Alcoolismo, problemas de autoestima, dificuldades para se relacionar, transtornos alimentares, automutilação, depressão, fobias, ideações e tentativas de suicídio. Os problemas mapeados na tese de doutorado de Laís do Patrocínio são muitos e todos com algo em comum: são resultado de divulgação de imagens íntimas não autorizadas.
Imagens íntimas vazadas de mulheres do estudo vão de sexualidade até comportamentos em brigas – Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil/NDForam entrevistadas 17 mulheres vítimas da exposição e 10 profissionais da saúde ou assistência social que atenderam casos de exposição. O grupo que, além de Patrocínio, contou com outros pesquisadores, foi em busca de saber sobre as experiências das mulheres e os cuidados em saúde com casos deste tipo de exposição no Brasil.
“A pesquisa coincidiu com o primeiro ano da pandemia, o que trouxe vários complicadores. Foi preciso fazer todas as entrevistas por vídeo, por meio de plataforma digital. O lado positivo disso foi a possibilidade de conseguir uma diversidade territorial, com participantes de várias localidades, e também de classe e étnico-racial”, explica Patrocínio.
SeguirMulheres entre 18 e 62 anos narraram suas experiências com o vazamento de imagens íntimas, que foram motivadas por questões que vão de reforço da masculinidade do homem até comercialização, vingança ou extorsão. Entre as entrevistadas, algumas produziram o material divulgado sem permissão e outras foram gravadas sem conhecimento ou consentimento.
Culpabilização que mina a autoestima
As imagens íntimas não tratadas no artigo sobre saúde não são apenas aquelas ligadas à sexualidade, mas também conteúdos gravados sem autorização durante brigas ou bebedeiras. Para Patrocínio, esse detalhe revela que a vigilância sobre a mulher está em vários comportamentos.
“É uma culpabilização externa que acaba virando interna e vai minando a autoestima. Isso interfere em todo o processo, porque a mulher deixa de procurar ajuda porque se sente culpada, acha que, de alguma forma, contribuiu para a situação”, diz Laís do Patrocínio.
As gravações divulgadas são gatilhos para problemas como os citados na abertura desta matéria, que vão de abalos na autoestima a tentativas de suicídio. Históricos familiares e pessoais influenciam diretamente em como essas mulheres vão passar pelo momento, com problemas pré-existentes podendo ser agravados com a exposição íntima.
“É o caso de distúrbios alimentares e estados depressivos; quem já tinha predisposições desenvolveu. Outra consequência importante é o sentimento de culpa, relatado tanto pelas vítimas como pelos profissionais”, diz a pesquisadora.
Atendimento às vítimas
A pesquisa também se ocupa em criticar os protocolos de atendimento, que por vezes apresentam problemas. Entre os aspectos citados estão dificuldade de efetivar uma lógica de rede devido a racionalidades conflitantes entre as instituições, ausência de conforto e privacidade, além de julgamentos na assistência policial.
“Há pontos de divergência, como por exemplo, no que se refere à necessidade de contar a história várias vezes. Para alguns profissionais, essa situação ainda é melhor do que contar uma única vez para várias pessoas ao mesmo tempo. Mas todos concordam é que é preciso pensar em protocolos em relação ao atendimento à vítima, de forma a evitar que ela precise se expor ainda mais”, informou a pesquisadora.
*Com informações do Portal Fiocruz.