Veja as suspeitas contra o médico denunciado por antecipar a morte de pacientes em Itajaí

10/09/2020 às 12h12

Gustavo Deboni da Silva é investigado por suspeita de ter antecipado a morte de pelo menos oito pacientes do Hospital Marieta Konder Bornhausen

Isabela Corrêa Itajaí

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Um assunto que choca Itajaí e região ganha novos capítulos. O médico Gustavo Deboni da Silva foi denunciado pelo MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) por suspeita de ser responsável por “abreviar vidas” de alguns de seus pacientes. 

A Polícia Civil de Santa Catarina já começou a ouvir testemunhas. Deboni é suspeito do homicídio de pelo menos, oito pacientes que estavam internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Marieta.

Afastamento das funções médicas

A informação veio à tona, no dia 28 de agosto, após o CRM-SC (Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina) proibir Deboni de exercer a profissão por seis meses.

O afastamento das funções médicas foi estendido pelo MPSC, até o julgamento de processo ético-profissional, em trâmite no CRM-SC. Caso descumpra a determinação, Deboni e o Município de Itajaí, terão que pagar multa de R$ 50 mil por dia.

Nesta reportagem você terá acesso ao processo que conta com detalhes as principais suspeitas sobre a conduta do médico, que atendia nos hospitais Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, e Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú.

Veja as suspeitas contra o médico Deboni, denunciado por antecipar as mortes de pacientes em Itajaí – Foto: Reprodução internetVeja as suspeitas contra o médico Deboni, denunciado por antecipar as mortes de pacientes em Itajaí – Foto: Reprodução internet

A investigação

Segundo o delegado da DIC (Divisão de Investigação Criminal de Itajaí), Rafael Leandro Lorencetti, alguns familiares dos pacientes falecidos já procuraram a delegacia. Ele ressaltou que podem haver ainda mais vítimas.

A investigação teve acesso a documentos e prontuários médicos que indicam que as mortes podem ter sido causadas pelo uso de um medicamento paralisante, que corta a respiração do paciente.

A medicação é chamada de “pancurônio“. Ela tem como finalidade relaxar a musculatura da respiração de pessoas com dificuldades para oxigenar.

O médico e professor de ética médica Mauro Machado explica que após a aplicação do rocurônio, o corpo do paciente fica preparado para receber oxigênio por meio de máquina. Sobre o uso do mediamento ele afirma: “em mãos inábeis seria realmente muito perigoso”, ao se referir à vida das pessoas.

Processo do Ministério Público

A ação está embasada nos autos do Inquérito Civil nº 06.2020.00001058-3, que tramitou sigilosamente no âmbito da 13ª Promotoria de Justiça da Comarca de Itajaí.

A denúncia que originou a investigação foi realizada pela Fundação
Universidade do Vale do Itajaí, onde o médico Deboni era professor do curso de Medicina.

Ele é suspeito de ter praticado atos de ordem ilícita na frente de um grupo de alunos da disciplina Clínica Médica (estágio), do 12º período, em pacientes  portadores de alguma deficiência ou em estado grave,atendidos no Hospital Marieta.

Denúncias de testemunhas

Paciente com paralisia cerebral e pneumonia

Um médico afirmou ter presenciado o médico Deboni prescrever “rocurônio”, e em seguida retirar o tubo orotraqueal.  É através do tubo que um respirador mecânico fornece ar ao paciente, que não consegue fazer o mesmo sozinho.

Segundo a testemunha, isso ocorreu na Sala de Emergência (Padre Pio) do Hospital Marieta.  Esse paciente estava internado com paralisia cerebral e pneumonia. Após a ação de Deboni, o paciente veio a óbito. O médico explica:

“Eu fiquei bastante assustado com aquela história, até lembro de ter comentado com ele: ‘isso é homicídio’.”

Paciente paraplégico

Outra testemunha, na época, um acadêmico do curso de Medicina, informou que um paciente paraplégico precisava ser levado à sala de emergência ou UTI, e o médico Deboni não aceitou.

