“Sufocante”: os relatos de quem está na linha de frente do combate à Covid-19 em SC

23/01/2021 às 07h30

Após dez meses do primeiro registro de circulação do coronavírus no Estado, profissionais de saúde expõem a dura rotina, as angústias e os desafios frente à doença

Juliane Guerreiro Joinville

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“Todo dia é uma bomba diferente. Quando a gente chega em casa e pensa em tudo, desmorona”. O breve e forte relato é de uma enfermeira que atua na linha de frente do combate à Covid-19 no Norte de Santa Catarina.

O desabafo é comum a muitos profissionais da saúde que lutam diariamente contra a doença. Desde março de 2020, quando a pandemia se instalou no Estado, a batalha contra o vírus faz parte do dia a dia de enfermeiros, técnicos em enfermagem, médicos e diversos outros profissionais que trabalham em hospitais.

Mas a luta não é só contra um vírus que já deixou mais de 200 mil mortos no Brasil. É também interna, contra a exaustão emocional, física e psíquica que atinge categorias inteiras de trabalhadores dedicados a salvar vidas diante de uma ameaça invisível e poderosa.

Profissionais de saúde estão há dez meses no combate à pandemia – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Governo de SC/Divulgação/NDProfissionais de saúde estão há dez meses no combate à pandemia – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Governo de SC/Divulgação/ND

Os depoimentos dados pelos profissionais de saúde ao ND+ revelam a dura rotina, a angústia e os desafios de quem convive diariamente com o coronavírus. Mas também retratam a esperança e a empatia que ocupam espaço mesmo em um cenário tão difícil.

Como lidar com algo que não se aprendeu na faculdade

Os vários anos nas faculdades de Enfermagem e Medicina não preparam os profissionais para lidar com algo do tamanho de uma pandemia. As técnicas e procedimentos podem até ser conhecidos, mas a mudança na rotina e o abalo emocional que uma coisa como essa causa não são facilmente previstos nas fileiras acadêmicas.

O primeiro passo, ainda no início da pandemia no Brasil, foi planejar todas as ações em cada unidade de atendimento. “Ninguém nunca tinha enfrentado uma pandemia e rapidamente tivemos que criar estratégias de distanciamento dos pacientes e separação dos setores”, conta Waldinei Simões Pinto, enfermeiro de 53 anos que atua em um hospital privado de Joinville. Com as estruturas preparadas, a próxima etapa, que ainda persiste, é lidar com os demais desafios da doença.

A enfermeira Priscila Oliveira Batista Santos, 39 anos, ficou assustada com a rapidez da ação do vírus ao atender o primeiro paciente a morrer por causa da Covid-19 na maior cidade do Estado.

“Ele chegou bem, falando que estava assustado porque tinha viajado e estava com falta de ar. O protocolo era fazer o exame e em quatro horas ele foi para o isolamento. Na madrugada, teve uma piora progressiva: tinha apenas 20% do pulmão tomado quando chegou e de manhã já estava com 60%. Foi para a UTI, ficou intubado e em cinco dias faleceu”, relembra Priscila. O primeiro contato com uma morte pela Covid-19 surpreendeu a enfermeira.

“Quando eu conversei com ele na UTI, ele olhava para mim assustado e dizia ‘será que eu vou sair?’. Ele tentava respirar e não conseguia, dizia que estava se afogando. Foi um paciente que chegou conversando comigo”, ressalta.

“Eu tenho desde pacientes que nunca tiveram nenhuma comorbidade até hipertensos, diabéticos e os dois tipos estão morrendo. É uma doença que afeta quem é novo e quem é velho, quem é rico e quem é pobre, ela não escolhe”, diz Priscila.

Doença pode trazer agravamento rápido no estado de saúde dos pacientes – Foto: PixabayDoença pode trazer agravamento rápido no estado de saúde dos pacientes – Foto: Pixabay

Ela conta que, por vezes, os pacientes esperam muito tempo antes de procurar por ajuda e, quando chegam, já precisam de respirador ou intubação.

É exaustivo ficar o tempo todo tentando ser uma pessoa positiva enquanto várias coisas ao seu redor são ruins. Chega uma hora que é desesperador, que literalmente não há o que fazer. É olhar para o paciente e não poder dizer que ele vai melhorar. É sufocante, você vai para casa chorando”, desabafa a profissional.

