Uma menina doce, afetuosa, com a inocência que toda criança tem. As cores prediletas de Luna Bonett Gonçalves, de 11 anos, eram verde-água e roxo, e ela adorava desenhos animados de unicórnios. Mas a realidade de Luna era diferente, e, contrariando episódios de TV, a sua inocência não venceu o mal da agressão e do abuso.
Áudios mostram menina doce e amável com a família – Foto: Acervo pessoal/NDDois meses após a morte da menina, que chegou ao hospital em Timbó já sem vida e com múltiplos ferimentos, inclusive na genitália, a conclusão inquérito policial trouxe respostas que ressoam no vazio das emoções dos familiares. A equipe do Tribuna do Povo e portal ND+ conversou com o pai biológico e tia de Luna, que quebraram o silêncio e revelaram áudios da menina, da mãe e do padrasto.
“Ódio tão grande que eu vou levar para o caixão junto comigo”
Na frente da casa onde Luna morou até os oito anos de idade, o pai, Sidival Gonçalves, de 62 anos, e a tia, Giovana Gonçalves, de 48 anos, atenderam nossa equipe. Logo na entrada, o pai relata lembrar por onde a menina passava pedindo um beijo e querendo tomar café.
SeguirMas hoje, passados dois meses do dia que recebeu a notícia trágica do assassinato da filha, Sidival não consegue entender os motivos de tamanha crueldade.
“É uma dor que não tem como tirar. É um ódio tão grande que infelizmente eu vou levar para o caixão junto comigo. Não consigo entender uma pessoa agredir uma criança daquela forma”, diz Sidival, sem conseguir conter a emoção.
Com uma dor visível, o pai diz que acredita que o padrasto tenha sido o único a agredir e abusar da criança. “Foi só ele, tenho certeza. A mãe não tinha força para fazer todos os machucados que ela tinha”, disse.
Os familiares relataram que já haviam pedido a guarda de Luna, mas que a mãe nunca permitia. Inclusive, pedia para se afastar. Depois que a mãe casou, Sidival foi proibido de ver a filha e o último contato que os dois tiveram foi no dia do aniversário de 10 anos. Quando Luna morreu, ela já tinha completos 11 anos.
O pai não sabia onde Luna morava, ou em qual escola estudava. Mãe e padrasto tiraram o celular da menina, e os familiares acabaram perdendo qualquer forma de contato.
Já a tia, Giovana Gonçalves, de 48 anos, mostra emocionada as conversas que trocou com a sobrinha até ela ser impedida de falar com eles. Nesse áudio inédito, Luna demonstra o amor pelos familiares.
Em outro áudio, a menina comentava sobre sua cor e desenho preferidos.
Cárcere privado
O inquérito policial finalizado na última sexta-feira (10) descobriu que Luna, dois irmãos e a mãe eram mantidos em cárcere privado pelo padrasto. E a presença de conhecidos não agradava ao homem. Certo dia, um dos irmãos da mulher foi até a casa. Abaixo, confira o áudio enviado pelo padrasto como resposta à visita.
Diante do ocorrido, a própria mãe de Luna também enviou um áudio para a família, onde ela diz: “eu não quero que ninguém venha aqui não, tá bom?”, confira.
Pelo menos 25 testemunhas foram ouvidas pelo delegado responsável pela investigação, André Beckmann. Mas segundo ele, duas delas – que apareceram na semana que antecedeu a conclusão do inquérito – foram importantes pois colocam ele na cena do crime e como responsável pelas agressões que levaram a pequena à morte.
A mãe e o padrasto de Luna foram indiciados pelos crimes de feminicídio (artigos 121, §2, VI, do Código Penal), estupro de vulnerável (art. 217-A, do Código Penal) e tortura (art. 1, II, da Lei n. 9.455/97).
A Polícia Civil também representou pela prisão preventiva dos indiciados, que foi expedida ainda na noite de sexta-feira (11), e substituiu a prisão temporária que estava em vigor e já mantinha os dois presos. Agora, com o inquérito em mãos, o Ministério Público decidirá se acata ou não a denúncia contra os dois.
Mas para a família, que vive com o vazio que nada nunca cobrirá, a esperança é que o casal seja condenado. “Que eles fiquem um bom tempo lá, porque a justiça de Deus a gente não sabe, mas que eles fiquem um bom tempo lá, até para a sociedade ficar livre desse tipo de gente”, concluiu Sidival.
Relembre todo o caso
O corpo de Luna chegou, já sem vida, ao Hospital OASE em Timbó na madrugada do dia 14 de abril. Inicialmente havia a hipótese de a criança ter morrido a caminho do hospital, mas a perícia apontou que Luna já estava morta há cerca de quatro horas quando a família acionou os bombeiros.
Os hematomas em todo o corpo e sangramento na genitália levantaram suspeita. A mãe e o padrasto foram conduzidos para a delegacia para prestar esclarecimentos, mas foram liberados após alegarem que a garota morreu após cair da escada.
Após perícia e com indícios de crime de violência contra a menina, eles foram intimados a depor novamente. A mulher então assumiu ter matado a menina e o casal foi preso temporariamente. Até a conclusão do inquérito, que aponta que, na verdade, quem espancou Luna até a morte foi o padrasto, e não a mãe.