Balneário Camboriú é alvo de buscas na maior operação policial da história do RS; veja detalhes

Foram mais de um ano e meio de investigações que resultaram em milhares de ordens judiciais cumpridas, centenas de prisões e mais de R$ 50 milhões apreendidos em bens e imóveis

Foto de Grazielle Guimarães

Grazielle Guimarães Itajaí

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Balneário Camboriú no Litoral Norte e Tubarão no Sul de Santa Catarina foram alvos de mandados de busca e apreensão na manhã desta terça-feira (19), por meio da operação policial Kraken, considerada a maior da história do Rio Grande do Sul que busca desarticular o maior esquema de lavagem de dinheiro do Estado.

Além de Santa Catarina, nesta terça-feira foram cumpridas ordens judiciais em 38 cidades do Rio Grande do Sul, e em quatro outros Estados da Federação.

Mais de mil mandados judiciais foram expedidos e são cumpridos em diversos Estados brasileiros – Foto: Polícia Civil RS/DivulgaçãoMais de mil mandados judiciais foram expedidos e são cumpridos em diversos Estados brasileiros – Foto: Polícia Civil RS/Divulgação

A operação é da 1ª Delegacia de Polícia de Sapucaia do Sul, coordenada pelo delegado Gabriel Borges e pelo delegado Regional Mario Souza, que após um ano e meio de investigações, identificaram o esquema de lavagem de dinheiro do crime organizado gaúcho.

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Até esta semana, os policiais apreenderam R$ 50 milhões em bens e valores apreendidos. Para Mario de Souza, a operação quebra paradigmas no desmonte a organizações criminosas em toda região Sul do Brasil.

“A operação Kraken rompe paradigmas no que se tinha até o momento no combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro. Os reflexos desse trabalho certamente serão verificados por vários anos e as técnicas utilizadas servirão de base para trabalhos futuros. Foi um trabalho de repressão qualificado realizado para quebrar as finanças do crime organizado. É na parte financeira, no dinheiro, onde o crime organizado sente mais o golpe do Estado”, destaca Souza.

Operação policial Kraken é considerada a maior na história do Rio Grande do Sul – Foto: Polícia Civil RS/DivulgaçãoOperação policial Kraken é considerada a maior na história do Rio Grande do Sul – Foto: Polícia Civil RS/Divulgação

De acordo com as forças de segurança gaúcha, valores obtidos a partir do tráfico de drogas e crimes patrimoniais como roubos, latrocínios entre outros, eram maquiados e investidos de forma empresarial por facção gaúcha que atua no Rio Grande do Sul, parte do Sul do Brasil e possui ligações internacionais.

Os policiais civis, após essas investigações, com o apoio do Ministério Público do Rio Grande do Sul, representaram e obtiveram 1.368 ordens judiciais no combate a maior organização criminosa do Sul do país e dos crimes de ocultação e integração de bens e valores praticados pelo grupo criminoso.

O comandante do Comando do Policiamento Metropolitano da Brigada Militar, Coronel Leandro Luz, comenta a grandiosidade da operação.  “Realizamos a maior operação policial no século 21, integrando todas as vinculadas da segurança pública do Rio Grande do Sul demonstrando força, integração e organização do Estado, desmobilizando assim, o recurso ilegal adquirido através do crime”.

Operação Kraken envolveu inúmeras forças de segurança gaúcha com o apoio de organizações de outros Estados – Vídeo: Polícia Civil RS/Divulgação

Início das investigações

No final de 2020, a 1ª DP de Sapucaia do Sul cumpriu mandados de combate a ações de lavagem de dinheiro na região metropolitana e capital. Com isso, os policiais conseguiram o bloqueio de R$ 10 milhões em bens móveis, imóveis e valores em contas bancárias de uma organização criminosa que tem começou na região do Vale dos Sinos do Rio Grande do Sul.

Foi a partir dessa investigação inicial, que os policiais deflagraram a operação Kraken, que se concentrou nos crimes de lavagem e ocultação de bens e valores oriundos do tráfico de entorpecentes e alcançou cinco lideranças do grupo criminoso, sendo indiciados pelo pertencimento à organização.

A partir do desdobramento das investigações, aprofundamento no sentido de encontrar o cerne da organização e, por meio da utilização de técnicas especiais de investigação, foi possível mapear o organograma, a base de atuação, os ramos de condutas delituosas praticadas e a logística dos membros.

Foi buscando desarticular também financeiramente a organização criminosa, que as forças de segurança tiveram sucesso na operação Kraken – Vídeo: Polícia Civil RS/Divulgação

Ao longo da investigação, em 2021, a 1ª DP de Sapucaia do Sul prendeu 102 integrantes da organização criminosa, que atuavam em diversos níveis de comando, desde o vapor, puxador de carro até alguns gerentes, além disso, apreendeu mais de 10 kg de entorpecentes e 11 armas de fogo.

Operação Kraken

Com base em toda a investigação, nos elementos colhidos ao longo do ano e com o desdobramento das investigações anteriores, foi possível apurar e delimitar o envolvimento de 207 pessoas suspeitas no contexto dessa organização que é considerada a maior criminosa do Sul do Brasil em atividade.