Além da intensidade dos casos, os profissionais também têm que lidar com espaços lotados, como conta uma enfermeira que trabalha no Centro de Triagem de São Francisco do Sul. “A gente chegou a fazer 130 atendimentos por dia e isso não é pouco para uma cidade com 50 mil habitantes”, fala.

Outra profissional que trabalha no único hospital de São Francisco do Sul relata que o aumento no número de casos acaba impactando na capacidade de atendimento. “Um paciente já chegou a ficar quatro dias intubado bloqueando a emergência esperando uma transferência. Eu já cheguei a bloquear ambulância na porta porque não tinha como colocar para dentro. A gente arruma leito de onde não tem”, diz ela.

Os impactos físicos e emocionais da pandemia

A rotina agitada, ainda mais quando algum profissional é infectado e precisa ser substituído, gera ainda mais exaustão. “Às vezes, a gente faz seis plantões seguidos porque tem muito profissional afastado. Tem dias que a gente almoça picado: come um pouco, atende e volta para comer o resto”, conta a enfermeira de um Centro de Triagem.

Já vi médico se debruçar na mesa e dizer que não está mais conseguindo atender. Às vezes, a gente é mal tratado pela demora no atendimento porque as pessoas acham que a culpa é nossa. Estamos com marcas de máscara, minha orelha está machucada, meu cabelo está caindo porque estou de toca há meses”, fala.

Segundo Priscila, alguns colegas chegaram a ter depressão neste período. “Principalmente porque alguém da família pegou e não tinha com quem conversar, por causa da preocupação. Algumas pessoas até saíram de casa para ficar em hotéis e evitar passar para a família”, diz.

O medo de levar o coronavírus para casa

Chega no hospital: coloca a toca. A máscara. O avental. As luvas. A face shield

Vai para casa: deixa o sapato na porta. Direto para o banho. Lava as roupas separadamente. 

Estas são apenas algumas das várias rotinas de cuidado que os profissionais de saúde têm todos os dias para evitar a contaminação pelo coronavírus.

Porém, nem todo cuidado é suficiente para que o medo de levar a doença para quem se ama seja apaziguado. Além de todo o estresse de atuar em um cenário pandêmico, quem está na linha de frente também se preocupa com quem está em casa.

Nem toda a rotina de cuidados dispensa o medo de passar o vírus para quem está em casa – Foto: PixabayNem toda a rotina de cuidados dispensa o medo de passar o vírus para quem está em casa – Foto: Pixabay

“A gente se sente muito culpado em trazer o vírus pra casa, por mais que tenha todo o cuidado de se paramentar, tomar banho no banheiro de fora, lavar roupa separado. A gente sabe que qualquer deslize pode trazer o vírus”, diz uma enfermeira.

Ela conta que já se contaminou e que o filho de quatro anos e o marido acabaram contraindo a doença também. “Existe esse cuidado de estar longe da família. Não permito que os meus amigos venham à minha casa, não vou à igreja porque meu pastor é idoso. Existe um medo de contaminar as pessoas”, destaca.

O mesmo receio também é vivido pela enfermeira Priscila. “O maior medo que eu tenho é de levar para alguém que eu amo. Eu moro com a minha mãe, como faço para chegar em casa e não passar nada para ela? Essa é a minha maior preocupação”, conta.

A importância de se colocar no lugar do outro

Enquanto os profissionais de saúde correm para atender seus pacientes, do lado de fora, parentes e amigos aguardam notícias sobre seus amores. E é aí que entra a importância da empatia. “Eu sempre ligo para a recepção, pego o telefone do familiar, ligo e mantenho ele informado”, conta Waldinei.

Uma enfermeira do hospital de São Francisco do Sul destaca que é preciso acalmar tanto a família quanto alentar o paciente, que acaba ficando isolado. “Lidamos muito com a emoção das pessoas, tanto dos familiares, que ficam em cima direto, quanto dos pacientes, a maioria idosos. Temos criado meios para a família ter acesso, às vezes dando o nosso próprio número de telefone”, fala.

