‘Tinha perdido as esperanças’: como SC foi o Estado que mais fez cirurgias eletivas do Brasil

Eduardo e Gabriel aguardavam há anos pelas cirurgias eletivas que mudariam a qualidade de vida de ambos

Foto de Gabriela Ferrarez

Gabriela Ferrarez Florianópolis

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Santa Catarina foi o estado que mais realizou cirurgias eletivas do Brasil, apontou o Ministério da Saúde. Ao todo, foram quase 70 mil procedimentos eletivos entre fevereiro e abril deste ano. Um deles foi a cirurgia de Eduardo Schutz de Souza, que há 12 anos esperava pelo procedimento de correção de escoliose.

foto mostra Eduardo, que fez a correção de escoliose após 12 anos na fila de espera para cirurgias eletivasEduardo fez a correção de escoliose após 12 anos na fila de espera de cirurgias eletivas – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/ND

Segundo o Ministério da Saúde, foram realizadas 69.306 mil cirurgias eletivas entre os meses de fevereiro a abril em Santa Catarina, o que colocou o estado em primeiro lugar no Brasil não apenas em números proporcionais, como também em números absolutos. Em segundo lugar ficou São Paulo, que realizou 46.128 mil cirurgias eletivas, e em terceiro Minas Gerais, que fez 25.187 mil procedimentos.

Eduardo conta que sua coluna começou a “entortar” quando ele tinha 14 anos. A cirurgia de artrodese (fusão), que corrige a escoliose, foi recomendada pelo médico quando o morador de São José tinha 19 anos. Nessa idade, ele entrou na maior fila de espera de ortopedia do Estado, a maior entre os as cirurgias eletivas.

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Aos 31 anos, Eduardo realizou o procedimento em 3 de fevereiro deste ano, no Hospital Regional de São José Dr. Homero de Miranda Gomes, em Brusque.

“Eu estava na fila há mais de 10 anos e, sinceramente, nesses últimos tempos eu já tinha até perdido as esperanças. Eu estava cogitando até fazer por plano de saúde ou particular para ver se resolvia a minha situação. Antes da cirurgia a minha curvatura superior chegou a 72 graus, eu já tinha uma corcunda bem aparente”, lembra.

A ligação chegou no final de janeiro.

“Me ligaram falando: ‘vai ter uma vaga para dia 3 de fevereiro para fazer cirurgia da correção da escoliose. Você tem interesse?’. Eu topei na hora porque é um negócio que eu esperava muito”, fala.

A primeira cirurgia durou oito horas. Após uma complicação, Eduardo precisou ir para a UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), onde ficou internado até 11 de fevereiro, quando voltou para a mesa cirúrgica para terminar o procedimento, considerado de alta complexidade.

“28 parafusos, 4 hastes e 2 ganchos eu coloquei na coluna. Cresci até 5cm, tinha 1.71 agora tenho 1.76”, diz. “Antes eu sentia dor, esporadicamente. Faz quatro meses que eu fiz a cirurgia, mas não sinto mais dor. Ainda tem toda a recuperação, não só estética, mas garantiu a qualidade de vida na minha velhice”, afirmou.

cirurgias ortopédicas são as que mais tem fila de cirurgias eletivas, foto mostra antes e depois de coluna vertebralAntes e depois da cirurgia de coluna que Eduardo fez, cirurgias ortopédicas são as que mais tem fila de cirurgias eletivas – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/ND

Cirurgia para solucionar língua presa fez Gabriel perder medo de falar

Gabriel, de 7 anos, nasceu com frênulo lingual ou a chamada língua presa. A condição fez com que o menino tivesse dificuldade na fala e atrasos no aprendizado. Há dois anos, a família foi encaminhada para realizar a cirurgia pela rede pública. Na semana passada, a criança passou pelo procedimento no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis.

As expectativas após a cirurgia do menino são as melhores possíveis: de poder desenvolver plenamente a fala, o estudo, participar ativamente das aulas e não ter mais medo de se expressar, como o próprio Gabriel relata.

“Toda terça-feira tenho aula de informática, onde cada um tem que ler uma parte do texto, e eu falava que não queria ler, pois tinha medo de errar”, revela.

Cleber Fernando Tiezerini, avô de Gabriel, relembra como a língua presa afetou o desenvolvimento do neto.

“Buscamos ajuda especializada, pois o desenvolvimento dele também dependia da fala, influenciando no seu aprendizado. A dificuldade dele era muito grande no dia a dia, sofrendo bullying na escola e sendo cobrado por seus professores. Felizmente, a vida do pequeno mudou desde que realizou a cirurgia”.

foto mostra o Gabriel, que estava na fila de cirurgias eletivas, sendo medido pelo avôGabriel fez a cirurgia para solucionar a língua presa – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/SECOM/DiVulgação/ND

O que Santa Catarina fez para chegar no 1º lugar em cirurgias eletivas

As quase 70 mil cirurgias eletivas feitas entre fevereiro e abril foram realizadas por meio do PNRF (Programa Nacional de Redução de Filas). O secretário de Estado da Saúde, Diogo Demarchi, detalhou as ações do governo do Estado que colocaram Santa Catarina em 1º lugar no Brasil.

“Desde o início do nosso governo o governador deu uma ordem expressa para que a gente colocasse o dedo na ferida e fosse atrás dos pacientes mais antigos, mas que também trabalhasse para que os pacientes que estivessem entrando na fila tivessem um tempo mais adequado para fazer a cirurgia”, explica.

De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, R$ 670 milhões devem ser investidos em cirurgias eletivas neste ano, mais do que o dobro dos repasses de 2022, que foram de R$ 336 milhões.

Demarchi, que substituiu a deputada Carmen Zanotto no comando da pasta em junho, explica que em dezembro de 2023, quando ainda era secretário adjunto da saúde, dois programas foram lançados e aumentaram o número de cirurgias eletivas realizadas em Santa Catarina: o Programa de Valorização dos Hospitais e Tabela Catarinense de cirurgias eletivas.

A tabela faz com que os hospitais sejam pagos com valores de acordo com cada procedimento, considerando a defasagem da tabela SUS. Esses reajustes são destinados principalmente aos procedimentos de alta complexidade de ortopedia. Na oncologia a garantia do início do tratamento dos pacientes foi fixada em até 60 dias e o reajuste valeu para os procedimentos de média complexidade de urologia e otorrinologia.

Além disso, o secretário da saúde reforçou que o Estado passou a realizar mais cirurgias eletivas nos hospitais da rede própria, fez um acordo com seis hospitais privados catarinenses para a realização de procedimentos pelo SUS e conseguiu a habilitação estadual para hospitais realizarem determinados procedimentos — de ortopedia, cardiologia e  trombectomia mecânica, por exemplo — o que acelera o andamento da fila.

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