“Chegar em casa foi um renascimento”, fala guincheiro sequestrado em Joinville

Agostinho Boso, de 65 anos, foi sequestrado e passou seis dias em um cativeiro amarrado, sem água, sem comida e sendo agredido; polícia prendeu mais um suspeito nesta terça-feira (5)

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Drika Evarini Joinville

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O carinho no olhar, no toque e nas brincadeiras era direcionado ao pequeno gato de seis meses. Cinza e de olhos verdes, o pequeno Gumble passou 12 dias longe do tutor e, enquanto o gato sentia falta em Joinville, no Norte de Santa Catarina, Agostinho Boso ficou seis dias amarrado, sem água, sem comida e sendo constantemente agredido.

Agostinho Boso, de 65 anos, voltou para casa nesta terça-feira (5) após seis dias internado – Foto: Ricardo Alves/NDTVAgostinho Boso, de 65 anos, voltou para casa nesta terça-feira (5) após seis dias internado – Foto: Ricardo Alves/NDTV

O guincheiro que foi sequestrado no dia 24 de dezembro na zona Sul da cidade e encontrado no dia 30, em um cativeiro na cidade de Guaratuba, no Paraná, voltou para casa nesta terça-feira (5). Foram seis dias de agressões e outros seis dias de internação para se recuperar dos ferimentos físicos causados pelos sequestradores.

O reencontro aconteceu no mesmo dia que ele se viu renascendo ao escutar: é a polícia. “Não tem explicação. É a mesma coisa do que ganhar a vida novamente, como se tivesse renascido, é inexplicável. É a melhor coisa que já aconteceu comigo. E hoje, chegar em casa foi ainda melhor, foi o verdadeiro renascimento. Chegar na nossa casa, não ter mais aquele barulho, aquele tumulto de hospital, aquilo também foi triste”, diz.

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Debilitado, com curativos nas mãos, pés, braços e com as costas carregando as marcas das agressões, Agostinho se lembra dos momentos de medo, incerteza e preocupação. As memórias se confundem, mas os momentos que passou no chão, sem colchão, sem cobertor, com os pés e mãos amarrados, sem beber e sem comer não serão apagados.

Agostinho Boso foi encontrado em um cativeiro, em um sítio na cidade de Guaratuba – Foto: Divulgação/NDAgostinho Boso foi encontrado em um cativeiro, em um sítio na cidade de Guaratuba – Foto: Divulgação/ND

“Cheguei encapuzado, me amarraram e me espancavam todos os dias. Falavam para abrir, contar, conversar com a família, pediam para levantar dinheiro com agiota, penhorar carro, caminhão. Eles diziam que sabiam de tudo, que tínhamos casa, carro e falavam para dar um jeito porque estavam perdendo a paciência”, recorda.

Além das agressões físicas, as psicológicas. “Falavam que se não conseguisse dinheiro iriam cortar pedaço e mandar para a família. Até disseram: o senhor pode escolher o dedo que quer que a gente corte”, fala.

Sem conseguir reagir, o guincheiro já esperava pelo pior e diz que não aguentaria mais um dia sequer e não foi necessário. A polícia estourou o cativeiro na manhã do dia 30 de dezembro. Nenhum dos criminosos estava no local no momento do resgate.

Reencontro aconteceu no hospital, horas após a polícia resgatar Agostinho Boso no Paraná – Foto: Ricardo Alves/NDTVReencontro aconteceu no hospital, horas após a polícia resgatar Agostinho Boso no Paraná – Foto: Ricardo Alves/NDTV

“Eu não aguentava mais. Foi um dia de suspense, eu não escutei barulho, nada. Acho que umas sete horas bateram na porta e eu gritei muito: pelo amor de Deus, me traz água, eu quero água, preciso de água. Eles conseguiram abrir a porta, olharam para mim e mostrando o distintivo falaram ‘é a polícia’. Eu pensei na hora que estava salvo. Foi uma hora de alívio e ao mesmo tempo de medo de ter um confronto”, lembra.

O trabalho da polícia, garante seu Agostinho, salvou sua vida. “Eu sinto que nós temos que acreditar na polícia e na lei. Se a polícia não se esforçasse não teria acontecido nada. No outro dia meu dedinho vinha para cá, com certeza. No outro dia eles teriam me cortado, se a polícia não chegasse no momento certo”, ressalta.

Da cidade paranaense até Joinville, as dores e as marcas de cada momento de agressão ardiam ainda mais na pele e na memória. “Lá eu só pensava no pior, era pior do ter morrido, não tem como explicar. Minha preocupação era com a família e o que estava acontecendo com eles. Mexe muito com o psicológico e, voltando, parece que alivia, mas sentia as dores, via a mão, os ferimentos e pensava: o quanto eu ainda vou sofrer para voltar ao normal?”, fala.

Seis dias depois, Agostinho voltou para casa e, apoiado pela família, deu os passos que o levou de volta para dentro da própria casa, onde ele quer se recuperar e voltar a ter a vida que tinha antes de tudo. “Não adianta mais trabalhar. Chega. Eu espero colocar minha vida de volta no lugar certo e viver a vidinha com a família tudo novamente como antes do sequestro. Aproveitar meu gato e minha neta”, finaliza.

Suspeito é preso no Parque Guarani

O quarto suspeito identificado pela Polícia Civil na segunda-feira (4) foi preso nesta terça-feira (5). A prisão temporária foi solicitada e decretada em algumas horas e, durante a tarde de terça a prisão foi realizada no Parque Guarani, na zona Sul da cidade.

O suspeito tem aproximadamente 30 anos e participou da emboscada realizada para Agostinho na manhã do dia 24 de dezembro no bairro Boehmerwald. O primeiro suspeito foi preso no dia 29 de dezembro, na zona Sul. Ele teria sido o responsável por efetuar as ligações e tentar extorquir a família de Agostinho pedindo R$ 200 mil para libertar o guincheiro. Durante a ação para prendê-lo, o suspeito e um policial civil foram alvejados. Os dois foram atendidos e liberados no mesmo dia.

A prisão dos outros dois que participaram do crime já foi decretada.

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