Situação de pré-colapso em hospitais de Florianópolis acende alerta sobre ações do Estado

Nesta segunda-feira (6), após notas oficiais emitidas por hospitais e reportagem do Grupo ND, a Secretaria de Estado da Saúde anunciou a entrega de 15 respiradores e habilitação de leitos

Redação ND Florianópolis

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A situação de pré-colapso dos hospitais de Florianópolis acendeu o alerta no governo do Estado de Santa Catarina. Nesta segunda-feira (6), após notas oficiais emitidas por hospitais e reportagem do Grupo ND, a SES (Secretaria de Estado da Saúde) anunciou a entrega de 15 respiradores para dois hospitais da Capital, além da habilitação de mais cinco leitos de UTI no Hospital Nereu Ramos.

Mas uma série de medidas que poderiam ter sido feitas antes de os hospitais chegarem à lotação máxima não se concretizaram nos últimos meses.

Após a polêmica tentativa de instalação de um hospital de campanha em Itajaí, o governo do Estado chegou a anunciar que iria construir dez hospitais e campanha espalhados por Santa Catarina, mas depois o Executivo desistiu da ideia.

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Referência para Covid-10, Hospital Florianópolis tem 93% dos leitos de UTI ocupados. Foto: Reprodução/Secom/NDReferência para Covid-10, Hospital Florianópolis tem 93% dos leitos de UTI ocupados. Foto: Reprodução/Secom/ND

Outra polêmica diz respeito aos respiradores contratados pelo Estado. A primeira tentativa de compra, de 200 aparelhos (que nunca chegaram) com a Veigamed, foi parar na Justiça.

Inclusive, com uma investigação de órgãos de controle em andamento e uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) aberta na Alesc, além da queda de quatro secretários de Estado. Depois, 500 respiradores foram contratados com a WEG, de Jaraguá do Sul.

Em meio às polêmicas compras do governo, há ainda a falta de reagentes necessários para o diagnósticos da Covid-19, que faz com que quase 5 mil testes ainda aguardem resultado no Estado. O sindicato dos trabalhadores da saúde relata ainda que faltam insumos e até mesmo EPIs (Equipamentos de Proteção Individual).

A entrega dos 15 respiradores para hospitais da Capital ontem faz parte de um lote de 27 equipamentos que integravam o lote de 500 adquiridos junto à empresa WEG.

Nove dos ventiladores foram encaminhados para o Hospital Florianópolis, referência para atendimento de pacientes de Covid-19, e outro seis para o Hospital Nereu Ramos, ambos na Capital, enquanto outros 12 foram destinados ao Hospital Regional de São José, também na Grande Florianópolis.

Segundo a SES, os equipamentos entregues seguem critérios de distribuição que avaliam o risco epidemiológico de cada região.

A última classificação de risco potencial feita pela SES coloca a região da Grande Florianópolis em situação grave, apenas atrás da região da Foz do Itajaí, em situação gravíssima.

Mas a classificação feita em 30 de junho será atualizada nesta quarta-feira (8) com nova avaliação do risco epidemiológico.

Os dados do Estado e do município sobre a Capital são divergentes. Enquanto a SES coloca Florianópolis como a sexta cidade com maior número de pacientes de Covid-19, com 1.731, e 20 óbitos, o Covidômetro da prefeitura aponta para 2.236 casos confirmados, além de 10.108 casos suspeitos e 23 óbitos.

Maioria dos internados é de fora da Capital

Os cinco leitos do Nereu Ramos fazem parte de um total de 87 leitos de UTI, que incluem outros 12 hospitais do Estado, como o próprio Hospital Regional de São José, que teve outros 10 novos leitos de UTI habilitados.

De acordo com o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro (DEM), o cenário atual, de pré-colapso do sistema de saúde, foi projetado há duas semanas, quando anunciou novas restrições.

Porém, as medidas duraram apenas seis dias depois que não tiveram o impacto esperado porque não foram acompanhadas pelas cidades vizinhas.

“Nós trabalhamos com projeções que determinavam um aumento do número de novos casos dia e de internações, o que acabou acontecendo. Agora, a gente precisa pedir mais uma vez o apoio da população para ficar em casa”, disse Gean.

A falta de integração regional faz sentido ao verificar que dos mais de 80 pacientes internados em UTI de hospitais da Capital, apenas 16 são moradores de Florianópolis.

Para Gean, uma das soluções é atuar de forma preventiva, com adoção de medidas restritivas regionalizadas. Uma reunião entre prefeitura e governo do Estado foi marcada para amanhã.

“É necessário ter uma ação conjunta. O Estado está vendo que a situação está crescendo e deveria tomar uma atitude”, relata Gean.

Ações polêmicas

Hospitais de campanha

No dia 8 de abril, o governo de Santa Catarina anunciou a construção do que seria o primeiro hospital de campanha do Estado.

A estrutura seria instalada em Itajaí pelo valor de R$ 76,9 milhões, com 100 leitos de UTI e seis meses de uso. O valor chamou a atenção, pois era sete vezes maior do que os R$ 10 milhões investidos pelo governo federal na construção de uma unidade em Goiás.

A justificativa do governo catarinense era de que além da infraestrutura seriam comprados equipamentos para o local. Além da polêmica em torno do valor, o contrato com a empresa paulista Hospital Psiquiátrico Espírita Mahatma Gandhi foi suspenso por duas vezes.

Após o TCE/SC (Tribunal de Contas do Estado) e o MP/SC (Ministério Público) negarem que tenham participado de reuniões sobre o hospital, o contrato foi cancelado. O governo chegou a anunciar que lançaria um novo edital para a construção de dez hospitais de campanha pelo Estado, mas voltou atrás.

Compra de 200 respiradores

Os ventiladores mecânicos comprados com dispensa de licitação pelo governo do estado a empresa Veigamed foram alvo de investigação.

Uma força-tarefa, onde atuam em conjunto a Polícia Civil, o Ministério Público e Tribunal de Contas do Estado, investiga fraudes nesse processo de aquisição por parte da SES (Secretaria de Estado da Saúde).

Até o momento, foram presos preventivamente o ex-secretário da Casa Civil Douglas Borba, o advogado Leandro Barros, o vereador de São João do Miriti Davi Perini Vermelho e mais quatro pessoas ligadas a empresa Veigamed. Uma CPI instaurada na Alesc também investiga o caso. 

Regionalização das ações

Após uma série de portarias com medidas estaduais de restrição e combate ao coronavírus, o governo decidiu regionalizar as ações.

Assim, cada prefeitura passou a decidir o que seria essencial para seu município. Com a decisão houve casos como na Grande Florianópolis de retorno do transporte coletivo em diversas cidades, menos na Capital.

Ônibus que normalmente teriam como destino final o Ticen (Terminal de Integração do Centro), tiveram suas rotas modificadas para obedecer a legislação da prefeitura de Florianópolis que proibia o transporte intermunicipal.

Falta de insumos no Lacen

Em 11 de junho houve a falta de reagentes no Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública). Com a falta do insumo, fundamental para o diagnóstico da Covid-19, mais de 1 mil testes ficaram represados no laboratório.

Nesta segunda-feira (6), segundo dados da SES, 4.804 aguardam resultado. Segundo o SindSaúde, sindicato dos trabalhadores da área da saúde no Estado, há relatos de falta de insumos e até mesmo de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) no laboratório.

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