Banhistas correm risco de afogamento em Florianópolis por falta de sinalização

Avisos são feitos através de bandeiras vermelhas, mas apenas três praias têm cobertura anual de guarda-vidas; mulher que perdeu marido afogado pede placas fixas

Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

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O paulista Alessandro Vieira teve a vida abreviada aos 40 anos, no último dia 17 de outubro. Era tarde de sábado, e ele tomava um banho de mar na praia do Campeche, em Florianópolis, quando foi arrastado por uma corrente de retorno, na altura da rua das Corujas.

Com os postos sendo reativados pouco a pouco na Capital não havia bandeira vermelha no trecho. Hoje, essa é a única forma de sinalização de correntes nas praias de Florianópolis. Em meio ao luto, a esposa de Vieira, Monique Lau, reivindica a instalação de placas fixas que sinalizem a presença das correntes durante todo o ano.

Músico e jornalista, Alessandro se mudou para a Capital com o objetivo de gravar seu primeiro álbum. Ele já conhecia bem o mar, mas foi surpreendido com a presença das correntes de retorno – Foto: Reprodução/NDMúsico e jornalista, Alessandro se mudou para a Capital com o objetivo de gravar seu primeiro álbum. Ele já conhecia bem o mar, mas foi surpreendido com a presença das correntes de retorno – Foto: Reprodução/ND

Um sonho interrompido

Monique presenciou a morte do marido. Ela estava na areia, distraída no celular, e em pouco minutos viu dois guarda-vidas passarem de moto. Foi quando percebeu surfistas indo ao encontro de Vieira, já no fundo do mar. Mesmo com o resgate, ele não resistiu e morreu ainda na praia.

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O casal estava apenas há seis meses em Florianópolis, e desconheciam a existência do fenômeno na Capital. O jornalista apaixonado por música veio gravar o seu primeiro álbum.

A produção era feita com o grupo florianopolitano Brasil Papaya. A criatividade em fundir heavy metal a outras sonoridades despertou interesse em produtores internacionais, que o encaixaram em turnê europeia para 2021. “Agora restaram apenas solos e gravações de guitarra” lamenta a esposa.

Antes disso, o casal morou seis anos em Caraguatatuba, no litoral paulista. As praias eram a segunda paixão de Vieira.

“Ele conhecia o mar, sabia dos perigos e tinha conhecimento das correntes de retorno. Mas não tinha aviso que existiam estas correntes aqui”, afirma Monique. “O pessoal da região até conhece, mas as pessoas desavisadas não sabem da gravidade e quanto é perigoso”, completa.

Força das correntes

Registradas nas praias da costa leste da Capital, as correntes de retorno são um desafio até para os mais experientes. Elas se movimentam com uma velocidade que pode se assemelhar a de nadadores olímpicos, conforme explica Pedro Pereira, professor de oceanografia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

A observação partiu de um estudo coordenado por Pereira em 2019, no Campeche. Derivadores foram lançados ao mar, em vários locais da praia, e o deslocamento calculado. Em alguns momentos, os equipamentos registraram correntes com velocidade 2,5m/s – semelhante a do nadador Cesar Cielo.

Na imagem, sinalizado com setas vermelhas, é possível perceber a corrente de retorno em movimento – Foto: NOAA Ocean Today, modificado por SciJinks/Divulgação/NDNa imagem, sinalizado com setas vermelhas, é possível perceber a corrente de retorno em movimento – Foto: NOAA Ocean Today, modificado por SciJinks/Divulgação/ND

A morfologia irregular das praias oceânicas é um dos fatores que influi nesse comportamento. A água tende a se movimentar em uma única direção. Mas com as variações nos terrenos há diferentes acúmulos de água, que tendem a retornar para o fundo depois que a onda quebra.

Como mostra a imagem acima, a corrente de retorno cria uma espécie de corredor contrário à direção das ondas,  diz Fábio Fregapani Silva, capitão do GBS (Grupamento de Busca e Salvamento). O segredo é nunca nadar contra elas, mas sim paralelo à praia (em direção às laterais).

O problema é que por ser um local onde as ondas não quebram, acabam sendo erroneamente considerados por turistas como “locais pacíficos”, mesmo que comportem um canal de água. Em estudo, o Corpo de Bombeiros do Paraná concluiu que o fenômeno está associado a 80% dos afogamentos registrados no mar.

Sinalização

Atualmente, a sinalização de correntes nas praias de Florianópolis é feita principalmente através de bandeiras vermelhas, instaladas pelos guarda-vidas. Entre novembro e abril, placas fixas são instaladas próximas aos costões onde existe a presença de corrente de retorno associada às rochas – um fenômeno mais frequente.

A questão é que, com exceção dos Ingleses, da Praia Mole e da Joaquina, as praias de Florianópolis não têm guarda-vidas durante os meses de maio a setembro. Neste período, caso o banhista desconheça o local e a existência das correntes, ele fica à mercê do fenômeno. Já em meses como abril e outubro, o número de profissionais é baixo.

Monique solicitou ao Ministério Público que sejam instaladas placas no acesso destas praias e que informem as suas características, como as correntezas. Assim como é feito, por exemplo, na praia de Ponte Negra, em Maricá (Rio de Janeiro‏).

Sinalização fixas de correntezas na praia de Ponte Negra, em Natal – Foto: Divulgação/NDSinalização fixas de correntezas na praia de Ponte Negra, em Natal – Foto: Divulgação/ND

Para Pereira, a instalação de placas também é importante. “O ideal seria que nos acessos às praias estivesse disponível essa informação” afirma o pesquisador. Entre outras coisas, que elas informem que a praia é oceânica, tem variação topográfica e animais marinhos.

Mas ele destaca que a responsabilidade não deveria ser dos bombeiros e do poder público, mas também de outros setores da sociedade – como a imprensa, as associações de bairros, entre outras.

O capitão do GBS,  Fábio Fregapani Silva, considera a medida necessária e diz que está sendo avaliada pelos bombeiros, mas esbarra em problemas de manutenção. Além de pichações nas placas, somente em 2020, cinco postos de guarda-vidas foram depredados na Capital catarinense, afirma o capitão.

A importância da prevenção

Se comparado a três décadas atrás, os afogamentos registrados em Florianópolis caíram consideravelmente. Chegavam a ultrapassar a casa dos 40 afogamentos por temporada no início dos anos 1990. Nesta última temporada, não passaram da casa dos dez, afirma Fregapani.

Para o capitão, o avanço se deve ao aumento de efetivo e a uma mudança de postura na corporação. “Começou a partir de 1998, devido aos cursos de guarda vida civis. Na época eram 300 profissionais para o Estado. Hoje são 1.700”. afirma. “Antes a ação ocorria somente no salvamento. Hoje focamos na prevenção”.

Algumas das orientações para os banhistas quando entrarem em uma corrente de retorno – Foto: Corpo de Bombeiros do Paraná/Divulgação/NDAlgumas das orientações para os banhistas quando entrarem em uma corrente de retorno – Foto: Corpo de Bombeiros do Paraná/Divulgação/ND

Em 2019, foi lançado o aplicativo de celular Praia Segura, iniciativa do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina. A ferramenta informa em tempo real, por exemplo, os postos de guarda-vidas em funcionamento, a situação do mar e a existência de bandeiras na praia.

Uma vez que a ampliação do efetivo de guarda-vidas nas capitais depende da liberação de recursos do governo estadual, a instalação das placas fixas reforçaria a prevenção em situações onde os postos de salvamento estão desativados.

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