O acadêmico afirma que o médico fez ‘terror psicológico’, e impôs aos
acadêmicos a responsabilidade de intubar o paciente. Um dos estudantes errou a primeira tentativa, e o tubo parou no esôfago.

Enquanto eles ainda tentavam intubar o paciente da forma correta, o médico, responsável em ensinar os alunos, saiu da sala. Em seguida, o paciente paraplégico morreu. O acadêmico lembra:

” Tive a sensação de ter sido responsável
pela morte do paciente”.

Segundo o relato, o médico Gustavo Deboni da Silva justificou aquela atitude com a seguinte frase:

“O paciente era um cara ruim. O que eu faria se um paciente de 25 anos precisasse de leito na emergência e não pudesse entrar porque aquele paciente estava lá”

Paciente paraplégico após tumor na medula

Um outro médico informou que um paciente morreu, após Deboni intubá-lo. No formulário clínico, o suspeito usou pancurônio, o mesmo medicamento dos outros pacientes.

Segundo a testemunha, foi usado de forma não indicada para esses casos, o rocurônio. O homem sofreu parada cardíaca e veio a óbito em seguida. A vítima era paraplégica por sequela, após um tumor medular.

Óbitos na emergência Padre Pio (UTI 1, UTI 2 e UTI 3)

O médico que fez a denúncia acima, realizou na época uma pesquisa no sistema do hospital. Ele constatou 140 mortes na emergência do Hospital Marieta, desde 2016. Desse total, 41 foram declarados mortos por Gustavo Deboni da Silva.

Segundo o profissional, pessoas que presenciaram os fatos cometidos por Gustavo Deboni, tinham medo de prestar depoimentos e sofrer represálias, já que o acusado era gerente médico do hospital, cargo exercido até o mês passado, quando foi afastado pelo CRM e MPSC.

As oito vítimas 

O relatório do MPSC trabalha com oito casos, com indicativos de abreviação de vidas. As mortes ocorreram de 2017 até 2019. As vítimas tinham entre 25 e 91 anos. Em todos esses casos foram
utilizados os bloqueadores neuromusculares citados anteriormente.

Posicionamentos

Defesa do médico Gustavo Deboni da Silva

O advogado de Defesa, Erial Lopes de Haro, falou com exclusividade para o Grupo ND. Segundo ele, a acusação é feita por residentes e acadêmicos que não faziam parte da rotina de serviço do médico Deboni:

“Ao longo do período apurado, passaram mais de 300 alunos e residentes, e nunca houve denúncias.”

Quando questionado sobre o pancurônio, o advogado Haro afirma que o medicamento foi usado mais de quatro mil vezes por no mínimo 40 médicos, de forma tecnicamente correta, de 2016 a 2019. E ressalta:

“Não há nenhum indício técnico com respaldo em literatura médica que corrobore afirmação de que esse medicamento teria abreviado a vida desses pacientes.”

Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen

O hospital se pronunciou por meio de nota oficial. O comunicado afirma que sempre agiram dentro da legalidade, que acatam e cooperam com os órgãos competentes e de classe.

A nota do Marieta diz, ainda, que os fatos serão apurados conforme o sigilo dos processos determina. E salientou que a instituição nunca havia recebido qualquer denúncia referente ao gerente médico.

Univali (Universidade do Vale do Itajaí)

A instituição se pronunciou por meio de nota. A Univali afirma ter recebido denúncias de alguns ex-alunos e residentes do Curso de Medicina, que relataram possíveis irregularidades de conduta do médico Gustavo Deboni da Silva no exercício de sua profissão.

Através de sua Procuradoria Geral, encaminhou todo o acervo de informações e documentos para a apreciação do MPSC, para que o órgão, de posse das denúncias e do material recebido pela Univali, tomasse as eventuais providências legais cabíveis.

Diante das deliberações do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina no sentido de determinar a interdição cautelar do profissional, a Univali informou que o médico já havia sido formalmente comunicado sobre a suspensão de suas atividades docentes na Instituição.

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