realmente suspenso nem com isso poderemos contar”, lamentou. Para Vailatti, o setor do turismo vive um momento “de incerteza, de angústia que desestimula e prejudica” todo o segmento.
Adiamento de reservas
O presidente da ABHI-SC observa que o turismo vive um momento muito difícil, e mesmo Santa Catarina sendo um dos destinos mais desejados pelos brasileiros, as perspectivas não são animadoras. “O coronavírus abalou esse desejo de viajar. A pessoa até pensa, mas desiste quando sabe que houve aumento de casos”, reflete.
Osmar Vailatti explica que os hotéis, pousadas e afins têm suas próprias regras de cancelamento de reservas , mas que tem sido unânime a informação de que ultimamente tem ocorrido muitos adiamentos de reservas. Ao invés de o hóspede cancelar a estadia, ele prefere deixar o depósito que fez para a reserva para futuras diárias, na esperança de poder retomar a vida quando a pandemia passar.
Entidades empresariais pela flexibilização
As entidades empresariais de Santa Catarina, representadas pelo Cofem (Conselho das Federações Empresariais de Santa Catarina), emitiram nota no fim da tarde de quarta-feira, dando apoio integral às recentes medidas do governo de flexibilização do setor hoteleiro e de atividades ligadas ao turismo.
A nota destaca a importância de manutenção de atividades econômicas mínimas e lembra que há protocolos rigorosos aprovados pela Secretaria de Saúde que possibilitam a abertura das atividades econômicas relacionadas.
“Os protocolos de saúde e segurança são rígidos e estabelecidos a partir de critérios técnicos, sendo exigidos para todas as atividades de turismo e hospitalidade, propiciando maior segurança ao turista”, destaca, acrescentando que a retomada da atividade é fundamental para o desenvolvimento do Estado, inclusive durante a pandemia.
“Toda sociedade catarinense está engajada no combate à pandemia, sendo saúde e segurança fundamentais para o convívio sadio entre as pessoas, incluindo o pleno exercício da atividade empresarial, que possibilita a geração de emprego e renda, mesmo nesse difícil momento vivido por todos nós.”
Ocupação de UTIs no limite
A matriz de risco atualizada nesta quarta-feira pelo Coes apontou que todas as regiões catarinenses encontram-se em alerta máximo para a ocupação de leitos de UTI. Das 16 regiões, 14 estão no nível gravíssimo e duas (Extremo-Oeste e Xanxerê) estão em situação grave neste quesito.
Por causa dessa situação, há necessidade de cancelar cirurgias eletivas, colocar em funcionamento todos os leitos disponíveis e ampliar ações de identificação de manejo precoce de casos.
Também é necessário investir em restrição de contato entre as pessoas, para que haja redução da ocupação em médio prazo, segundo o documento.
A Grande Florianópolis, o Alto Vale e o Nordeste do Estado estão em nível gravíssimo para os quatro índices (evento sentinela, transmissibilidade, monitoramento e capacidade de atenção) da matriz de risco.
O aumento da transmissibilidade está em nível gravíssimo em mais da metade das regiões. No boletim anterior, apenas as regiões Nordeste e Meio-Oeste estavam nesta situação.
Aglomero sem fim
E com a correria dos últimos dias para as compras de Natal, estes índices ainda podem ficar piores. Basta dar uma passada pelo comércio para observar aglomero em vários estabelecimentos, onde até mesmo por falta de espaço os clientes e vendedores precisam ficar espremidos. Nos locais onde há espaço e filas, os próprios clientes, em sua maioria, ignoram o distanciamento de 1,5 metro.