A gestão da delegada Tânia Harada à frente da 2ª Delegacia Regional de Polícia está prestes a completar três anos. Em março, a terceira mulher que ocupou o posto mais alto da Polícia Civil na maior cidade de Santa Catarina entra no quarto ano de comando. Se a ideia inicial era permanecer no cargo por dois anos, as metas foram prorrogadas e tudo indica que ela continue titular da Delegacia Regional por mais dois anos.
Em março, delegada Tânia Harada completa três anos à frente da 2ª DRP – Foto: Arquivo/NDOs questionamentos foram recorrentes quando o nome da então delegada da Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso) já era tido como certo para o cargo antes ocupado pelo delegado Akira Sato. “Eu cheguei a ouvir: mas será que você vai dar conta? Tem que ver que você é mulher né?”, lembra a delegada.
Prestes a completar três anos em março e com estatísticas que respondem por si só as dúvidas colocadas por colegas, Tânia Harada faz um balanço da gestão e da segurança pública em Joinville.
SeguirO maior desafio profissional
Para Tânia Harada, esse foi o maior desafio profissional da sua vida e o que ela destaca foi ter tido a coragem de aceitá-lo. Para ela, um dos objetivos é trabalhar para que outras mulheres cheguem ao cargo e quer que as próximas tenham um caminho menos espinhoso. “Justamente por ser mulher, o meu senso de responsabilidade é muito grande. Eu me cobro muito mais, eu sei que um erro meu aqui pode dar margem a críticas voltadas para a questão de gênero, então eu sinto que não posso errar. E isso nem é por mim, é pelas outras mulheres, pelas outras delegadas que vão estar aqui depois. Foi muito difícil estar aqui e eu quero que, para as próximas, isso seja mais fácil. Me esforço muito porque parece que a gente tem menos direito de errar do que um homem, principalmente quando você está em um ambiente predominantemente masculino, em uma função historicamente dominada por homens”, fala.
“Eu me senti testada inúmeras vezes, eu via nos olhos das pessoas a dúvida acerca da minha capacidade. Talvez algumas pessoas se desestimulem quando alguém duvida do potencial, mas para mim é combustível. Cada vez que eu vejo nos olhos de alguém essa dúvida, eu tenho mais vontade de ir em frente. Essa é uma obrigação minha, sua, de todas nós. Uma obrigação para as próximas”, diz.
Violência contra a mulher: o único índice que continua crescendo
Os índices de violência em Joinville têm caído ano após ano, mas os crimes contra as mulheres continuam na contramão. De acordo com a delegada, o único índice que continua crescendo é o de violência contra a mulher. Apesar disso, Harada vê esses números como algo positivo. “Estamos saindo da cifra negra, que são aqueles casos que a polícia não tem conhecimento. Então, a leitura que eu faço é otimista no sentido de que a mulher não tolera mais calada uma série de situações. Ela tem independência econômica, consegue ao menos dar o primeiro passo para sair dessa situação”, ressalta.
A delegada destaca, no entanto, o alto número de desistências no curso do processo que corre na Dpcami. Salienta, também, que o feminicídio tem como pano de fundo questões de ordem cultural.
“É aí que nós precisamos trabalhar. Eu avalio como um problema que tem muitas facetas, que não é e não tem como ser tratado só como um problema de segurança pública. Nós precisamos trabalhar conceitos com mulheres no sentido de identificar um potencial agressor. Mostrar alguns indícios que sinalizam que ele será um possível agressor. Alguns exemplos: tentar privar a mulher do convívio com os amigos e com a família, diminuir o círculo de apoio dela, ciúmes, possessividade excessiva. Nós temos que trabalhar a cabeça das mulheres para não encarar isso como demonstração de amor, não se envaidecer e nem achar isso bonitinho, precisamos criar uma consciência de que ela está em risco. E, no homem, de que a mulher não é um objeto”, diz.
Em 2019, casos de mulheres assassinadas chamaram a atenção, como a de Gabriella Custódio Silva e Cátia Regina da Silva. Mas a delegada regional salienta que em um caso não havia sequer histórico anterior de violência. “Nós fazemos ações preventivas, mas a nossa função essencialmente se dá depois que o crime já ocorreu”, fala.
Entre as ações preventivas, está a realização de uma espécie de acompanhamento com homens que têm algum histórico de violência contra a mulher. Além disso, estão previstas palestras em empresas da cidade.
Lei de abuso de autoridade impacta no trabalho da polícia
A Lei 13.869/19, conhecida como Lei de abuso de autoridade, entrou em vigor, com novos dispositivos, nos primeiros dias deste ano e fez com que os policiais tivessem de se adequar a ela.
Delegada regional afirma que as prioridades da Polícia Civil em Joinville continuam as mesmas – Foto: Arquivo PessoalPara a delegada regional, a nova lei irá impactar diretamente no trabalho da Polícia Civil. Entre as normas, a polícia fica impedida de divulgar imagens e informações. Para Harada, a colaboração da comunidade é fundamental e, com essas privações, a polícia não consegue dar o retorno. “Quando a comunidade colabora, ela quer saber o resultado e nós queremos passar o retorno para dizer que ela fez parte daquele processo. Tudo isso passa a ficar restrito”, explica.
