SC intensifica campanha contra febre amarela e quer vacinar 95% da população

Morte de macaco e de humano sinalizam presença do vírus no Norte do Estado e acendem alerta no Estado

Andréa da Luz Florianópolis

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Santa Catarina está em alerta contra a febre amarela. Com duas mortes confirmadas este ano no Norte do Estado (uma pessoa em Joinville; e um macaco bugio em Garuva), mais um macaco encontrado no município de Morro da Fumaça, no Sul do Estado, cuja causa da morte está sob investigação, os holofotes recaem sobre a única forma de proteção contra a doença: a vacinação.

Vacina contra a febre amarela já está disponível em Florianópolis – Cristiano Andujar/PMF/ Divulgação/NDVacina contra a febre amarela já está disponível em Florianópolis – Cristiano Andujar/PMF/ Divulgação/ND

Segundo a diretora da Dive-SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina), Maria Teresa Agostini, o Ministério de Saúde já havia alertado o Estado de que a doença chegaria em algum momento. “Por isso, começamos a ampliar a vacinação em setembro do ano passado, cobrindo a região litorânea que ainda não estava prevista e as regiões Norte, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis e, em fevereiro deste ano, no Sul do Estado”, explica.

Devido às baixas coberturas vacinais, em 20 de março o estado deu início à campanha de imunização contra a doença que segue até 20 de abril, junto com os municípios, distribuindo 1.300.000 doses da medicação nas 17 regionais de saúde. “Nesse período, cada cidade tem a sua estratégia para abordar a população e oferecer as vacinas e muitas estão realizando o dia D contra a febre amarela e levando a campanha para escolas, praças, shoppings e outros locais públicos. O Estado entra com o fornecimento das doses e o apoio para os municípios”, afirma.

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Para a diretora da Dive-SC, a morte do homem e do macaco no Norte catarinense são um alerta. “Sabíamos que a doença ia chegar, só não sabíamos quando. Infelizmente, essa pessoa veio a óbito e isso ocorreu porque não havia sido vacinada. Então, é muito importante que as pessoas entendam que a única forma de se proteger é tomando a vacina”, diz.

As ações de intensificação já apresentam resultados. “No final de fevereiro tínhamos uma cobertura de 48%, e de março para cá, o número subiu para 61,47%. A meta é chegar a 95% da população imunizada”, aponta Maria Teresa.

Dia D na Capital

O município de Florianópolis deve aproveitar o dia D da campanha contra a gripe, no dia 4 de maio, para ofertar a vacina da febre amarela. As doses estão disponíveis nas unidades de saúde desde o dia 2 de janeiro de 2019, obedecendo a recomendação do Ministério da Saúde, para toda a população entre os nove meses até 59 anos de idade sem vacinação prévia.

Embora a região continue sem registro da doença, a medida tem como objetivo antecipar a proteção caso ocorra aumento na área de circulação do vírus. Segundo a assessoria da Secretaria de Saúde, foram aplicadas 34.131 doses contra a febre amarela em 2018 e 22 mil doses este ano.

Quem não pode se vacinar, por ser alérgico a ovo ou estar nos grupos impedidos de receber a medicação (como gestantes, portadores do HIV, pessoas com doenças autoimunes, pessoas em tratamento oncológico ou com imunossupressores e crianças com menos de nove meses de idade) deve usar repelentes, roupas compridas, mosqueteiros e telas. Idosos acima de 60 anos de idade devem procurar um médico antes de tomar a vacina para atestar boa condição de saúde.

A vacina imuniza por toda a vida, não importa em que época a pessoa tenha tomado. Caso tenha recebido uma dose fracionada, deve revacinar em intervalo não inferior a 30 dias. E caso não lembre se foi imunizada ou não, o conselho é procurar um posto de saúde e se vacinar.

Macacos, os primeiros a adoecer

Os macacos servem de alerta às autoridades que atuam no controle da doença, porque são os primeiros a adoecer, já que vivem nas mesmas áreas que os mosquitos silvestres transmissores, entre as copas das árvores.

Segundo a bióloga e coordenadora do Programa de Vigilância da Febre Amarela em Santa Catarina, Renata Ríspoli Gatti, somente em 2019 foram registrados 79 macacos mortos, mas apenas um – da espécie bugio – teve a confirmação de febre amarela, registrado na cidade de Garuva, no Norte do Estado. Porém, desde julho do ano passado até esta segunda (8 de abril), foram contabilizadas 127 mortes de macacos, a maioria da espécie bugio, mas também muitos saguis e alguns macacos-prego.

Macaco teve amostras retiradas para investigar causa da morte – Gabriela Recco/Morro da Fumaça NotíciasMacaco teve amostras retiradas para investigar causa da morte – Gabriela Recco/Morro da Fumaça Notícias

“O caso confirmado em Garuva indica que há circulação do vírus ali, então a cidade é considerada área infectada e a população deve se vacinar o quanto antes. Pessoas que residem em municípios próximos como Jaraguá do Sul, Blumenau e Rio do Sul devem informar a vigilância epidemiológica municipal caso encontrem animais mortos e procurar postos para a vacinação”, diz a coordenadora.

A bióloga afirma que a morte de primatas é um indício da circulação do vírus em determinada região e que as pessoas não devem, em hipótese alguma, matar esses animais. “Ele não é transmissor, enquanto tem macaco conseguimos saber onde o vírus está. Sem eles, só identificamos a presença do vírus quando começam a surgir pessoas com a doença”, explica.

Como a doença se espalha

O vírus da febre amarela é transmitido por mosquitos silvestres dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que vivem em ambiente de mata e próximo a bordas de matas. Ao se alimentarem do sangue de um macaco infectado, podem passar o vírus para outros macacos. Assim, humanos que trabalham ou moram em áreas rurais e de mata densa podem ser picados por mosquitos infectados, contraindo a febre amarela.

“Portanto, áreas de parques, casas em terrenos que vão adentrando morros e áreas periurbanas próximas à mata são consideradas de risco. O mosquito vai de uma região de mata a outra e se no meio de caminho houver uma concentração urbana, a população está em risco, por isso a única forma de se proteger é por meio da vacinação”, diz Renata.

O ciclo urbano inicia quando uma pessoa infectada introduz o vírus em zonas com população densa, com muitos mosquitos, e onde a maioria da população não possui imunidade contra o vírus por não serem vacinadas. Nesse caso, o vetor é o Aedes aegypti (o mesmo mosquito que transmite dengue, chikungunya e zika) que se alimenta do sangue de uma pessoa infectada, contraindo o vírus. Após, pica uma pessoa não imunizada, transmitindo a doença para ela.

Os humanos e os macacos são hospedeiros do vírus da febre amarela, mas não há transmissão direta entre macaco-macaco, macaco-humano e humano-humano.

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