A preocupação com o aumento no número de casos de violência doméstica durante a pandemia fez com que a Polícia Civil disponibilizasse meios alternativos para que as mulheres pudessem realizar denúncias.
Jaine Ozelami foi agredida na frente da filha de apenas três anos na tarde de domingo (2) – Foto: Alphonsus Stofelli/NDTVApesar disso, a violência não cessou e, um exemplo, é o fim de semana violento contra as mulheres em Santa Catarina. De Norte a Sul, mulheres foram agredidas violentamente entre sábado (1º) e domingo (2). Em todos os casos, companheiros e ex-companheiros foram os responsáveis.
“O sentimento é de que eu estava morrendo sozinha, morrendo vendo a minha filha, morrendo sem ter força para gritar. Eu não sei como estou viva”, fala Wanderléia Jaine Ozelami, de 24 anos. “Não tenho a menor ideia de como não morri”. Nos braços e no rosto, as marcas da violência falam por ela.
SeguirA diarista, que mora em Garuva, no Norte do Estado, havia terminado o relacionamento e, mesmo assim, foi violentamente agredida durante a tarde de domingo, depois de um almoço familiar. Ela conta que os pertences do ex-companheiro ainda estavam em casa e ele a chamou para conversar após um almoço familiar. Com a própria casa fechada, foi agredida com socos e empurrões na frente da filha, de apenas três anos.
“Ele disse que sairia de casa, mas queria conversar antes. Eu falei que já tinha uma resposta e a resposta era que não voltaríamos e que queria ele fora de casa. Ele disse: eu vou, mas antes quero dizer algumas coisas e começou a me dar socos, empurrar, um soco atrás do outro. Ele só falou que, se eu não fosse dele, não seria de mais ninguém. Não falava mais nada”, lembra.
Jaine, como é conhecida, esteve no IGP (Instituto Geral de Perícias) na tarde de segunda-feira (3) para realizar o exame de corpo de delito. Ela conta que não sabe como sobreviveu e, ressalta que, se não fosse o vizinho, teria sido morta dentro de casa, na frente da filha. “Eu pedia para ele parar, dizia: não me mata na frente da minha filha. Até disse que voltaríamos quando vi o sangue correr e pensei que morreria ali. Ele não falava nada, só continuava”, diz.
Agressor ainda não foi preso e Polícia Civil mantém investigação em sigilo – Foto: Alphonsus Stofelli/NDTVEm um momento que foi arrastada para o banheiro, ela conseguiu se soltar e correu para a janela, onde gritou por socorro. O vizinho foi até a casa e, conta a diarista, foi neste momento que ela conseguiu pular a janela com a filha. “Se meu vizinho não tivesse chegado, ele teria me matado ali e não sei o que teria feito com a minha filha. Eu nunca esperava isso dele e espero que pelo menos seja preso. Eu poderia ter morrido na frente da minha filha”, lamenta.
A Polícia Civil de Garuva não deu detalhes sobre o caso e se limitou a confirmar que a investigação foi aberta, mas está em sigilo. O agressor não foi preso.
No Sul, mulher está internada em estado grave depois que companheiro ateou fogo em seu corpo
As câmeras de monitoramento de um estabelecimento comercial flagraram o momento em que um homem de 25 anos agride violentamente a companheira, que não teve a identidade e idade divulgadas. No relógio, o horário apontava 5h de domingo (2).
De acordo com a delegada Gabriela Tisott Fruet, ele teria se levantado, jogado álcool na mulher e, com um isqueiro, ateado fogo no corpo da companheira. Os dois viviam em situação de rua e estavam há pouco tempo em Tubarão, no Sul do Estado.
A delegada explica que a vítima foi socorrida por pessoas que passavam pelo local onde ocorreu a violência e onde o casal estava “morando” há algumas semanas, no pátio de um posto de combustível. As pessoas conseguiram abafar o fogo com um cobertor, que foi recolhido para perícia, assim como dois isqueiros encontrados com o agressor.
Segundo a delegada, ele foi preso em flagrante por tentativa de homicídio com as qualificadoras de feminicídio e emprego de fogo. A prisão, no entanto, já foi convertida em preventiva pelo Judiciário.
De acordo com a delegada, o agressor questionou a própria polícia sobre a existência de provas contra ele. “Ele perguntou quais eram as provas e quando apontei que havia testemunha e que poderiam existir câmeras no pátio do estabelecimento que gravaram a ação, ele decidiu ficar em silêncio”, conta.
Ele continua preso no Presídio de Tubarão e a polícia tem um prazo de 10 dias para concluir o inquérito.
A vítima, conta a delegada, está internada na UTI e em estado grave. Apesar de o hospital não fornecer detalhes do estado de saúde, a mãe da mulher afirmou à polícia que ela teve 50% do corpo queimado.
Homem é preso por agredir companheira grávida no Vale do Itajaí
Na noite de sábado (1º), um homem foi preso depois de agredir a companheira, grávida de cinco meses. A vítima, que tem 34 anos, foi agredida com socos, puxões de cabelo e foi queimada depois que o companheiro jogou água quente em seu corpo.
De acordo com o relato dela à Polícia Militar, ele a teria ameaçado de morte durante uma discussão e iniciado as agressões. Ela teve queimadura de primeiro grau nas costas e foi encaminhada ao hospital para atendimento, antes de prestar depoimento na delegacia.
Delegada ressalta importância de denúncia nos canais disponibilizados pela polícia
Para a delegada Débora Mariani, a pandemia e o isolamento social contribuem para o aumento no número de casos de violência doméstica, embora, para ela, os números não tenham aumentado, de fato, mas sim, as denúncias. “O companheiro está em casa o dia todo e isso contribui para o aumento das brigas, assim como a grande ingestão de bebidas alcoólicas”, fala.
A facilidade de denunciar por meio dos canais virtuais criados como WhatsApp, Telegram e a própria Delegacia de Polícia Virtual, acabam estimulando as mulheres a registrar o boletim de ocorrência, diz a delegada. Ela reforça a necessidade de fazer a denúncia e utilizar todos os meios disponíveis para fazer a informação chegar até a polícia.
Em Joinville, conta ela, são pelo menos quatro medidas protetivas cumpridas diariamente.
Neste ano, de acordo com os dados da SSP (Secretaria de Segurança Pública), 31 mulheres foram vítimas de feminicídio em Santa Catarina.