Trombose após vacina contra a Covid-19: faz sentido ter medo?

Tipo incomum de trombose foi detectado em pacientes que receberam imunizantes de vetor viral, mas casos são raros, explica especialista

Lorenzo Dornelles Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

Alguns casos de trombose foram detectados em pacientes que receberam vacina contra a Covid-19 ao redor do mundo. O fenômeno acendeu um alerta e causou um certo receio na população com alguns imunizantes, alimentando o grupo dos “sommeliers de vacinas”, que chegaram a evitar a Astrazeneca. Afinal, esse medo faz sentido?

O imunologista e vice-presidente da SBI (Sociedade Brasileira de Imunizações), Renato Kfouri, detalha o que se sabe na comunidade científica a respeito dos casos, e garante que o evento é “raro”.

Frasco de vacina da AstrazenecaVacina da Astrazeneca pode provocar trombose? Quais são as chances? – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/Divulgação/ND

Os casos foram detectados em vacinas de vetor viral, ou seja, não apenas com a Astrazeneca mas também com o imunizante da Janssen.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

“Foram descritos, primeiro na Europa e depois nos Estados Unidos e no Brasil também, alguns fenômenos de uma trombose não habitual, seja pela sua localização, pela sua idade, e pela ausência de fatores de risco, em indivíduos que receberam a vacina da Astrazeneca, depois isso foi visto com a vacina da Janssen também”, detalha Kfouri.

O presidente do Departamento de Imunizações da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) explica que os casos já foram identificados na medicina e as relações de causa e efeito estão “bem estabelecidas”.

“Foram investigar e estudar esses casos e o que chamava a atenção é que era uma trombose que cursava com quedas no número de plaquetas, esse é um fenômeno incomum nas tromboses habituais, de maneira geral. As tromboses comuns, que conhecemos na prática, não cursam com quedas de plaquetas. Então essa é uma trombose diferente, chamada trombose trombocitopenia”, explica Kfouri.

“Na investigação, descobriram que há um anticorpo. A vacina induz a produção de um anticorpo contra a própria plaqueta do indivíduo”, continua. Segundo o especialista, o diagnóstico para estes casos específicos também está bem definido.

“Você tem que encontrar este anticorpo no sangue do indivíduo que desenvolveu para você classificar como caso confirmado da trombocitopenia induzida pela vacinação. Já existe essa doença pelo medicamento Heparina. Gente que usa esse remédio, raramente também desenvolve esta trombocitopenia induzida pela Heparina, então é um mecanismo semelhante”, explica o imunologista.

Quais são os riscos?

Vale destacar que as chances de contrair trombose depois de receber a vacina representam um perigo muito menor do que se infectar com a Covid-19, por exemplo.

“O risco varia, tem países que tem até um para cada 50 mil casos, e outros um para 500 mil, então podemos dizer que fica entre um infectado para 250 mil pessoas. Isso depende da vigilância, obviamente, quanto mais você ficar atento, mais você acha”, diz Renato Kfouri.

Os casos com a vacina da Janssen são ainda menores, e está em cerca de um infectado para cada 1 milhão de vacinados.

O imunologista ressalta que a identificação de fatores de maiores riscos para contrair a trombose foram estudados.

“Tentaram encontrar alguns fatores de risco, a idade que pareceu ser um primeiro fator em mais jovens, não está se confirmando, tem casos também em idosos. Mulheres parecem ser a maioria, mas não é uma maioria muito expressiva. A grande maioria é sim desenvolvida após a primeira dose da vacina, mas tem com a segunda dose também.”

Risco x benefício muito favorável à vacinação

“Dada a raridade do evento, os pareceres internacionais continuam com a relação risco e benefício muito favorável a manutenção da vacinação. Não se recomenda contraindicar a vacina porque você vai ter muito mais vidas salvas do que casos de trombose em indivíduos vacinados”, garante Kfouri.

Ele destaca que não existem contraindicações para nenhuma vacina, em nenhum caso específico.

“Não tem correlação com gestação ou outros fatores. Alguns países que têm várias opções de vacinas tem preferido usar a Astrazeneca nos mais velhos, já que é um fenômeno que no início pareceu estar associado aos mais jovens. Aqui no Brasil obviamente não podemos nos dar esse luxo, o balanço risco x benefício continua muito favorável, então não há nenhuma contraindicação de uso dessa vacina por aqui e muito menos de suspensão”, reforça.

Brasil não pode “se dar ao luxo” de escolher vacinas, e todas são confiáveis, garante especialista – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Secom/Divulgação/NDBrasil não pode “se dar ao luxo” de escolher vacinas, e todas são confiáveis, garante especialista – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Secom/Divulgação/ND

Kfouri prossegue lembrando que “como aconteceu um caso em uma grávida, se suspendeu o uso das vacinas de vetor viral – Astrazeneca e Janssen – na gravidez, mas muito mais como precaução, mas não tem nenhuma relação de risco”, conclui.

Tópicos relacionados