Há um ano a Covid-19 desembarcava em Joinville, no Norte de Santa Catarina. O primeiro caso confirmado na maior cidade do Estado foi o motor para uma montanha de diagnósticos positivos que se multiplica dia após dia e faz com que, 12 meses depois, a cidade continue com o mesmo desafio, mas em um cenário devastador e caótico.
Em um ano, Joinville soma 64.859 casos e mais de 785 mortes – Foto: Carlos Jr./NDO paciente número 1 foi um homem de 57 anos que havia viajado para a África e Europa em um mundo onde as viagens ainda eram seguras e feitas sem as restrições impostas há 365 dias. Quando voltou, febre, dor de cabeça, de garganta e pelo corpo indicaram o que se tornaria a doença mais devastadora do século.
De lá para cá, o mundo caminhou em um universo de incertezas e, um ano depois, o desafio continua sendo o mesmo, garante o secretário de saúde de Joinville, Jean Rodrigues. “O desafio continua sendo cultural, do pensamento de coletividade que cuidando de mim, vou cuidar de ti, esse é o grande desafio ainda, fazer com que as pessoas compreendam o coletivo. O peso de uma vida não tem preço, esse é o grande desafio”, fala.
SeguirEm março, o município registrou 15 casos e a primeira morte em decorrência da Covid-19 no dia 30. Um ano de descobertas, ações e negacionismo. O secretário salienta que foram 12 meses de tentativa de estabelecer medidas simples de enfrentamento, de reconhecimento do vírus e suas consequências e que neste momento, sente como se estivesse voltado ao ponto de partida.
“E um ano depois, o desafio é o mesmo, as pessoas ainda contestam essas medidas e tudo que vem depois é paliativo. A vacina chegou, há um plano de vacinação, existem tratamentos, mas ainda há o negacionismo de que essa doença não existe. Aprendemos a combater o vírus, estudamos um ano como ele se comporta e agora perdemos essa capacidade com essas novas cepas, que tiraram a nossa capacidade de previsibilidade. Então, voltamos à estaca zero. Temos muitos segmentos com dificuldade financeira, as pessoas continuam não acreditando, contestando e infelizmente vivemos uma situação muito delicada de ter pessoas aguardando leito de UTI nas portas dos hospitais”, salienta.
Após um ano de combate ao novo coronavíus, Joinville vive a incerteza de lidar com as novas cepas do vírus, que são ainda mais contagiosas e letais. A curva do contágio aumenta e, em pouco mais de três meses, o número de casos saltou 126%, saindo de 29.016 em novembro para os atuais 65.562.
A mortalidade cresceu ainda mais na cidade. Joinville terminou o mês de novembro com 384 óbitos e até esse 13 de março, já eram 786 mortes, o que representa um aumento de 104,6%, em menos de quatro meses.
Os dados comprovam o que os estudos que se debruçam sobre as novas cepas sugerem: o coronavírus está sofrendo mutações e deixando as autoridades de saúde, mais uma vez, sem saber como reagir.
As tentativas de minimizar os impactos do aumento acelerado não estão funcionando e o número continua crescendo a cada dia. Dois hospitais de campanha, unidades de saúde fechando para remanejamento de profissionais, medidas restritivas, compra de leitos e multa para descumprimento. Tudo paliativo, ressalta Jean. O que faria de diferente? Ações permanentes, fala o secretário.
“Se eu pudesse voltar no passado, criaria uma estrutura permanente, não como hospital de campanha, mas permanente mesmo, para tratamento da Covid porque um ano passou, veio uma nova variante e podemos ter mais um ano, outra variante e talvez a vacina não contemple essas variantes, isso é uma coisa que veio para ficar. Não podemos mais tratar a Covid com uma estratégia temporária, precisamos inserir ele no contexto da nossa vida. Temos que reaprender a viver com esse processo e não para contar com estruturas temporárias para isso”, reforça.
Um vírus que veio para ficar. Uma pandemia que deve fazer com que as estruturas de saúde se alterem e, para Jean, que precisa mudar a mentalidade da sociedade para uma atuação coletiva e consciente. “Eu ainda acredito na sensibilização do ser humano. Acredito na pessoa e ainda trabalhamos para fortalecer os vínculos de sociedade. Precisamos ter consciência”, finaliza.