O encontro neonazista que reuniu 10 criminosos em São Pedro de Alcântara já aconteceu em outras cidades catarinenses, como Timbó e Florianópolis. Segundo o delegado Arthur de Oliveira Lopes, da Deic (Diretoria Estadual de Investigações Criminais), há um motivo para o Estado ter sido escolhido.
Oito integrantes de célula neonazista foram presos em São Pedro de Alcântara – Foto: Deic/Divulgação/NDOs integrantes da célula neonazista alegam que preferem municípios de Santa Catarina por terem “características europeias”. A cidade de São Pedro de Alcântara foi a primeira colônia alemã no Estado, estabelecida em 1829.
Os dois últimos integrantes, que foram presos na última quinta (29), em Caxias do Sul, haviam participado do encontro no município no ano passado, mas tinham ido embora um dia antes da operação.
SeguirDo total dos integrantes da célula, quatro são de Porto Alegre, e o restante de São Paulo (1), Farroupilha (1), São Lourenço do Oeste (1), Belo Horizonte (1), Pato branco (1) e Portugal (1).
Além de ter sido o encontro anual em novembro, também era comemorada a formação de dois anos da oraganização em solo brasileiro. “Eles eram o único capítulo do Hammerskin Nation no Brasil”, informou Lopes.
Nesta sexta-feira (31), o inquérito foi encerrado e entregue à Justiça. Os policiais entraram em contato com a 40ª promotoria da Capital, responsável pelo processo contra os demais integrantes, para realizar o aditamento da denúncia. A intenção é todos respondam juntos pelos crimes de racismo, organização criminosa e apologia ao nazismo.
Recrutamento e troca de mensagens
Os criminosos vinham constantementen recrutando novos integrantes para participarem do grupo e se comunicavam pelo WhatsApp, depois Telegram e, por último, passaram a usar o Signal.
“Nos celulares de alguns foram encontrados manuais de nacional socialismo, como forma de fortalecimento de atuação do grupo neonazista, alguns manuais para fazer explosivos”, detalhou delegado Arthur de Oliveira Lopes.
O diretor da Deic destaca que “não é necessário que eles pratiquem efetivamente um ato violento para que respondam pelo crime de organização criminosa”.
Segundo Régis, pelo fato de eles estarem associados com esse fim “já os caracteriza como integrantes de uma organização, ainda mais com esse ambiente de seletividade e hierarquia que eles constituem”.
Apesar de parecer que a houve um crescimento de práticas racistas em Santa Catarina, o delegado Arthur de Oliveira Lopes diz que investigações apontam que outros Estados possuem “uma atividade ainda mais intensa, mas a gente tem tido, conforme a especialização desse tipo de investigação, temos consguido bons resultados”.
Historiador explica aumento de manifestações neonazistas
Em maio de 2021, logo após um homem ser visto balançando a bandeira com a suástica em um apartamento na avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis, professor de história da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) João Klug, avaliou o aumento de manisfestações nazistas em entrevista ao ND+.
O pesquisador, que estuda o neonazismo há mais de 40 anos, afirmou ser perceptível que o assunto se tornou mais frequente em um curto período de tempo.
Segundo Klug, a alta quantidade de manifestações e movimentos neonazistas em território catarinense – e seu eventual aumento nos últimos anos – tem com base múltiplos fatores. Um deles é a ligação desse crescimento a uma onda que ocorre em todo o mundo desde a metade da última década.
“O que eu percebo é que tem acontecido com muito mais frequência que um tempo atrás, e estou associando isso a uma visão de impunidade em relação a manifestações, atitudes violentas a imigrantes e homofobia”, explica o historiador. “É uma marca que tem acontecido em manifestações de extrema-direita no mundo todo”, diz.
Segundo ele, os casos encorajam outros grupos a se manifestar, e a impunidade dá ainda mais combustível. “Vem no reboque da onda da violência de uma forma geral”.
Klug ainda detalha a mudança de percepção do público em relação a quem pratica tais atos nazistas. “Esse pessoal não ficou assim, eles eram assim e a gente não sabia. E agora eles sentem uma liberdade em se expressar. Essas coisas são crimes, mas nada acontece”, afirma.