O novo dilúvio

Até parece que o mundo foi amaldiçoado com um novo surto das "sete pragas". Chove água e vírus

Receba as principais notícias no WhatsApp

A chuva é um elemento constante na nova atmosfera. Revogaram-se todas as leis antigas da meteorologia Mané: “Lestada, mar de rebojo. Três dias de chuva e nojo”. Agora a chuva não é mais a exceção. É o novo normal. Quando o sol reaparece, como “agorinha”, é só por alguns minutos.

Nuvens de uma lestada estão sempre improvisando. Quando se pensa que vão embora, que já despejaram todo o mar do oceano em nossa cabeça – Foto: RecordTV/Divulgação/NDNuvens de uma lestada estão sempre improvisando. Quando se pensa que vão embora, que já despejaram todo o mar do oceano em nossa cabeça – Foto: RecordTV/Divulgação/ND

Daqui a pouco, “elas” voltam: a chuva e a pandemia. Abre-se o céu com um inacreditável volume de chuva. Até parece que o mundo foi amaldiçoado com um novo surto das “sete pragas”. Chove água e vírus.

A velha lenda babilônica adotada pela Bíblia, durou apenas 40 dias e 40 noites – o Dilúvio – enquanto a humanidade morria afogada. Este outro Dilúvio-Lestada, que tem desabado sobre Santa Catarina e sobre a Ilha,
já dura mais de 60 dias e – depois de um dia ou dois de trégua, sempre recomeça na semana seguinte.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Talvez um dilúvio ilhéu não tenha a produção cinematográfica de “Os Dez Mandamentos”, ou o orçamento de um Cecil B. De Mille, o magnata de Hollywood. Em compensação, nunca haverá um filme tão “real”.

Duvido também que a grande inundação narrada pelo livro do Gênesis – e magnificamente revivida na novela da Record – tenha se originado de uma lestada só, como esta que açoita o país há tantos dias e tantos
finais de semana. Para que acontecesse o bíblico transbordamento das
águas foram necessários tão somente a metade desses 60 dias. Quer dizer: ou a humanidade “melhorou” a drenagem em sua volta – ou já se acostumou a jogar debaixo de chuva, como o Avaí…

Trata-se de uma lestada tão traiçoeira que haveria de enganar o próprio Noé. Sessenta vezes ele teria pensado em aterrissar com sua arca no alto do Morro da Lagoa, imaginando que a estiada era pra valer: – Olha só mulher. Vamos descer com a nossa bicharada! Está dando uma trégua… Sessenta vezes o Dilúvio recomeçaria.

Os bichos teriam que correr, de novo, para o abrigo da grande banheira flutuante, aos pares, os animais selvagens, os domésticos, os répteis, os voláteis, os bípedes, os quadrúpedes e todas as suas espécies e derivações – como os ratinhos especializados em assaltar o erário.

As nuvens de uma lestada estão sempre improvisando. Quando se pensa que vão embora, que já despejaram todo o mar do oceano em nossa cabeça, ei-las de volta para uma enxurrada ainda mais violenta.

O manezinho até já definiu, com a genial simplicidade de sua sabedoria, essa crosta ao mesmo tempo móvel e inamovível de tantas nuvens carrancudas, pairando há 60 dias sobre nossas cabeças:- É um “carnegão” que o Tinhoso coça e não deixa formá a casquinha. Sangra
“deréto” e fica pingando toda vida, toda vida…

Uma nova narrativa terá que ser inventada para essa nova epopéia aquática. A da Bíblia já está ultrapassada. Talvez dela se aproveite apenas as “idades” atribuídas ao povo da Arca, gente curtida e longeva. A começar pela descendência de Noé. Ele era filho de Lamec, que viveu 782 anos. Mas Noé teve a quem sair. Seu avô viveu até a idade de 969 anos. Chamava-se Matusalém. O próprio Noé era um prodígio. Com a idade de 300 anos gerou Sem, Cam e Jafet. Construiu a Arca com a idade de um broto: 600 anos. E só foi morrer aos 950. Pelo tempo que esse Dilúvio brasileiro está durando, daqui a uns 999 anos ele passa.