Um empresário de Camboriú, Litoral Norte de Santa Catarina, ostenta uma bandeira dos Estados Confederados dos Estados Unidos, símbolo associado ao movimento escravocrata americano, na casa que aluga para duas jovens – uma delas, negra.
Bandeira confederada é encontrada em casa de empresário de SC; entenda o significado – Foto: Arquivo pessoal/NDA denúncia chegou ao ND+ depois que a inquilina percebeu que o item não se tratava apenas de uma bandeira comum. Através de um filme, ela percebeu o significado da bandeira e fez uma denúncia anônima também na Polícia Militar.
“A bandeira confederada remete ao contexto da Guerra de Secessão (ou Guerra Civil Americana), ocorrida entre os estados do sul dos Estados Unidos (os estados Confederados) e os estados do norte, durante a década de 1860 do século 19. Os valores que abandeira confederada carregou (e de alguma maneira carrega) estão relacionados à sociedade do sul estadunidense desde o período colonial. Os estados Confederados eram formados por latifúndios escravagistas, o que não corroborava com os ideias da revolução americana (o que, também, soa como hipócrita, pois houve a manutenção da escravidão após a independência)”, explica um historiador que conversou com a reportagem.
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Símbolo está exposto em vários pontos da casa – Foto: Arquivo pessoal/ND“Ainda assim, alguém pode questionar: ‘mas não é porque pessoas brancas se identificam com a bandeira Confederada, que ela represente a supremacia racial”. Insisto: os valores históricos dos confederados são supremacistas por entenderem os não-brancos como inferiores“, ressalta.
O historiador também afirma que existe uma ressignificação da bandeira confederada no Brasil por grupos mais conservadores da população, que possam discordar com determinadas políticas públicas do governo brasileiro e acabam “importando” pautas de grupos políticos como os do sul dos Estados Unidos.
A simbologia por trás da bandeira fez com que a inquilina levasse a denúncia até a polícia, mas, segundo ela, como não teria sido uma vítima direta de um crime, ela foi orientada a realizar uma denúncia anônima, e não um boletim de ocorrência.
Segundo a Polícia Civil de Camboriú, há a necessidade de boletim de ocorrência para que a investigação seja feita.
Outros símbolos podem ser associados à supremacia branca
O historiador ainda explica que existem outros usos “menos” conhecidos que possam ter um caráter mais racial ou mais conservador. É o caso da bandeira de Gadsden (também utilizada e identificada no Brasil recentemente), que remete à luta dos colonos estadunidenses pela independência da Inglaterra, quase cem anos antes da Guerra de Secessão. A bandeira é amarela, com uma cascavel e os dizeres “don’t tread on me” (não pise em mim, em inglês). A suástica, sol negro ou a bandeira rubro negra com tridente também são símbolos associados a atos raciais.
Confederados e nazismo: existe relação?
O advogado criminalista Franklin Assis reforça que é crime veicular símbolos que tenham a cruz suástica ou gamada. Apesar do símbolo confederado não estar citado pela lei, o historiador afirma que é possível traçar uma relação entre os confederados, a Ku Kux Klan e nazistas.
“Apesar dos Confederados surgirem no contexto de construção de um país americano no século 19, o Partido Nazista no período entre guerras europeu do século 20, tais eventos não apenas têm uma proximidade histórica, mas também política”, cita.
Segundo o advogado Franklin Assis, de Itajaí, “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo” é crime. A pena pode chegar a reclusão de dois a cinco anos e multa.