Ex-policial que protagonizou protesto emblemático na TV morre em Florianópolis

Em 12 de maio de 1986, Silvio Roberto Vieira invadiu um programa de televisão transmitido ao vivo pela extinta TV Cultura para reivindicar benefícios a categoria

Nícolas Horácio Florianópolis

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Morreu, na madrugada desta segunda-feira (1º), aos 65 anos, o ex-soldado da Polícia Militar Silvio Roberto Vieira. Natural de Florianópolis, Silvio foi funcionário do antigo Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) e, depois, atuou cerca de 10 anos na polícia, mas acabou expulso da corporação após protagonizar um dos momentos mais emblemáticos da televisão catarinense, e da polícia.

O ex-policial Silvio Roberto Vieira tinha 65 anos e se sentia injustiçado com o desfecho do seu protesto em maio de 1986. – Foto: Reprodução/NDO ex-policial Silvio Roberto Vieira tinha 65 anos e se sentia injustiçado com o desfecho do seu protesto em maio de 1986. – Foto: Reprodução/ND

Em 12 de maio de 1986, ele invadiu, portando cinco revólveres calibre 38, os estúdios da antiga TV Cultura, no morro da Cruz, onde ficam as instalações do Grupo ND atualmente.

Silvio interrompeu um programa com Roberto Alves, Hélio Costa – hoje deputado federal – e Miguel Livramento, para protestar em favor da categoria.

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Os desdobramentos da invasão foram os melhores possíveis para a categoria, que ganhou o aumento, porém, os piores para Silvio. Depois de acalmada a situação, Silvio concedeu uma entrevista ao programa explicando suas queixas, mas foi detido, no ar, pelo Coronel Uriarte, e preso.

“Enfrentei torturas, agressões físicas, fiquei em solitária, incomunicável, expulso sumariamente, entregue ao DEIC [Diretoria Estadual de Investigações Criminais], foi uma situação muito difícil para mim”, disse Silvio em entrevista ao repórter Henrique Zanotto, em 2015.

Além de esposa e filhos, Silvio Roberto Vieira deixa 15 netos e seis bisnetos. Nas redes sociais, a Aprasc Santa Catarina lamentou a morte de Silvio, ressaltando sua luta pelos direitos da categoria:

A Aprasc se despede hoje de um homem que marcou a história da luta pela valorização dos policiais militares do Estado….

Posted by Aprasc Santa Catarina on Monday, March 1, 2021

Ex-policial enfrentou dificuldades depois do episódio

Em entrevista ao ND+, uma das cinco filhas de Silvio, a professora Silvia Veronica, confirmou a morte do pai em decorrência de um ataque cardíaco na madrugada de segunda. Ela disse que o pai enfrentava problemas de saúde. Debilitado, Silvio estava aos cuidados da esposa, Maria de Lourdes, de 65 anos.

O casal teve seis filhos – um foi assassinado – e chegou a se separar. Entretanto, depois que Silvio adoeceu, Maria e ele voltaram a morar juntos no bairro Monte Cristo, em Florianópolis.

“Ele não conseguiu nada por parte da polícia. Estava lutando para ser reformado, mas não conseguiu. Morreu em situação bem precária”, disse Silvia.

Segundo ela, o pai se sentia muito injustiçado com o desfecho do seu protesto na televisão. “Foi tentar alguma coisa melhor e, no fim, foi muito injustiçado quanto a isso, acabou sem nada, sem um salário”, lamentou.

Tortura

Silvia confirmou a versão de que o pai foi torturado na prisão e que ficou detido por cerca de 20 dias. Segundo ela, só foi liberto porque pessoas ligadas a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) intervieram.

Sepultamento

O corpo de Silvio será sepultado nesta terça-feira (2), no Cemitério do Itacorubi. A cerimônia será das 9h às 10h, segundo a família, algo simples e rápido, por causa da Covid-19.

“Apesar de uma pessoa injustiçada, sempre teve o pensamento de ajudar todo mundo. Foi uma pessoa muito boa, pai maravilhoso, que sempre quis o melhor para a gente”, disse a filha.

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