Operação Presságio: mais de 10 pessoas são investigadas, envolvendo servidores de Florianópolis

Informação exclusiva do Grupo ND mostra o que motivou Operação Presságio, que resultou na investigação de quatro servidores públicos de Florianópolis

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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O Grupo ND obteve com exclusividade, na tarde desta sexta-feira (19), o processo completo que deu origem à Operação Presságio, destinada a investigar casos de corrupção e crimes ambientais no âmbito do poder público de Florianópolis. Além dos quatro nomes previamente mencionados na matéria, o portal ND Mais teve acesso a mais nomes citados.

Operação Presságio e o documento sigiloso Operação da DEIC mira em secretários municipais – Foto: Divulgação/DEIC/ND

O encontro que originou a Operação Presságio

O investigado Fábio Braga, ex-secretário do Meio Ambiente exonerado nesta quinta-feira, teria se encontrado com Lucas Arruda, na época presidente da Comcap (Companhia de Melhoramentos da Capital), além dos empresários Carlos Gilberto Xavier (Amazon Fort) e Iuri Daniel Faria, este último, filho de Carlos Xavier.

O encontro ocorreu pouco antes da assinatura do segundo termo aditivo ao contrato da Comcap, em 2021.

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O documento sugere que, apesar da empresa ter atuado por quase dois anos sob contrato emergencial, havia tempo hábil para a realização de um processo licitatório.

Suspeitas de irregularidades recaem sobre o recebimento de recursos públicos pela empresa, e há alegações de que a atuação do gestor público envolvido na contratação possa ter causado prejuízos aos cofres públicos.

Segundo a apuração, transações suspeitas ao final de 2020 e ao longo de 2021 levantam a hipótese de recebimento irregular de recursos públicos, totalizando cifras significativas.

Confira os valores movimentados:

  • Saques efetuados pelo advogado Andrey Cavalcante de Carvalho nos valores de R$ 130.000,00, R$ 110.000,00 e R$ 130.000,00 em 04/09/2020, 09/11/2020 e 16/12/2020, respectivamente;
  • Saque do investigado Iuri Daniel Faria no valor de R$ 130.000,00 em espécie em 09/10/2020;
  • Transferência de Carlos Gilberto Xavier Faria para Gilliard Osmar dos Santos no valor de R$ 49.990,00 em 27/04/2021;
  • Valores movimentados por Samantha Santos Brose durante a quebra de sigilo bancário, totalizando R$ 324.745,17;
  • Valores movimentados por Edmilson Carlos Pereira Júnior, aproximadamente R$ 870.513,80, em 68 depósitos em dinheiro, incluindo depósitos de R$ 36.100,00 em 16/09/2021 e R$ 6.666,00 via PIX em 03/05/2021;
  • Valores recebidos pelo Instituto Bem Possível, cerca de R$ 214.000,00 entre 2021 e 2023, e repassados a Samantha Santos Brose no total de R$ 14.700,00;
  • Depois, os valores foram novamente recebidos por Samantha Santos Brose de Anderson Martins da Silveira, Secretário da Comissão de Seleção da Fundação Municipal de Esportes, em 2021.
  • Por fim, movimentação financeira total do Instituto Bem Possível, indicando valores de R$ 214 mil relacionados a contratos com a Fundação Municipal de Esportes.

A análise dos sigilos bancários dos envolvidos também aponta para o envolvimento do advogado Andrey Cavalcante de Carvalho, que presta serviços para a Amazon Fort.

O relatório do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indica que o advogado recebeu valores expressivos de Carlos Gilberto Xavier Faria, proprietário da Amazon Fort, e de seu filho, Iuri Daniel Faria, através de saques em espécie realizados em agências do Banco do Brasil de Florianópolis, somando quantias substanciais.

Ed Pereira teria recebido constantes depósitos em dinheiro vivo, diz investigação – Foto: REPRODUÇÃO/NDEd Pereira teria recebido constantes depósitos em dinheiro vivo, diz investigação – Foto: REPRODUÇÃO/ND

O destaque da investigação recai sobre a possível prática de lavagem de dinheiro, evidenciada pelos saques em espécie feitos pelos envolvidos.

