Mais uma vítima de estupro do médico preso preventivamente na última de sexta-feira (1°), no bairro Boa Vista, zona Leste de Joinville.
O médico, que atuava nas redes pública e privada de Joinville, foi preso porque é acusado (já é réu) de estupro de uma mulher de 30 anos em Joinville. Também responde por estupro de uma adolescente (estupro de vulnerável) na Bahia.
Vítima de estupro ainda hoje precisa tomar remédios. – Foto: Reprodução vídeo NDTVOutra vítima fez um relato chocante à reportagem do Grupo ND. A mulher de 27 anos conta que conheceu o profissional que atuava na época como médico de uma rede de supermercados. Isto foi há cerca de sete anos.
SeguirEla trabalhava em uma loja no local. Dizia que ele era muito prestativo e quando ela ficou mal com a morte dos avós e de uma doença grave da tia, pediu recomendação ao médico.
O profissional disse que ele mesmo cuidaria dela, já que tinha acabado de fazer uma especialização em psiquiatria. A data da primeira consulta foi junho de 2019.
“Ele me medicou por uma doença que não tinha: esquizofrenia. Só vomitava e dormia. Ele fez um laudo, mas eu não era esquizofrênica, nunca fui. Só estava passando por um momento de tristeza por ter perdido meus avós e minha madrinha com câncer em caso terminal. Normal a tristeza. Só estava buscando ajuda para isso”, relata a vítima.
Já na próxima consulta, em julho, houve o estupro.
“Ele me beijou na segunda consulta. Não entendi muito bem, empurrei ele e depois daquilo só aceitava ser atendida em locais públicos. Em uma consulta em uma doceria, em público, tentou me abraçar e deixou mensagem no WhatsApp dizendo que o ato sexual com ele (o médico) seria minha salvação através da psicoterapia de Freud”, recorda revoltada.
“Não aconteceu porque, mesmo sob efeitos de todos os medicamentos, eu ainda conseguia ter discernimento.”
Mesmo assim, a mulher ficou tão fragilizada que em agosto daquele ano ingeriu mais de 140 comprimidos fortíssimos, uma atitude drástica, desesperada.
“Dei entrada na UTI. Fiquei em coma de seis a oito dias. Não me lembro exatamente. Quando eu acordei, a primeira pessoa que estava na minha frente era ele (o médico). Eu tive uma parada cardíaca.”
A mulher disse, ainda, que tinha medo das consultas porque se sentia coagida. Porém, ela dependia do SUS.
“Teve um dia que ele me pediu para passar aqui no posto do Iririú (Joinville)”, lembra.
“Já não estava mais habituada a ter consultas com o médico em locais fechados, mas me senti segura por ser um posto de saúde público em Joinville. ”
“Quando entrei no consultório e ele fechou as persianas me apavorei porque me recordei da segunda consulta que ele me beijou. Ele voltou a dizer que eu era esquizofrênica. Comecei a chorar. Foi quando ele disse que eu não tinha mais condições de trabalhar e que iria me aposentar”, conta a vítima, lembrando que tem o laudo do posto de saúde do Iririú.
Vítima nunca mais conseguiu trabalhar, se separou e decidiu morar em outra cidade – Foto: Reprodução vídeo NDTV“Espero que outras mulheres tenham coragem de denunciar”
Ela conta se sentiu alívio quando viu a notícia da prisão do médico. “Fiz essa denúncia não foi por mim. Foi porque eu tenho uma filha e tenho irmã. Foi nelas que pensei. Eu sobrevivi. E quem não sobreviveu? E quem vai ter danos irreparáveis para o resto da vida?”, questiona.
Muito abalada ao relembrar, a vítima disse que faz tratamento e terá de tomar medicamento para o resto da vida.
“Não é fácil. Eu tenho uma filha para cuidar.”
Médico foi preso após ser indiciado por estupro em Joinville – Foto: Polícia Civil Divulgação ND“Espero que ele (o médico) nunca mais saia da prisão e espero que outras mulheres tenham coragem de denunciar porque ele é uma pessoa influente, que tem poder aquisitivo alto. Na época que denunciei a minha mãe teve de fechar nossa casa com câmeras porque paravam carros estranhos. Tivermos muito medo. Mas minha mãe não me deixou desistir, me fez denunciar”, recorda a mulher, que fez boletim de ocorrência na Delegacia de Mulher ainda em 2019.
“Eu me sentia culpada mesmo sendo vítima”
A mulher disse que se sentia culpada mesmo sendo vítima.
“Mas eu nunca dei brecha. Mas só por ser mulher, a gente já se culpa”, diz.
“Ele (o médico) era uma pessoa que falava muito de Deus. Transparecia calma. Isso me passou segurança no início, quando trabalhávamos juntos. A parir das consultas, foi se tornando um pesadelo. O meu mundo estava desmoronando. Eu não sabia o que fazer. Não falava o que estava acontecendo por medo”, recorda.
Desde que tudo aconteceu, a vida da vítima mudou muito. O casamento dela acabou, ela nunca mais voltou a trabalhar, decidiu sair de Joinville e morar no litoral catarinense, além de fazer uso diário de medicamento controlado.
Desde 2019, está sem poder trabalhar. “Tinha um bom cargo, era gerente, uma função que eu amava exercer. Sempre trabalhei, desde os 16 anos. E agora estou sem previsão.”
Para a vítima, os abusos sofridos foram como uma sentença de morte.
“Mesma coisa que a morte, perdi um pedaço de mim. Quando a gente procura um profissional é para salvar, não para matar a gente. Foi o que ele fez. Eu quase morri”, chora.
Mensagens de whatsapp, vídeos, laudos, receitas, tudo está anexado ao processo judicial, pois, além de Boletim de Ocorrência, a vítima procurou a Justiça.
Roswita Boing Selhorst, um das advogadas da vítima, conta que o médico usou de um grande poder de persuasão.
“O médico dizia que ela teria de ter um ato sexual com ele para ela poder se recuperar 100%. Em todas as conversas, vídeos, tudo demonstra que ela não deu liberdade. Ele é que foi persuasivo. Ele queria ter a liberdade com ela”, conclui a advogada.
MP entra com ação penal e CRM investiga caso
O Ministério Público de Santa Catarina (MP) ajuizou ação penal contra o psiquiatra acusado de estupro. O Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (CRM-SC) também vai investigar o caso do médico. Por meio de nota, disse que obteve conhecimento sobre os fatos envolvendo o médico e esclarece que serão apurados pelo setor de corregedoria.
A Secretaria de Saúde do Município exonerou o médico e encaminhou o caso para investigação policial. O médico responde a cinco processos administrativos disciplinares e há contra ele pelo menos 35 relatos recebidos pela Secretaria devido à conduta inadequada, algumas delas referindo-se a suposto assédio sexual.
Ainda segundo o promotor de Justiça, pode haver mais vítimas de possíveis crimes sexuais praticados pelo médico.
Vítimas podem procurar a Delegacia de Polícia ou o Ministério Público.
*Colaboração de Adriana Freitas, repórter da NDTV Record Joinville