O tempo é sacana. É ácido e não costuma ter meio-termo. Durante uma reunião chata, parece até uma eternidade. Já naquele momento único, com quem a gente gosta, parece que as horas viram minutos.
A verdade é que o relógio e a vida, dupla que caminha junta, são imprevisíveis. Dá para planejar a formatura da faculdade aos 24, um casamento aos 26 e a chegada do primeiro filho aos 30, quem sabe. Planejar. Realizar é com a vida, uma senhora cheia de ensinamentos.
A verdade é que o relógio e a vida, dupla que caminha junta, são imprevisíveis – Foto: Pixabay/Reprodução/NDNo interior de Anitápolis, cerca de 102,9 km de distância de Florianópolis, a minha avó, Maria Goretti, conhecia meu avô, Antônio. Entre uma dança e outra em uma festa com um salão lotado, o primeiro entrelaçar de mãos e um beijo envergonhado. “Nessa época não tinha isso de ficar”, relembra ela toda vez que conta a história.
SeguirDa dança, veio o namoro e as trocas de cartas de um romance à distância. E então, o casamento com apenas 16 anos. Junto disso, algumas dores que nunca havia sentido. “Minha mãe me levou no médico e eu descobri ter ovário policístico, que poderia ter dificuldade em engravidar. Aí fiz o tratamento”, conta Goretti.
Em uma conversa com o marido e com medo de não conseguir, o tempo fez a primeira passagem antes do esperado, em 1980. Trouxe a minha mãe, Vanessa, que carrega o nome com o significado de “sempre otimista”. “Foi um pouco antes do tempo, teria esperado um pouco mais, mas fico feliz, pois quem sabe não seria ela”, sorri orgulhosa.
Goretti com a filha, Vanessa, em 1981 – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/ND“Quando a Vanessa tinha cinco anos, queríamos ter outro filho. Eu engravidei, pois o ovário policístico estava tratado”, no entanto, com três meses de gestação o casal perdeu o bebê. O sonho do segundo filho ainda rondava e um ano depois resolveram tentar mais uma vez.
Goretti e Antônio sonhavam em ter dois filhos – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/NDEra verão de 1986. Com dores de parto, meses de internação e transfusões de sangue, a gravidez era de alto risco para a mãe e para o bebê. “Perdi outro filho. Com seis meses de gestação, pois tive descolamento de placenta. Foi difícil. Tive pesadelos com esse momento por anos. Lembro sempre que poderia ter mais uma filha, era menina”.
Por mais que tenha recebido o apoio do marido, familiares e amigos, precisou se reerguer. “Enfrentei. Eu mesma tive que enfrentar”, finaliza ela.
“Se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim”
A cidade é a mesma, mas as polainas coloridas dão lugar à geração Z e suas tecnologias, em 1999. A história e os personagens diferentes, mas com uma semelhança: mulheres fortes como protagonistas.
Suzete Passing Silva vivia uma vida considerada perfeita. Casada há alguns anos, tinha uma morada grande e muito amor. Só que diferente de muitas mulheres da sua idade, não conseguia se imaginar grávida, mesmo com o desejo de ter a alegria de uma criança na família. “Estava faltando alguma coisa. Passaram alguns anos (de tentativas) e nada de engravidar. No meu íntimo, não me via grávida. Talvez fosse uma premonição”, conta.
Suzete é de Anitápolis, na Grande Florianópolis – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/NDO casal resolveu buscar ajuda médica. Mesmo com os tratamentos, nada. Então, não houve dúvidas: adotar uma criança. Suzete conta que o processo, como todos sabem, foi lento. “Já tínhamos todo o amor envolvido. Era nossa filha”.
Para Suzete, não existe amor igual ao dela pela filha. Imagem ilustrativa – Foto: Freepik/Divulgação/NDSuzete conta que a família ficou muito feliz com a chegada da nova integrante: a Suyanne. “Quando saiu a certidão de nascimento com o nosso nome, mostrei para o meu pai e disse ‘pai, agora é de fato a sua neta’. Ele respondeu: ‘ela sempre foi minha neta desde o dia que ela nasceu’. Todos aceitaram com muito amor”.
