“Foi um horror para dormir”. A comunidade remanescente quilombola do Beco do Caminho Curto, em Joinville, no Norte de Santa Catarina, reclama do medo que se instalou no local desde a tarde de terça-feira (1º), quando os moradores foram impedidos de protestar por um grupo de pessoas que, segundo eles, está ligado ao bloqueio na BR-101.
Moradora da região registrou momento em que grupo chega ao protesto da comunidade – Vídeo: Internet/Reprodução
Gorete Aparecida de Oliveira, uma das lideranças do local, conta que desde que os bloqueios começaram, as crianças e adolescentes da comunidade têm dificuldades para ir à escola – a comunidade fica em um dos acessos ao trecho bloqueado na rodovia desde o último domingo (30).
SeguirNa segunda-feira (31), os alunos tiveram transporte regular apenas para ir para a escola, não para voltar. Já na terça (1º) não puderam ir às aulas. Diante disso, a comunidade colocou madeiras na estrada a fim de impedir a passagem e chamar atenção para o problema.
“A gente colocou madeira, mas ficou de boa, era para ser uma coisa pacífica. Só que, de repente, veio um carro e passou por cima de tudo, então a gente colocou um fogo baixo. Não demorou cinco minutos veio um bando de homens com pau, com ferro, tentando invadir a vila”, diz.
Os homens, segundo a comunidade, são participantes do bloqueio na BR-101. “As mulheres fizeram uma barreira no portão para impedir a entrada, foi uma confusão, uma coisa horrível”, lembra Gorete. Depois disso, os próprios homens desfizeram o bloqueio, mas o medo seguiu.
“Eles começaram a passar buzinando, fazer xingamentos, chamar de negro, falar que a gente era sem terra”, conta Gorete. “As crianças querem sair para brincar e a gente tem até medo. A se gente se sentiu desprotegido, inútil, sem liberdade de expressão”, complementa.
Comunidade fazia protesto na Estrada Fazenda – Vídeo: Internet/Reprodução
Vigília durante a noite
Durante a noite, a comunidade recebeu apoio de educadores populares, movimentos sociais e outros grupos para uma vigília a fim de proteger os moradores. São cerca de 30 casas no local.
Zalu Amorim, uma das pessoas que passou a noite em claro, conta que o clima é de tensão. “Eles buzinam, reduzem a velocidade, dizem que vão matar petista. Falaram que iam jogar fogo na casa da frente. A gente não acha que vão fazer algo, mas isso já é violência suficiente”, destaca.
Várias pessoas se revezam na vigília. “Nossa ideia não é revidar”, ressalta. Zalu. Segundo ele, a Polícia Militar foi acionada e informou que faria rondas na região.
O projeto integrado de ensino, pesquisa e extensão Quilombola (conhecido como Caminho Curto) da Universidade da Região de Joinville se posicionou ainda na terça-feira (1º):
O Movimento Negro Maria Laura também se manifestou: “Precisamos denunciar o que está ocorrendo e garantir a integridade física dos moradores do quilombo. Por isso pedimos para que todos façam uma denúncia formal no canal do MPF – Ministério Público Federal, uma vez que este é o órgão garantidor dos direitos quilombolas”.