Familiares visitam paciente em hospital de São Miguel do Oeste  – Foto: Hospital Regional Terezinha Gaio Basso/DivulgaçãoFamiliares visitam paciente em hospital de São Miguel do Oeste  – Foto: Hospital Regional Terezinha Gaio Basso/Divulgação

Sem a família por perto, os pacientes tendem a ficar nervosos e chorosos, o que também altera os sinais. “Quando a gente fala que a pessoa precisa de internação, ela já se desespera. Quando o paciente sai intubado, a família vem toda na porta e começa a choradeira. É uma preocupação extrema, qualquer familiar fica desesperado e nós ficamos com o coração na mão porque acabamos nos apegando”, completa.

A desvalorização do profissional de saúde

“A gente está muito desmotivado pela desvalorização, pela carga em cima da gente sem receber nem um tapinha nas costas”. O relato é de uma enfermeira que trabalha em um hospital privado de Joinville.

Ela conta que a categoria nem mesmo tem um piso salarial formalizado e que um projeto de lei está tramitando para instituir o valor. “Hoje, se um empresário quiser pagar só R$ 1 mil para uma enfermeira, ele pode“, desabafa.

“Na época em que o povo ia na janela bater palma pra gente, achamos que iam começar a enxergar a importância dos profissionais de saúde e que chegaríamos a algum lugar na questão do piso salarial e carga horária, mas não aconteceu”, destaca.

A imprudência de quem não segue as orientações

Para quem está dentro dos hospitais lidando com a Covid-19 todos os dias, não é fácil ver as notícias sobre aglomerações e outros tipos de desrespeito às normas sanitárias que poderiam evitar uma propagação ainda maior da doença.

Desrespeito às normas sanitárias é fator que desmotiva os profissionais de saúde – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDDesrespeito às normas sanitárias é fator que desmotiva os profissionais de saúde – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/ND

“É um descaso, eu evito ver as redes sociais. Ninguém está lá dentro para ver o que a gente vê, o que a gente faz. Achamos que ia parar, mas na segunda onda começou a vir paciente a rodo, não estamos conseguindo vencer e só quem percebe é quem passa por isso”, diz uma enfermeira.

Priscila, que trabalha em dois hospitais, conta que um dia foi vista com o uniforme em um comércio e uma pessoa disse que os profissionais da saúde estavam alarmando demais em relação à Covid-19.

“Eu falei: ‘sabe quando você vai mudar essa opinião? No dia em que deixar de ser um número e for um parente’. As pessoas estão brincando, fazendo festa, se reunindo e não estão percebendo que podem levar o vírus para casa. Eu diria para que pensem nos outros como gostariam que pensassem neles”, ressalta.

O preconceito de quem tem medo de se contaminar

Além da pressão e do medo de contaminar os familiares e amigos, os profissionais da saúde também acabam sendo vítimas de olhares e falas de quem tem receio de estar perto deles. 

“Quando uma pessoa soube que eu estava na linha de frente, me perguntou se não tinha problema de contaminar ela. A gente se sente muito constrangido, algumas pessoas não chegam perto com medo. Onde você vai as pessoas só perguntam disso: não te dão parabéns, só perguntam”, diz uma enfermeira.

Até os próprios profissionais de saúde têm receio de trabalhar no combate à Covid-19. “Eles têm medo de entrar no nosso setor. Quando precisa de hora extra, precisa implorar para o pessoal trabalhar ali, isso é bem desconfortável”, conta.

Para uma enfermeira que trabalha na UPA Leste, referência no atendimento à doença em Joinville, os riscos de pegar a doença são maiores fora das unidades.

“As pessoas sabem que você é profissional de saúde e ficam com um pé atrás. Mas a gente se cuida muito mais do que em outro ambiente: pode pegar num mercado e não lá dentro porque estamos tomando todas as medidas necessárias”.

A esperança trazida pela vacina

O início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil traz um pouco de esperança para os dias difíceis vividos pelos profissionais da saúde.

O enfermeiro Júlio César Vasconcellos de Azevedo, de 55 anos, foi o primeiro vacinado no Estado – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/SecomO enfermeiro Júlio César Vasconcellos de Azevedo, de 55 anos, foi o primeiro vacinado no Estado – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Secom

Na segunda-feira (18), Santa Catarina começou a imunização e a primeira pessoa a receber uma dose da Coronavac no Estado foi justamente um enfermeiro que atua em Florianópolis.

“Tenho muitos amigos que vão dar o primeiro abraço nos avós após um ano inteiro depois de tomarem a segunda dose”, conta uma enfermeira de Joinville. “A vacina é uma pontinha de esperança“.