A autoridade policial sugere que tais saques foram realizados com a finalidade de garantir a contratação da Amazon Fort pela municipalidade. Carlos Gilberto Xavier Faria, já investigado por fraude em licitações na região Norte do país, é apontado como parte central dessas transações, enquanto o filho, Iuri Daniel Faria, é considerado articulador nos contratos da Amazon Fort com órgãos públicos.

O encontro entre Edmilson José Pereira Júnior, Carlos Gilberto Xavier Faria e Iuri Daniel, registrado em 08/04/2021, levanta suspeitas de possíveis acertos em favor da empresa. Coincidentemente, em 17/04/2021, ocorreu a prorrogação do contrato entre a municipalidade de Florianópolis e a Amazon Fort, indicando uma possível conexão entre o encontro e a renovação contratual.

Encontro entre Ed Pereira (à direita), Carlos Gilberto Xavier Faria e Iuri Daniel, registrado em 08/04/2021, levantou suspeitas da Polícia Civil – Foto: REPRODUÇÃO/NDEncontro entre Ed Pereira (à direita), Carlos Gilberto Xavier Faria e Iuri Daniel, registrado em 08/04/2021, levantou suspeitas da Polícia Civil – Foto: REPRODUÇÃO/ND

O relatório do COAF também destaca uma transferência de R$ 49.990,00 realizada por Carlos Gilberto Xavier Faria para Gilliard Osmar dos Santos, servidor público da Câmara Municipal de Vereadores e próximo de Edmilson. O COAF classifica essa transação como uma tentativa de burlar as regras do Banco Central, sugerindo origem ilícita do dinheiro, possivelmente relacionado a corrupção.

Outro ponto de destaque é a movimentação financeira de Samantha Santos Brose, esposa de Edmilson Pereira, que recebeu transferências de Gilliard dos Santos, totalizando R$ 2.726,00. A investigação indica que os valores destinados a Samantha possivelmente tinham Edmilson como real beneficiário.

Além disso, a apuração revela transações suspeitas envolvendo o Instituto Bem Possível, idealizado por Edmilson, indicando que a organização pode ter sido utilizada para recebimento de valores ilícitos. A instituição, presidida por Bernardo Fernandes Santos, assinou termos de colaboração com a Fundação Municipal de Esportes, movimentando milhões de reais.

Diante dos elementos apresentados, a autoridade policial propõe medidas cautelares, incluindo mandados de busca e apreensão, quebra de sigilo de dados de celulares e afastamento do exercício da função pública para os envolvidos. As medidas visam aprofundar a investigação e garantir a apuração completa dos fatos envolvendo quantias expressivas.

Lista de investigados:

  • Edmilson Carlos Pereira Junior (Ed Pereira, ex-secretário de Turismo, Cultura e Esporte);
  • Samantha Santos Brose (Esposa de Ed Pereira e ex-assessora Parlamentar do vereador Marquinhos, do PSC);
  • Rene Raul Justino (Diretor de Projetos da Fundação Franklin Cascaes, vinculada à Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Lazer);
  • Lucas Barros Arruda (Ex-Secretário do Meio Ambiente)
  • Gustavo Evandro Silveira Albino (Membro da mesa diretora da Câmara Municipal de Florianópolis)
  • Gilliard Osmar dos Santos ( Gerente de Fiscalização de Obras da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de Florianópolis)
  • Fabio Gomes Braga (Ex-secretário do Meio Ambiente)
  • Carlos Gilberto Xavier Faria (Proprietário da Amazon Fort)
  • Bernardo Fernandes Santos ( que assinou três termos de Colaboração, entre a Fundação Municipal de Esportes de Florianópolis e o Instituto Bem Possível)
  • Iuri Daniel Serrate Faria (Articulador nos contratos da Amazon Fort)
  • Andrey Cavalcante de Carvalho (advogado da Amazon Fort).

O que diz a Amazon Fort?

Em nota a Amazon Fort diz que está à disposição das autoridades. Confira:

A AMAZON FORT, vem a público esclarecer as matérias que estão sendo veiculadas na imprensa local e Catarinense, em razão da OPERAÇÃO PRESSÁGIO, deflagrada pela Policia Civil do Estado de Santa Catarina em18/01/2023. Com relação ao que está sendo veiculado e apurado, A AMAZONFORT irá colaborar para a devida elucidação dos fatos, sendo que os serviços prestados na capital do Estado de Santa Catarina, nos anos de 2021 e 2022,foram realizados com estremo grau de excelência e transparência, inclusive sendo atestado a capacidade técnica pela Secretaria do Meio Ambiente do Município.

