Fome, puxões e urina: creche particular em Florianópolis é suspeita de maus-tratos em crianças

Situação envolvendo a Bem-Me-Quer Desenvolvimento e Movimento é investigada pela Polícia Civil e Conselho Tutelar da Capital

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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Um caso de maus-tratos em uma creche particular de Florianópolis é investigado pela Polícia Civil e Conselho Tutelar. As supostas ações cometidas por uma funcionária da Bem-Me-Quer Desenvolvimento e Movimento foram relatadas por pais e denunciadas à polícia.

Uma professora percebeu a situação e teria feito filmagens para denunciar a situação – Foto: iStock/Divulgação/NDUma professora percebeu a situação e teria feito filmagens para denunciar a situação – Foto: iStock/Divulgação/ND

Uma mãe que pediu para não ser identificada relatou que a filha, de apenas 4 anos, chegava em casa todos os dias com fome. De início a mãe não desconfiou. “Acreditava que era pelo enorme parque em que corria”, disse. Porém, a situação continuou a se repetir.

A menina relatou então que na verdade estava com fome pois “a professora não me deu comida quando eu pedi”. Para a mãe, a situação foi tão estranha que decidiu começar a conversa com a escola, que negou a história.

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Vídeo relata agressões

Em um vídeo supostamente gravado por uma ex-professora e compartilhado pelos pais é possível ver a suspeita “abafando” o choro de uma bebê com uma coberta. De acordo com informações de pais ouvidos pelo ND+, a criança tem menos de 1 ano.

Vídeo supostamente gravado por ex-professora demonstra agressões – Vídeo: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Xixi e desespero

Um dia a filha de Jussara (nome fictício), além da fome, chegou em casa com a calça suja de urina. Já desfraldada (quando uma criança não usa mais fralda), a mãe desconfiou da ação. Ao questionar a filha, a criança contou que tinha ficado trancada em uma sala e tinha “gritado muito alto, mas ninguém abriu a porta”.

O relato foi confirmado pela antiga professora da escola que gravou as imagens para ter provas suficientes para denunciar as situações. De acordo com Jussara, esta professora relatou que sua filha teria ficado trancada pois começou a relatar aos pais os maus-tratos que sofria.

Agora, a pequena de apenas 4 anos chora antes de dormir. Aos prantos, grita para a mãe “por favor, não saia de perto”, conta, em lágrimas, Jussara. Ela também afirma que todas as noites precisa confirmar à filha que irá protegê-la.

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    Ex-professora tirou foto da alimentação que era oferecida para as crianças - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
    Ex-professora tirou foto da alimentação que era oferecida para as crianças - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
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    Supostamente "três rodelas" de banana eram dadas como lanche para os pequenos - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
    Supostamente "três rodelas" de banana eram dadas como lanche para os pequenos - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Tristeza absurda

“É muito difícil para a gente, é uma tristeza absurda saber que meu filho passou por tudo isso”, disse outra mãe, que também pede para não ser identificada. O filho dela, de 2 anos, também começou a relatar fome ao chegar em casa. Ela foi a primeira mãe a ser procurada pela ex-professora da escola para relatar as agressões.

O pequeno chegou um dia em casa “caidinho”, conforme o relato. A mãe do menino acreditava ser alguma doença, como a passada por ele em dias anteriores. Mais tarde, o relato da antiga professora confirmou para a mãe que o filho teria sido puxado pela orelha da rua até a sala. Isto, segundo a denúncia, foi motivado pois a mãe estava “muito desconfiada” de alguns comportamentos da criança e teria procurado a secretaria da escola.

Mães se unem

Cerca de dez mães uniram-se com outras quatro ex-professoras e, juntas, criaram um grupo de WhatsApp. De acordo com uma das integrantes, o intuito é divulgar as agressões e dar apoio umas às outras diante da “tristeza compartilhada”. As integrantes estão dando entrevistas sobre o tema e pedindo justiça por seus filhos.

Segundo uma das mães entrevistadas pelo ND+, a pedagogia da escola era atrativa e prometia um grande pátio, alimentação com prescrição de nutricionista e apoio aos pequenos. A mãe refere-se à metodologia da escola, que incluía um amplo espaço para “brincadeiras ao ar livre”.

Foto de criança cortada no rosto: a lesão teria sido supostamente feita por funcionária – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDFoto de criança cortada no rosto: a lesão teria sido supostamente feita por funcionária – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Providências legais

Ao ND+, a delegada da Polícia Civil, Michele Alves Correa Rebelo, explicou que o inquérito foi instaurado após denúncias recebidas. As investigações começaram neste sábado (2) e devem durar cerca de 30 dias. Inicialmente, de acordo com Rebelo, estão sendo ouvidos os pais das crianças.

A próxima fase será a oitiva com os funcionários da instituição privada. De acordo com a delegada, informações recebidas apontam que a escola está fechada.

Em nota, o Conselho Tutelar de Florianópolis afirmou que recebeu a denúncia e está averiguando a situação. De acordo com o texto, a Secretaria de Assistência Social poderá ser acionada caso sejam necessárias ações de acompanhamento posterior aos envolvidos.

Creche afirma que denúncias são “fake news”

Em nota, o escritório de advocacia que defende a Bem-Me-Quer Desenvolvimento e Movimento afirma que as denúncias são “fake news”. Confira abaixo:

“Considerando as ‘fake news’ divulgadas nas redes socais e os efeitos que as mesmas causarão as atividades da escola, bem como, em face do efeito negativo de sua divulgação, e ainda considerando aos danos financeiros que referida divulgação causará ao regular desenvolvimento das atividades da escola, a direção viu-se obrigada a SUSPENDER TEMPORARIAMENTE as atividades das escola, até a apuração dos fatos, para identificação da parte que vem praticando os atos ilícitos, para retornar as atividades da escola.

Vale ressaltar que a empresa trabalha desde o ano de 2016, prestando trabalho de excelência na área de educação infantil não possuindo registro de nenhuma suposta infração, prezando pelo excelente atendimento aos pais e alunos e atuando pessoalmente no atendimento e acompanhamento dos alunos”.

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