O trabalho investigativo policial apontou a participação de membros nas mais diversas camadas de hierarquia do grupo, tendo participantes funções importantíssimas no contexto, e outros sendo facilmente substituídos em caso de prisão.

Após um ano e maio de investigações, os policiais conseguiram colocar a operação Kraken em ação e desarticular uma das maiores organizações criminosas do Sul do Brasil – Foto: Polícia Civil RS/DivulgaçãoApós um ano e maio de investigações, os policiais conseguiram colocar a operação Kraken em ação e desarticular uma das maiores organizações criminosas do Sul do Brasil – Foto: Polícia Civil RS/Divulgação

Dos mais de 200 membros ativos com os delitos praticados, a grande maioria deles foi identificado além da função específica que eles cumpriam dentro da organização criminosa.

Como atuava a organização criminosa

O grupo criminoso nasceu no Vale do Rio dos Sinos (RS), com atuação sempre no setor empresarial e buscava o máximo lucro por meio de roubos, tráfico de drogas e armas.

Com uma espécie de código interno, rede de apoio criminosa e uma espécie de banco criminoso eles recrutavam jovens para começar como vapor ou puxador de carro, até postos mais altos dentro da organização.

A organização criminosa investigada possui caráter empresarial, atuando de forma regrada, discreta e sempre visando o lucro por meio da prática de infrações penais. Principalmente crimes patrimoniais, narcotráfico e tráfico de armas de fogo.

Veículos de luxo foram apreendidos por meio da Operação Kraken – Foto: Polícia Civil RS/DivulgaçãoVeículos de luxo foram apreendidos por meio da Operação Kraken – Foto: Polícia Civil RS/Divulgação

Pode-se dizer que, segundo as investigações, todo o tipo de conduta ilícita capaz de gerar lucro era praticada pelos membros do grupo.

A investigação apurou ainda que o grupo pratica ampla e complexa lavagem de bens e valores resultados do tráfico de entorpecentes, comércio ilegal de armas de fogo, comércio ilegal de pedras preciosas, crimes patrimoniais, crimes contra a fé pública como falsificação de documentos, falsidade ideológica, adulteração de sinal identificador de veículo automotor, comércio ilegal de camisetas e símbolos de órgãos e instituições públicas entre outras infrações penais.

O Delegado Gabriel Borges destaca que “o resultado do trabalho de um ano e meio fala por si só. Esse é um grande golpe que o crime organizado sofreu no que tange a descapitalização e sufocamento financeiro”.

O chefe de Polícia do Estado do Rio Grande do Sul, Delegado Fábio Motta Lopes destaca completa afirmando que “foi a maior operação da história da Polícia Civil e com foco exatamente na descapitalização do crime organizado”.

A lavagem de dinheiro

Por meio das investigações foi identificado que a lavagem de dinheiro é altamente sofisticada, com a aquisição de imóveis e automóveis de luxo na capital, região metropolitana e Litoral do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além de aquisições de empresas para conversão de valores, como empresas do ramo mobiliário, automotivo e de metais preciosos.

Policiais encontraram cerca de R$ 41 mil reais em urso de pelúcia – Vídeo: Polícia Civil RS/Divulgação

Tráfico de armas e drogas

A organização criminosa tinha acesso a armamentos de todos os tipos de calibres, inclusive metralhadores de calibre .50, que é capaz de derrubar aeronaves.

O tráfico de drogas é o principal gerador de lucros do grupo, o qual controla a entrada da maior parte de drogas no Estado gaúcho, seja por rota terrestre ou aérea. A investigação comprovou que o grupo possuía pilotos de aeronaves que traziam diariamente dezenas de quilos de drogas do exterior.

Como atuavam as lideranças fora e dentro do presídio

A investigação comprovou ainda que a maior parte dos crimes cometidos pelo grupo tem determinação e coordenação de dentro do sistema penitenciário.

As lideranças do grupo criminoso estão presas em penitenciárias gaúchas e em penitenciária federal, mas seguem coordenando os crimes do grupo. Foi possível constatar um esquema complexo de remessa de telefones celulares para o interior das penitenciárias com auxílios de drones, visando fornecer comunicação às lideranças.

58 pessoas foram presas até o fim da manhã desta terça-feira (19) – Foto: Polícia Civil RS/Divulgação58 pessoas foram presas até o fim da manhã desta terça-feira (19) – Foto: Polícia Civil RS/Divulgação

Também foi possível apurar o amplo cometimento de infrações penais de dentro do sistema penitenciário. Inclusive chamou atenção os sorteios e rifas. Como até mesmo o sorteio por meio de rifas de armas de fogo no interior das penitenciários.

O grupo criminoso em questão tem ligação com organizações criminosas com atuação em outros estados da federação, como Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, além de organizações criminosas internacionais com integrantes de Cartel de drogas Mexicano, na Bolívia e na Colômbia.

Os Delegados Mario Souza e Gabriel Borges coordenam a execução da Operação Kraken. A coordenação é em conjunto com BM, SUSEPE, CMBRS, PC/SC, PC/PR, PC/MS, PRF E DEPEN.São 1.302 (um mil trezentos e dois) agentes públicos cumprindo 1.368 (uma mil trezentos e sessenta e oito) ordens judiciais em 38 (trinta e oito) cidades do RS e em 4 (quatro) estados da federação.