Seis anos depois, a tragédia que marcou a virada do ano de 2016 para 2017 em Florianópolis teve um desfecho. A Justiça de Santa Catarina condenou, nesta quinta-feira (13), o supervisor Jeferson Bueno a 5 anos e 10 meses de prisão em regime semiaberto e sete meses e dez dias no aberto.
Jeferson Rodrigo de Souza Bueno atropelou três pessoas, matando uma e deixando as outras em estado grave – Foto: Arquivo PessoalJeferson conduzia um Camaro e respondeu por atropelar em alta velocidade três pessoas e atingir uma quarta. Ele fugiu sem prestar socorro. Uma das vítimas, Cristiane Flores, de 31 anos, morreu e outra teve amputada as duas pernas.
O réu respondeu por três tentativas de homicídio doloso, um homicídio culposo e omissão de socorro.
SeguirVítimas
- Cristiane Flores: atropelada e morta
- Nilandres Lodi: atropelado e teve as pernas amputadas
- Gean Mattos: atropelado e sofreu traumatismo craniano
- Schaiane Sottele Keite: estava dentro de outro carro atingido pelo Camaro e sofreu ferimentos com a batida
A sentença foi lida pelo juiz Marcelo Volpato por volta das 19h após a decisão condenatória dos sete jurados do Tribunal do Júri. Jeferson poderá recorrer da pena em liberdade.
Disputa de versões no júri
Durante a tarde, os advogados e o promotor discutiram principalmente se a conduta de Bueno foi uma fatalidade culposa ou se teve intenção.
Laudos anexados ao processo, pericias particulares, fotos do acidente e até imagens dos restos mortais de Flores e da perna de Nilandres foram exibidas aos jurados.
Os defensores do réu, Rômulo Campana e Ricardo Cantergi, sustentaram que Bueno agiu sem intenção e foi vítima da ação de um segundo veículo que transitava ao lado do Camaro, um Audi. O condutor trocou de pista. “A diferença de velocidade entre os dois era de 20km/h. Foi uma fatalidade”, destacou Cantergi. Assim o caso seria enquadro como crime de trânsito, com penas mais leves.
A acusação encabeçada pelo Ministério Público defendeu o crime como dolo eventual: quando não há intenção, mas o criminoso assume o risco.
Traumas e limitações perseguiram vítimas nos últimos 6 anos
A cadeira de rodas utilizada por Nilandres Lodi é hoje o principal símbolo daquela tragédia. Além de ter perdido as duas pernas, amputadas por conta do acidente, a batida matou a sua esposa, Cristina Flores.
Vestindo uma camiseta com a foto da ex-companheira, o viúvo, hoje com 43 anos, chegou muito antes do início da sessão e acompanhou o júri na primeira fileira.
“Meu filho acordou hoje e às 6h30, trouxe a camiseta e disse: ‘vai lá e faz Justiça pela mãe. Ele destruiu a nossa família “, desabafou o pai, na abertura. O menino tinha 5 anos na época do acidente.
Nilandres Lodi perdeu a esposa e teve as pernas amputadas – Foto: Felipe Bottamedi/NDA sessão teve início com o interrogatório de Gean Matos, proprietário do carro Hillux utilizado pelas vítimas. Ele é um um dos quatro atingidos pelo acidente – além de Gean, Nilandres e Cristiane, há Schaiane Sotrele, mas ela não representou contra Bueno. Ela estava dentro da Hillux e sofreu ferimentos leves.
No momento do acidente, Matos estava ao lado do casal de amigos, retirando um cooler de bebidas de dentro do porta-malas da caminhonete.
Bueno, com uma velocidade acima de 80km/h, atropelou as três vítimas com o Camaro. “Depois não me lembro de mais nada. Fiquei 15 dias em coma, usei fralda. Os médicos acharam que eu ficaria em estado vegetativo”, lembrou. Ao júri, mostrou as cicatrizes que tem na perna. “Foram mais de R$ 100 mil em tratamentos. [Bueno e família] Não me pagaram nem os remédios”.
Lodi, que hoje trabalha como instalador de som automotivo, também questionou os seis anos sem assistência. Para adquirir uma prótese ele realizou uma arrecadação coletiva (vaquinha) cujas doações somaram R$ 54 mil. “Hoje preciso de três pessoas para fazer um trabalho que realizava sozinho”.
As consequências do acidente também foram sentidas pelo filho do casal. Ele sofre de paralisia parcial no rosto em função de um AVC sofrido ainda no útero da mãe. Em razão dos problemas financeiros advindos do acidente, o pai não conseguiu manter o financiamento do tratamento, feito a base de botox.
“Audi invadiu a minha pista”, justificou réu
Também pai de um filho de 12 anos – tal como Lodi – Jeferson Bueno se emocionou quando o operador citou a criança. Hoje responsável por almoxarifado, segundo alegou, o condutor do Camaro compareceu ao Tribunal vestindo jaqueta cinza e acompanhado de seu pai.
Júri ocorreu nesta quinta-feira (13), em Florianópolis – Foto: Flavio Junior/TJSC/Divulgação/ND“O cara do Audi invadiu a minha pista”, sustentou. A situação teria resultado na invasão da calçada, o atropelamento vítimas e a aceleração do carro, ainda segundo o réu. O Camaro alcançou velocidade entre 80 e 93 km/h, de acordo com o processo.
“Entendo o ódio que eles sentem, eu teria feito pior. Mas estão depositando na pessoa errada”, alegou. Bueno destacou ainda que não havia sinalização que indicasse os limites de velocidade na pista, o que o teria feito supor que o limite era de 80km/h.
“Deveria ter uma segunda cadeira aqui”, ressaltou.
Conforme a investigação conduzida na época, Bueno abandonou o local e fugiu para o Rio Grande do Sul, permanecendo por meses foragido. O condutor do Audi permaneceu na cena do crime, se apresentou aos policiais e chegou a ser agredido por populares. Ele não foi denunciado pelo Ministério Público, que não identificou autoria por parte dele.
O acidente
Os fatos ocorreram na avenida João Gualberto Soares, a SC-403, no Norte da Ilha de Santa Catarina. Na terceira hora do madrugada do primeiro dia de 2017 um grupo de três amigos foi atingido na calçada pelo Camaro em alta velocidade. Eles guardavam pertences em uma caminhonete.
O acidente ocorreu após o condutor de um Audi, que vinha na pista ao lado, trocar de faixa. De acordo com o inquérito, Bueno conduzia o Camaro em uma velocidade tão alta que não conseguiu parar a tempo. O réu contesta.
Após a colisão, o condutor do Camaro invadiu a calçada e atropelou as vítimas. Conforme o IGP (Instituto Geral de Perícias), o motorista do Audi tinha sinalizado a troca de faixa, mas o Camaro corria entre 80 e 93 km/h.