Patinetes deixados em áreas inadequadas atrapalhando a mobilidade nas calçadas e dificultando a passagem de pessoas idosas ou com deficiência. Menores de 18 anos utilizando o equipamento, o que não é permitido. Casais, pais e filhos ou amigos ocupando um aparelho, o que também não pode. Usuários que invadem vias rápidas e acidentes com lesões. Vencedora do edital que autorizou a operação dos patinetes em Florianópolis, a Whoosh atua na cidade desde junho deste ano.
Em frente ao Ticen, patinetes atrapalhando acesso a faixa de pedestre – Foto: Leo Munhoz/NDEstudante de pós-graduação na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), a carioca Flora Sauerbronn, 28 anos, estava de bicicleta na ciclofaixa da avenida Beira-Mar Norte no dia 8 deste mês quando foi atingida por uma moça de patinete.
Resultado: dez pontos num dedo da mão, quase R$ 1.000 em gastos com medicamento e exames, dificuldade para digitar e seguir os estudos na área de programação. “Acabei de fazer ultrassom. Como não fraturei o braço, estava vendo se as articulações estão boas. Além disso, minha pesquisa é relacionada à programação e estou sem uma das mãos para digitar. Muito chato”, lamentou a estudante.
SeguirFlora acionou a Whoosh pedindo assistência. O suporte pediu contato telefônico dela, porém, não obteve mais retorno. “Estava refletindo se entraria com alguma ação judicial para agilizar, porque 30 dias é um bom tempo”, disse, referindo-se ao prazo máximo da seguradora que atende à Whoosh para analisar reclamações em casos de acidente. Além dos gastos que já teve, Flora precisa de dez sessões de fisioterapia para tratar o problema de saúde e vai atrás de reembolso.
Outras pessoas relatam um cenário de caos com os patinetes pela cidade. Uma opção de lazer e mobilidade da Capital, infelizmente, motiva inúmera reclamações. Ontem, telespectadores do Balanço Geral, da NDTV, descreveram diferentes situações arriscadas que presenciaram.
“Na ponte Hercílio Luz deveria ser proibido aos fins de semana, porque eles abusam, acham que são os donos da ponte, atropelam tudo que veem pela frente”, criticou Herico Pinheiro.
Flora espera indenização, depois de ser atingida por usuária do aplicativo – Foto: Leo Munhoz/ND“Grupos de jovens estão marcando corridas de patinete, inclusive dividindo espaço em vias públicas com veículos. Abaixam o pezinho para que, ao andar em rápida velocidade, crie faísca. Andam pelas calçadas em alta velocidade, quase atropelaram meu cachorro. Todos menores de idade em grandes grupos. Está ficando preocupante”, disse Eneliany Farias.
Incidentes são casos isolados, diz CEO da Whoosh
A empresa que opera os patinetes na cidade argumenta que não tem grandes problemas em Florianópolis e que, desde o início da operação, em junho deste ano, foram mais de 220 mil deslocamentos e menos de dez ocorrências reportadas. Para o CEO da Whoosh no Brasil, a Capital não é a maior das preocupações da empresa que atua em 45 cidades europeias.
O contrato firmado entre a Prefeitura de Florianópolis e a Whoosh prevê que é dever da empresa “promover a segurança, fornecendo equipamentos confiáveis, seguros e de qualidade aos usuários, com observância de todas as normas brasileiras e mediante apresentação de certificado do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), respeitando todas as leis de trânsito do local onde transitarem os veículos, bem como informar aos usuários de todas as regras pertinentes”.
CEO da Whoosh, Francisco Forbes defende que os incidentes são casos isolados frente ao grande número de viagens do aplicativo e que as orientações de segurança constam nas instruções do app. “Temos duas abas dedicadas a regras e normas no app e no site. Semana sim, semana não, fazemos uma blitz orientativa com a Guarda Municipal. Teremos a quarta edição amanhã, na avenida Hercílio Luz. Além disso, nas redes sociais e por push enviamos notificação”.
Forbes diz que os adolescentes pegam o cartão de crédito dos pais e infringem a idade mínima de 18 anos. “Não tenho como pedir para o patinete verificar se a pessoa é a pessoa, mas todos os equipamentos informam que não pode ser usado por menores”, salientou. Segundo ele, também há pessoas fazendo cadastro falso, com cartões clonados e CPFs falsos.
Ainda conforme o executivo, o tempo de resolução de problemas denunciados é inferior a 30 minutos, em média. Ao todo, quatro carros rodam 24 horas, além de dois adicionais, recarregando e organizando a frota. “Fazemos de 3.000 a 4.000 corridas por dia e temos menos de dez ocorrências. O que mais acontece são problemas leves”, explicou.
Sobre o acidente com Flora, o prazo de retorno da seguradora da Whoosh é de 30 dias para avaliar. Forbes disse, ainda, que a empresa é cobrada com frequência pela prefeitura. “Fazemos reuniões e mandamos relatórios semanais com número de viagens e ocorrências. Como empresa, somos muito ‘caxias’. Empresa europeia, auditada, listada na bolsa. Somos rigorosos com as normas”, afirmou.
Guarda Municipal pode apreender equipamentos em caso de infrações
Secretário adjunto de planejamento urbano, Ivan Couto explicou que os patinetes são regulamentados pela resolução 996, de 15 junho deste ano.
“A grande dificuldade é que é um equipamento de mobilidade individual e aí já entra o primeiro ponto. Vemos pais andando com filhos, casal em cima do patinete e tudo isso é proibido”, afirma. Ainda conforme Couto, Guarda Municipal e Polícia Militar têm poder de fiscalização dos patinetes.
“Agimos quando nos deparamos com a infração ou quando existe ocorrência gerada por alguém que flagrou uma situação e ligou para o 190 (PM), ou 153 (Guarda Municipal). Recentemente, os agentes da guarda receberam novas instruções para as infrações com patinetes e a orientação é: apreender o equipamento e lavrar auto de recolhimento com dados do infrator”, explica o secretário adjunto.
Além disso, em breve, a prefeitura quer criar áreas de estacionamento de micromobilidade, utilizando vagas de Zona Azul, em três áreas da cidade, para estacionar patinetes e bicicletas elétricas, onde a prefeitura vem identificando problemas.