Pai, filha e mãe, reunidos em um grande dia de festa: a formatura da Suyanne – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/NDPara ela, tudo aconteceu como deveria ser. “Não existe amor maior e cumplicidade do que eu e a minha filha. Desconheço amor igual. Tem uma frase que sempre digo: ‘se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim’”, cita com orgulho.
Suzete e Suyanne, além de mãe e filha, são amigas inseparáveis – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/ND“Toda pressão, frustração, recaiu sobre mim. Se meu marido está apto e saudável para ter filho, então o problema está em mim”
E o relógio deu um salto de mais de 20 anos entre a história de uma mãe e outra. Apesar do pulo entre capítulos, a vida segue sendo protagonista. A cidade, Santo Amaro da Imperatriz, também na Grande Florianópolis. As pessoas vivem tempos de incertezas.
E por falar em certezas, Daniela Machado Hüntemann, de 38 anos, achava que não tinha dúvidas: não queria ser mãe. Nem pensar. Não passava pela cabeça a hipótese.
O que a Daniela não imaginava é que viver é um caminho de incertezas. E ao conhecer um grande amigo, o Teófilo, o “não querer”, acabaria virando um sonho. E que o grande amigo, na verdade, se tornaria o amor da sua vida.
“Ele falava que ser pai era sinônimo de família, e que sua vida não teria sentido sem ter filhos. Essas conversas despertaram meu desejo em ser mãe”, relembra Daniela, que afirma que a partir deste despertar, esse seria o maior objetivo do casal.
Mês após mês tentando realizar o grande sonho, o entusiamo já virava preocupação e frustração. “Parecia que tudo conspirava contra nosso desejo. Apenas nosso amor e vontade permanecia”, garante.
No entanto, ponderar desistir não era uma opção. Passados quase três anos de tentativas, Daniela e Teófilo procuraram uma clínica para os ajudar com essa missão. “Para meu marido o pesadelo acabou com o resultado do espermograma (…). Desse momento em diante toda pressão, frustração, recaiu sobre mim. Se meu marido está apto e saudável para ter filho, então o problema está em mim”, confessa Daniela, que relembra que foram tempos complicados.
“Entre exames, e cirurgias, descobri possuir endometriose durante uma laparoscopia de desobstrução de tropa de falópio, ocasião em que os médicos super profissionais já retiraram a endometriose”, diz ela, que conta que precisaram de apenas quatro meses para descobrir que o grande amor da vida do casal já estava a caminho.
Daniela teve muita fé em Nossa Senhora Aparecida durante todo o processo de gravidez – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/ND
Beatriz veio ao mundo no dia 9 de setembro de 2022 – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/NDEra uma sexta-feira, dia 9 de setembro de 2022, e Daniela acordava com uma forte dor de cabeça. O médico deu o sinal: “venham de malas prontas”. E assim fizeram. “Meu marido, que achava que iria desmaiar, filmou o parto e até cortou o cordão umbilical”, conta. E neste dia, depois de muita espera, vinha ao mundo a pequena Beatriz.
“A sensação de ser mãe é maravilhosa. Superou minhas expectativas. Cada dia aprendo mais, e amo mais a vida de mamãe. (…) Faremos de tudo por ela”, garante com orgulho.
Para Daniela, o conselho é nunca desistir. “O que Deus guardou para nós, irá acontecer no tempo certo, com o parceiro certo”, aconselha.
Três mulheres e muita coragem
Da esquerda para a direita: Goretti, Suzete e Daniela – Foto: Arquivo Pessoal/Cedido/NDGoretti, Suzete e Daniela. Três mulheres, cenários diferentes e anos distintos. Mas todas com a mesma ligação: força. A verdade é que ser mãe, e o caminho até lá, aquele que não costuma aparecer nas postagens de redes sociais, não é nada romântico. Requer coragem.