Além isso, a polícia não pode divulgar imagens de suspeitos, de qualquer maneira ou ângulo, o que, para a delegada, além de trazer desconforto para a comunidade, traz grande prejuízo ao trabalho policial, que é integrado. O compartilhamento de imagens, ressalta ela, ajudava na identificação e localização de suspeitos, o que fica vedado a partir de agora. Além disso, entre os próprios policiais de cidades distintas do mesmo Estado, o compartilhamento é proibido.
Outro ponto questionado pela delegada é a falta de suporte e amparo jurídico aos policiais, que podem ser penalizados em caso de descumprimento da lei. “O policial não tem ninguém que possa defendê-lo da imputação e abuso de autoridade, isso vai ser arcado por ele. Particularmente, eu acho que o Estado deveria oferecer uma defesa aos funcionários porque é aí, é com receio de gastar com advogado, que o policial vai pisar no freio. Se por um lado nós tivemos a lei de abuso de autoridade aprovada, temos que pensar agora numa forma de minimizar os danos disso”, pontua.
“O efetivo é insuficiente”
Atualmente, a 2ª DRP conta com 216 policiais lotados. São 31 delegados, 32 escrivães, 149 agentes e 4 psicólogos. Porém, deste número há alguns profissionais afastados por motivos de saúde. Além de Joinville, a Regional atende as cidades de Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva, Itapoá e São Francisco do Sul. De acordo com a delegada, o maior déficit é na categoria de escrivães.
No momento, conta ela, há 50 agentes e 50 escrivães em curso de formação e a delegada estima que se 20% desse total for destinado a Joinville “daria um conforto”.
“Torço para que a distribuição considere índice de criminalidade e a proporção de policial por habitante. Nós temos uma proporção por habitantes que varia de delegacia para delegacia, mas em algumas o índice é assustador”, revela. Entre uma das regiões com maior déficit, está o bairro Aventureiro, onde há um policial civil para cada 15 mil habitantes, conta a delegada.
“O que mais me trouxe satisfação foi sentir a comunidade mais próxima”
A relação da Polícia Civil com a comunidade, ressalta a delegada regional, vem em uma crescente de confiança e parceria. “Espero que a lei de abuso de autoridade não prejudique isso”, salienta.
Ela conta inúmeras denúncias que auxiliaram o trabalho da polícia partiram da comunidade, tanto por telefone quanto por meio das redes sociais.
Avaliação positiva de 2019
Com praticamente todos os índices de violência em queda, a avaliação da delegada regional é positiva. “Não tem como expressar outro sentimento, conseguindo reduzir índices em um contexto desse. Não estou satisfeita porque sempre queremos reduzir mais, mas a avaliação é positiva”, diz.
Abuso sexual infantil, crimes patrimoniais e homicídios continuam sendo prioridades
Desde que assumiu, Tânia Harada tem como prioridade combater crimes de abuso sexual infantil, crimes patrimoniais e homicídios. E os focos continuam os mesmos.
“No ano passado, já prendemos 200% a mais por crimes de abuso sexual infantil e queremos prender ainda mais. O crime de ordem patrimonial também é prioridade porque sentimos a sensação de insegurança da comunidade. Já os crimes de homicídio acontecem em um outro contexto”, fala.
Sair da zona de conforto é a maior dificuldade
Estar à frente de uma Delegacia Regional já é um grande desafio, ser mulher nesse papel é ainda mais, mas nada disso supera a “resistência de alguns funcionários em sair da zona de conforto”, garante Tânia Harada.
Para ela, a grande dificuldade é fazer a gestão de pessoas, do servidor público.
Fazer mais com menos
Para a delegada, além de ser necessário melhorar ainda mais a relação e aproximação da Polícia Civil com outros órgãos de segurança, o maior desafio é melhorar os índices, apesar das dificuldades. “É fazer mais com menos porque nós nunca vamos estar em condições ideais”, diz.
Delegada conta que maior déficit de efetivo é na categoria de escrivães – Foto: Arquivo PessoalAlém disso, uma preocupação latente da Polícia Civil é o aumento das áreas de ocupação irregular na cidade. A delegada explica que nesse locais já há diversos tipos de crime, como a questão ambiental, o parcelamento irregular do solo e tudo isso fortalece as organizações criminosas que têm esses locais como fontes de renda.
“Segurança sempre tem de estar na mente do gestor municipal”
Em ano de eleições municipais, fala-se muito das prioridades que os candidatos precisam ter para o município. Embora, em geral, as forças de segurança pública não sejam de responsabilidade municipal, a delegada regional ressalta que a segurança de uma cidade precisa sempre ser prioridade. “Impacta diretamente na economia do município. Esse fator é considerado por grandes empresas, então, a segurança tem de estar na mente do gestor municipal sempre”, salienta.
Tânia Harada nega candidatura
Nos últimos meses, o nome da delegada regional tem sido ventilado para uma possível candidatura nas eleições municipais de Joinville, mas Tânia Harada é enfática em negar qualquer interesse na carreira política. “Não é uma vontade minha. Eu pretendo construir toda a minha carreira dentro da segurança pública”, sentencia.
Projeto para os próximos dois anos
A delegada conta que o planejamento inicial era permanecer por dois anos no cargo, mas as metas traçadas ainda não foram concluídas. Por isso, ela prorrogou o plano de gestão para mais dois anos. “Não acho que a perpetuação no cargo seja algo bom. Tem que vir alguém novo para oxigenar, que tenha novas ideias, que faça as coisas diferentes”, finaliza.
Depois, garante, o caminho continuará sendo na área de segurança pública.
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