Com dobro de feminicídios em SC, 1ª semana de 2023 escancara vulnerabilidade das mulheres

Cientista social aponta crise financeira e falha nas políticas públicas como fatores que explicam fenômeno

Maria Fernanda Salinet Florianópolis

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A primeira semana de 2023 registrou o dobro de feminicídios em relação ao mesmo período do ano passado. De domingo (1º) até esta quinta-feira (6), investiga-se que cinco mulheres foram mortas por violência de gênero.

Feminicídios chegam a cinco na primeira semana de  2023 – Foto: Paulo H. Carvalho/Divugação/NDFeminicídios chegam a cinco na primeira semana de  2023 – Foto: Paulo H. Carvalho/Divugação/ND

As vítimas são Lucimar de Góes Couto, de 44 anos, Magali de Oliveira, de 40, mortas pelos ex-companheiros. A terceira vítima foi uma mulher que estava grávida e não teve a identidade revelada, de 34 anos, assassinada com um tiro na cabeça pelo próprio filho de 14 anos.

As outras duas mortes investigadas como possíveis feminicídios são Gabriela Silva Rocha, de 21 anos, e Karoline de Souza, de 24, encontradas amarradas e amordaçadas em um rio de em Araranguá, no Sul catarinense.

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Os crimes contra as mulheres são multifatoriais e suas motivações não se resumem a uma época do ano, diz a delegada da Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso), Patrícia Zimmermann D’ávila.

Mas os períodos de “maior ingestão de bebida alcoólica, festividades, crises sociais, falta de dinheiro e de pessoas estão em situação de extremo estresse” são agravantes da violência.

O momento de crise financeira no país, que obriga mulheres a permanecerem vulneráveis no mesmo ambiente que seus agressores, é um dos fatores que ajuda a explicar o índice, explica a cientista social e doutoranda em Antropologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Bruna Fani.

Aliado a isso, em muitos casos não há a denúncia da violência, diz Fani, mas ela alerta sobre a ineficácia das políticas de proteção à mulher, mesmo quando os agressores são denunciados.

“Acredito que isso tudo tenha fortes relações, portanto, com o cenário socioeconômico dessas mulheres e com o cenário político brasileiro”, afirma Bruna Fani.

“Quando digo cenário político brasileiro, me refiro à dificuldade de acesso dos canais de denúncia ou à demora para resguardar os direitos dessas mulheres. Nesse sentido, os números evidenciam essas falhas nas redes federais e estaduais e, por isso, a importância de se discutir gênero em todos os âmbitos de políticas públicas no Brasil”, destaca a cientista social.

Denunciar e acolher vítimas

A delegada Patrícia D’ávila ressalta a violência e gênero é um problema “social e cultural que envolve todo mundo. Em briga de marido e mulher se salva a mulher. Temos que acolher essa vitima e procurar ajuda”.

É possível registrar um boletim de ocorrência de forma presencial ou online na delegacia virtual da mulher. Além disso, pode-se ligar para o 190 e chamar a Polícia Militar ou fazer uma denúncia na Polícia Civil, pelo 181, de forma anônima. “Essas atitudes salvam vidas”, destaca a delegada.

Uma das iniciativas que ajudam a diminuir os índices de violência é a criação de Grupos Reflexivos, que despertam a de gênero em autores de violência doméstica. Segundo D’ávila , os homens que participam desses encontros tendem a não praticar novas violências.

“Os índices de reincidência são baixíssimos. Precisamos conversar com eles. Às vezes a violência vem naturalizada entre pais e filhos. Precisamos conversar com os nosso meninos e preparar nossas meninas para que peçam ajuda em caso de violência.”

O índice de prisões dos autores de feminicídios é alto no Estado, segundo a delegada, sendo 58% dos assassinos presos durante a investigação da Polícia Civil e 37,5% são presos em flagrante pela Polícia Militar ou Polícia Civil.

A delegada pontua que a polícia tem “feito o dever de casa, mas a articulação em rede é essencial e a própria sociedade faz o seu papel, precisa olhar de frente para isso. Eu não posso esperar que venha a mágica só das entidades estaduais ou federais. As vítimas precisam ser acolhidas e orientadas por amigos e familiares”.

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