Após caso de pai espancando filhas, psicóloga fala sobre atitude: ‘desregulação emocional’

Espancar filhos para 'educar' pode gerar transtornos mentais e crenças disfuncionais, diz psicóloga

Maria Fernanda Salinet Florianópolis

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As cenas de espancamento de duas crianças em uma praia de Salvador (BA), no último domingo (1º), provocaram revolta em muitos internautas. O pai chegou a arremessar uma delas pelo pescoço na areia.

As crianças tinham se perdido na praia – Foto: Reprodução/NDAs crianças tinham se perdido na praia – Foto: Reprodução/ND

“Além da dor física, é a dor provocada pelo próprio pai, a humilhação e a vergonha”, escreveu uma mulher no Twitter, onde o vídeo viralizou. “Nunca vai entrar na minha cabeça a ideia que alguns pais têm de machucar a criança achando que estão educando”, comentou outra.

A psicóloga Flora Evangelista Rigon, de Florianópolis, ressalta que estudos mostram os prejuízos a crianças que passam por violência na primeira infância e início de adolescência.

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“Acabam virando adultos com transtorno de ansiedade, transtorno depressivo. Há mais probabilidade de desenvolver transtornos mentais”, explica a profissional.

O que motivou a surra teria sido a crianças terem se perdido na praia e, ao serem levadas ao pai, ele se descontrolou e as bateu com chineladas pelo corpo. A educação pelo medo, além de não ser eficiente, pode prejudicar a forma como a criança lida com suas dificuldades.

“A pessoa não vai aprender necessariamente o porquê daquilo ser errado, simplesmente não vai fazer porque tem medo. E geralmente esse comportamento vai continuar acontecendo, mas não na presença da pessoa que praticou a punição.”

Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2021 apontou que maus-tratos foi o segundo tipo de crime mais praticado contra crianças e adolescentes no país nos últimos dois anos. As vítimas com idades de até 14 anos representam 90%.

As crianças no vídeo aparentam ter menos de dez anos. Após a repercussão, o pai chegou a gravar um vídeo se desculpando.

“Nada vai justificar o que eu fiz, eu errei, mas quero dizer para vocês que não sou monstro, não sou bicho. Tenho minha família e cuido bem de minhas filhas. Todos os meus amigos que me conhecem sabem. Essas pessoas que estão falando de mim não sabem o amor que tenho pelas minhas filhas”, afirmou na gravação.

Flora avalia que o fato de ele ter ficado irritado, sem encontrar outra alternativa a não ser violência, demonstra uma desregulação emocional, que pode ter origem social, cultural e psicológica. A situação é complexa e multifatorial, diz a psicóloga.

É possível educar sem bater?

Além de ser possível, diz a psicóloga, é essencial ensinar a criança de forma respeitosa.

“Quanto mais nova a criança, mais vulnerável ela está. E na infância a gente está formando as nossas crenças, os entendimentos que vamos ter  sobre o mundo para o resto da vida: o que esperar dos outros, o que nós somos, o que é o mundo, o que esperar do futuro”, diz.

Assim, ao ter uma infância disfuncional, a criança pode desenvolver uma crença de incapacidade, vai achar que não é capaz de dar conta, vai se sentir sempre inferior ou hipercompensar.

“É importante lembrar que todos nós vamos ter crenças disfuncionais, porque não há ser humano perfeito. Mas existem probabilidades de quanto mais vulnerável, mais violência tiver nessa formação, mais dificuldades essa pessoa deve desenvolver”, avalia.

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