Não há qualquer crime a ser apurado, o que será devidamente esclarecido no momento oportuno. A AMAZON FORT reforça seu compromisso com a ética, legalidade e lisura em suas operações, permanecendo a disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais e mantendo-se à disposição das autoridades.

O que a prefeitura argumenta?

O prefeito Topázio Neto (PSD) justificou que a Amazon Fort prestou serviços em Florianópolis mesmo após o fim da greve da Comcap, em 2021, porque não houve interesse de outras empresas para o recolhimento de lixo.

Em entrevista ao jornal ND, Topázio argumentou que, quando a Comcap entrou em greve em 20 de janeiro de 2021 e o lixo se acumulou pela cidade, à época, se fez uma contratação emergencial para recolhimento do lixo e Amazon se habilitou.

“Em 2021 ela recolheu o lixo e, em algum momento, começou a ter dificuldades, inclusive para comprovar pagamento de impostos para receber a remuneração a que tem direito. Quando identifiquei isso em 2022, quando assumi a prefeitura, o serviço prestado por eles estava muito ruim”, explicou o atual prefeito.

O que os citados dizem?

Ed Pereira

Ed Pereira usou as redes sociais para comentar a operação. Ele sugeriu tom político na operação.

“Eu quero acreditar que é pura coincidência que em 2024, ano de eleição, que essa investigação avance e que o meu nome acabe envolvido no processo. Inclusive, um dos agentes que participou da operação lá em casa parecia bem interessado pelo meu futuro político, ao ponto de afirmar que eu era candidato a vice-prefeito”, comentou.

Gustavo Silveira

Gustavo Silveira disse, através de sua defesa, que foi alvo de mandado de busca e apreensão e que está à disposição da investigação.

“Gustavo não tem nada para esconder de ninguém e vai responder a todas as perguntas. Essa é a atitude de quem não deve nada, né? Ele quer se apresentar o mais rápido possível para encerrar esse problema gigante que causa uma dor de cabeça“, afirma o advogado Marlon Bertol, que defende Gustavo.

Andrey Cavalcante Carvalho

O advogado da Amazon Forte, Andrey Carvalho, se demonstrou surpreso pelo envolvimento do seu nome na investigação.

“Recebi o fato com surpresa, uma vez que o próprio inquérito me atribui a condição de advogado da empresa, o que efetivamente sou. Vejo um terrível equívoco que pune a atividade advocatícia, criminaliza o profissional, e viola as mais comezinhas prerrogativas outorgadas à minha classe. Contudo, confio no Estado de Direito e no Poder Judiciário. Tenho certeza da lisura de minha atuação profissional desenvolvida ao longo de quase 3 décadas. E atuarei firmemente em defesa de minha honra e minhas prerrogativas”.

Fábio Braga

O ex-secretário de Meio Ambiente, Fábio Braga, disse que teve aval do jurídico da prefeitura para renovar com a Amazon Fort e que a reunião com os donos da empresa foi uma agenda normal.

“A renovação passou por todo o jurídico da prefeitura e foi aprovado pelo Tribunal de Contas e pelo Ministério Público. No processo é uma acusação de que eu não fiz licitação. Isso não é verdade”.

“No processo diz que me reuni com a empresa em determinado momento. Isso é a função do secretário, assim como recebo qualquer fornecedor de contrato que sou o gestor”.

Ainda não se manifestaram

O Grupo ND entrou em contato com os outros investigados, mas ainda não houve manifestação dos seguintes nomes:

  • Samantha Santos Brose (esposa de Ed Pereira e ex-assessora Parlamentar do vereador Marquinhos, do PSC);
  • Rene Raul Justino (diretor de Projetos da Fundação Franklin Cascaes, vinculada à Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Lazer);
  • Lucas Barros Arruda (ex-Secretário do Meio Ambiente);
  • Gilliard Osmar dos Santos (gerente de Fiscalização de Obras da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de Florianópolis);
  • Carlos Gilberto Xavier Faria (proprietário da Amazon Fort);
  • Bernardo Fernandes Santos (que assinou três termos de colaboração, entre a Fundação Municipal de Esportes de Florianópolis e o Instituto Bem Possível);
  • Iuri Daniel Serrate Faria (articulador nos contratos da Amazon Fort).