‘Desesperador’: vizinhos contam como ajudaram a salvar vítimas de incêndio em hotel de SC

Moradores foram acordados por gritos de socorro na madrugada de segunda-feira (26), quando um hotel pegou fogo em São Francisco do Sul

Juliane Guerreiro* Joinville

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As cenas que Miguel, Albany e Tamires viram nesta semana não devem sair tão cedo da memória. Vizinhos ao hotel atingido por um incêndio em São Francisco do Sul, no Litoral Norte de Santa Catarina, eles foram acordados por pedidos de socorro e ajudaram a salvar as vítimas.

Hotel no bairro Ubatuba pegou foto na madrugada de segunda-feira (26) – Foto: Marcelo Thomazelli/NDTVHotel no bairro Ubatuba pegou foto na madrugada de segunda-feira (26) – Foto: Marcelo Thomazelli/NDTV

Era por volta de 4h de segunda-feira (26) quando o empresário Albany Alves de Lucena Filho acordou ouvindo gritos no bairro Ubatuba. “Eram pessoas desesperadas pedindo ajuda. O meu cunhado saiu correndo, a gente se deparou com o fogo e a gritaria das pessoas, vidro quebrando, algo muito ruim de ver”, relembra.

Junto aos familiares e a outros moradores, ele foi até o local para ajudar as vítimas. “Fui até o portão do hotel, peguei um martelo com o vizinho e estourei o cadeado. Estava tentando ligar no 193 e não estava conseguindo, então liguei no 190 para pedir apoio porque estava desesperador”, conta.

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Albany chegou a conversar com Udison Dias de Sales, o trabalhador que morreu após ter 90% do corpo queimado no incêndio. “Ele estava desesperado. A gente fez de tudo, eu lamento muito a morte desse rapaz. A gente não conhece, mas vê o sofrimento e se emociona. Não achei que ele iria falecer, torci muito por ele”, lamenta.

Udison morreu após o incêndio em um hotel de São Francisco do Sul – Foto: Internet/ReproduçãoUdison morreu após o incêndio em um hotel de São Francisco do Sul – Foto: Internet/Reprodução

Vizinhos fizeram “cama” com colchões para vítimas pularem

O empresário Miguel da Silva também ajudou no resgate. “A hora que a gente chegou estava um caos total. O que eu pude fazer foi desligar o disjuntor, que estava ligado”, lembra. Ele conta que os vizinhos fizeram uma espécie de “cama” com colchões para que as vítimas pudessem pular com segurança.

“Fiquei na lateral berrando para as pessoas não pularem. Elas jogaram colchões, fizemos como se fosse um trampolim. Então eles pulavam, batiam no toldo e caíam no chão”, conta. Como Albany, Miguel também conversou com Udison. “Falei palavras de esperança. Ele foi um guerreiro, um herói”.

O capitão da Polícia Militar Vinícius Andrade também esteve no local ajudando as vítimas, junto aos bombeiros voluntários. “Muitas pessoas ficaram presas nos andares superiores. Algumas já haviam pulado com medo do fogo, outras estavam intoxicadas nos quartos e outras estavam bastante debilitadas física e mentalmente”, conta.

No total, 14 pessoas foram encaminhadas a unidades de saúde. Udison morreu horas depois e um homem de 56 anos segue internado no Hospital São José, em Joinville, após ter 40% da superfície corporal queimada. O quadro clínico dele é considerado estável.

Térreo e corredor foram os principais locais atingidos pelo fogo – Foto: Marcelo Thomazelli/NDTVTérreo e corredor foram os principais locais atingidos pelo fogo – Foto: Marcelo Thomazelli/NDTV

Situação era precária no prédio

Tamires Rodrigues de Vasconcellos estava na casa da mãe, em frente ao hotel, quando acordou com os gritos de socorro. “Quando a gente foi ver tinha um fogo bem alto na parte de dentro, foi muito agonizante ver o sofrimento deles”, lamenta.

Ela conta que o hotel estava desativado há cerca de dois anos e que, antes do incêndio, os trabalhadores alojados no local chegaram a dizer que estavam sem água há três dias. “Estavam tendo que tomar banho com água da rua, no chuveirinho da praia. Estava em uma situação precária”, diz Tamires.

Local vai passar por perícia após incêndio – Foto: Marcelo Thomazelli/NDTVLocal vai passar por perícia após incêndio – Foto: Marcelo Thomazelli/NDTV

O prédio foi locado pela Monto Industrial, que presta serviços para a ArcelorMittal Vega. A reportagem do portal ND+ tentou contato com a empresa, contudo, não houve retorno até o fechamento desta matéria.

Já a ArcelorMittal Vega informou que “lamenta o ocorrido e se solidariza com os familiares do colaborador da Monto que não resistiu aos ferimentos e faleceu no hospital” e que “está em contato direto com a liderança da empresa contratada, prestando toda solidariedade e apoio necessários, além de colaborar com as autoridades competentes na apuração dos fatos”.

A Polícia Civil abriu um inquérito para investigar as causas do incêndio. Nesta quarta-feira (28), está prevista a realização de uma perícia no local pelo Corpo de Bombeiros Militar.

*Com apoio de Marcelo Thomazelli, da NDTV Joinville.

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